InícioOpiniãoOs custos do medo. Detrás e além da Covid-19 em Cabo Verde

Os custos do medo. Detrás e além da Covid-19 em Cabo Verde

Padre Hernâny Dias*

A Covid-19 alterou os hábitos e os estilos de vida de todos nós. Ainda hoje, enquanto lentamente e com as devidas cautelas tentamos recuperar a normalidade da nossa quotidianidade, pelo menos em Cabo Verce, não fomos totalmente capazes de mensurar todos os efeitos da pandemia nos contextos relacionais, culturais e produtivos.

Dentro do complexo cenário pandémico, a atenção concentrou-se principalmente (também no amplo debate mediático) nas intervenções emergenciais voltadas a apoiar as pessoas e a assumir o sofrimento psicopatólogico. Se por um lado, parece louvável que se tenha respondido rapidamente às necessidades das pessoas nos estádios iniciais da pandemia com ferramentas técnicas e científicas, agora é essencial, desenvolver modelos adequados para compreender o seu impacto no psiquismo, assim como prevenir o surgimento ou acentuação de qualquer sofrimento psíquico relacionado à atual situação de medo e incerteza.

Nesta conjuntura, é necessária uma reflexão primorosa sobre o medo, a emoção que frequentemente acompanhou e continua acompanhando as experiências de muitas pessoas em relação ao vírus e às novas variantes da Covid-19 e suas disseminações. O medo é uma emoção, de natureza desagradável, que é causada pela percepção de uma ameaça.

Como lembra o neurocientista afetivo Thierry Steimer, no seu artigo The biology of fear- and anxiety-related behaviors. Dialogues in Clinical Neuroscience, 4, o medo é geralmente ativado por estímulos externos potencialmente perigosos, que provocam respostas de estresse, levando à experiência psicológica de medo.

O medo desempenha um papel central na sobrevivência da espécie animal, incluindo os humanos. Na verdade, permite-nos enfrentar perigos por meio de reações de ataque e fuga, mediadas pelo sistema nervoso central, ou por reações de congelamento, que acontecem diante de uma ameaça inevitável. No entanto, níveis excessivos de medo, principalmente se prolongados ao longo do tempo, aumentam o risco de desregulação emocional e, consequentemente, de psicopatologia.

Durante uma pandemia, como esta causada pela Covid-19, o medo representa uma reação psíquica comum, já que a infecção é transmitida de forma invisível, rápida e há um risco aumentado de mortalidade. Nessa circunstância, o medo pode limitar a capacidade do indivíduo de regulação afetiva, processamento cognitivo e modulação comportamental. Por exemplo, pense nas notícias divulgadas na imprensa, segundo as quais várias pessoas que sobreviveram a um ataque cardíaco desistiram de ser examinadas no hospital por medo do contágio.

Em situações como a descrita acima, parece evidente que o medo induziu a uma distorção importante na avaliação do risco de morte, provavelmente causado por um “curto-circuito” no processamento emocional, levando ao comportamento (a renúncia de ser examinado no hospital após um ataque cardíaco) que, de facto, corre o risco de danificar o corpo em vez de protegê-lo.

Para além do medo do contágio, existe um outro aspecto inquietante a ser considerado. Não sabemos realmente quais serão os efeitos das mudanças sociais introduzidas com as medidas adotadas. Estamos fazendo um experimento naturalista em larga escala. Na metodologia da pesquisa social, fala-se de experiências naturalistas para indicar aqueles casos em que não é, como geralmente acontece, o experimentador que intervém na realidade, mas os eventos produzem certas mudanças e podemos ver quais são as consequências.

No cerne da questão, deve estar a ideia de que o medo relacionado à pandemia pode potencialmente envolver alguns domínios centrais da organização psíquica de um indivíduo: corporal (o corpo percebido como perigo ou sua hiper-proteção), relacional (o outro é um perigo), cognitivo (desinteresse temático ou hiper-informação) e comportamental (indecisão devido às incertezas e ontradições). Esses domínios do medo aparecem em interação constante e recíproca. Não podemos falar simplesmente do “medo da Covid-19”, mas de outras possíveis experiências de medo que se cruzam, influenciando a resposta individual ao estresse associado à pandemia.

Vários fatores combinam-se para explicar o medo. As explicações são sempre multifatoriais, baseadas num entrelaçamento de causas. Explicações a volta de uma causa, geralmente, são simplificações incorretas. Vamos ver alguns fatores em jogo (não todos).

O medo mal administrado. A chegada da Covid-19 em Cabo Verde despertou intenso medo, preocupação e perturbação. Fomos pegos de surpresa, em todos os níveis, de cidadãos comuns a gestores institucionais, a governantes, embora tenha havido quem alertasse sobre o risco do Sars-Cov-2, vírus altamente contagioso, espalhar-se pelo mundo.

Houve ênfase da mídia nas mortes por Covid-19, com informações superficiais e enganosas. Por exemplo, geralmente os números de óbitos foram e são relatados sem uma interpretação crítica dos dados, sem os denominadores (pelo menos quantos em quantos habitantes), sem ponderações (por idade, densidade demográfica, etc.) e descontextualizados, não enquadrados no complexo de óbitos por outras causas. Para dizer outra coisa, a insistência em histórias trágicas e impressionantes distraiu as avaliações estatísticas, que não são fáceis de entender especialmente para pessoas comuns, mas úteis para avaliar perigos.

O medo em si, embora forte, não é prejudicial numa emergência. No entanto, precisamos gerenciá-lo bem e torná-lo um “trampolim” para lidar melhor com os problemas. Foi aqui que erramos. Corremos para tentar travar a pandemia sem nos questionarmos muito, sem alargar o nosso olhar, pensando no futuro e compreendendo melhor o desafio que tínhamos pela frente.

A incerteza de uma saída: dos bloqueios às vacinas. O problema do medo mal administrado provocou a procura de uma saída para a pandemia, mesmo que seja incerta e talvez ilusória. No início, os bloqueios eram vistos como se fossem curas resolutivas. Depois das primeiras esperanças, com a segunda onda veio a decepção, uma decepção que não poderia deixar de chegar, pois sabemos muito bem que a prática de bloqueios leva a um típico andamento da curva epidémica. As esperanças foram então depositadas cada vez mais na vacina e, no momento, com a chegada da variante Ómicron, esta outra carta está sendo jogada. Com a crença mais ou menos clara e difundida, espera-se que ela possa “proteger-nos” das variantes do vírus.

Além das repercussões sociais e económicas, a condição de espera e suspensão do fluxo normal da nossa vida alimenta o sofrimento psíquico: estamos esperando – sem saber ao certo quando isso vai acabar – retomar nossos hábitos, nossos projetos, nossas rotinas, nosso cotidiano; mesmo o tempo de incubação nos coloca diante da espera da provável manifestação dos sintomas. Tudo isso limita nossas vidas, nossas possibilidades de ação e tira a força e a solidez do nosso sentido de estabilidade, alimentando possíveis medos, temores e ansiedades.

O antídoto mais forte para o medo é o desejo: comprometidos com um projeto coletivo, como a proteção de si e dos outros pelo estrito cumprimento das normas de saúde, admitindo medos, ansiedades e dificuldades, reconhecemos em cada um de nós a força para enfrentá-los e superá-los.

Em última análise, é inegável que o medo, em sua busca implacável do mito de segurança, gera isolamento e desconfiança entre as pessoas, mas ao mesmo tempo, se filtrada por uma confiança fundamentada, capaz de aceitar e tolerar alguma dose de incerteza e consciência de risco, pode atuar como “cola” social. Portanto, é necessário educar a essa confiança racional que muitas vezes esconde-se, esmagada pelo instinto, pela angústia, do medo “do medo”, da dificuldade em acolher o outro, com suas manifestas e silenciadas diferenças.

Nesta espera em que todos somos chamados a estar, reside, portanto, a esperança que suprime o estrangulamento da espera e nos permite olhar para o futuro. Sem esperança não somos capazes de carregar o peso de nossas responsabilidades.

 

  • Padre Hernâny Dias (Diocese de Mindelo): É Prefeito do Seminário Diocesano Cristo Bom Pastor; Assistente Espiritual da Comissão Diocesana da Pastoral Universitária; Coordenador do Secretariado Diocesano da Comunicação Social e Colaborador da Paróquia de São Vicente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

seven + one =

NOTÍCIAS RECENTES

Publicidade

spot_img

MAIS LIDAS