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Qui, Out

Rúbrica de Domingo: Conheça Beatriz Lúcio, uma jovem mulher “humorista” e “blogueira” e com forte conhecimento da realidade sócio-política do país

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A Rúbrica deste domingo foi conhecer uma jovem mulher natural da ilha de São Nicolau, mas que atualmente reside na capital do país. Trata-se de Beatriz Lúcio, uma personalidade com uma mente aberta, esclarecida e com grande potencial para uma análise “realista” das várias artérias da sociedade cabo-verdiana.

Beatriz Lúcio, contrasta entre o mundo Financeiro e a Comédia (Humor) é blogueira e possui um projecto acerca da Morna e a Guisa de São Nicolau. Confira tudo na entrevista que a Rúbrica do domingo teve com ela.

 

1 – Quem é Beatriz Lúcio?

Sou uma jovem mulher (36 anos), Cabo-verdiana e mãe de um rapaz de (6anos). Natural da Ilha de São Nicolau, porém vivi na ilha do Sal desde dos meus 2 (dois) anos de idade. A ilha do sal é aonde cresci e fiz o ensino secundário (12ºano de escolaridade) até sair para estudos superiores em Portugal – Cidade de Tomar. Me considero Cabo-verdiana, porém melhor me identifico como sendo de Sa(l) - Nicolau (não consigo me dividir entre as duas ilhas).

2 – Como é que tu vês a vida?

Considero que vivo LIVRE dentro daquilo que a abertura sócio-moral me impõe ou me permite! Vivo quebrando patrões e me aventurando e testando em diversos e distintas áreas do saber e do estar. Desde muito nova (época dos liceus) me colocava ente a matemática e a literatura. Entre a Politica e o Desporto. Hoje, na fase adulta é curioso me contrastar entre o mundo Financeiro e a Comédia (Humor). Sempre me considerei uma ativista tive e tenho uma voz diferente, ou melhor dizendo, mais próxima da realidade da situação e do dia-a-dia. Sou de dizer as coisas como eu as vejo sem as maquilhar (sem filtros).

3 – Qual a receita para uma vida mais descontraída?

Aceita-se a si próprio! Conhecendo e explorando as nossas dificuldades que encontramos no nosso percurso e no nosso trabalho de aperfeiçoamento e melhoria. Só assim, poderemos melhor aceitar ao outro dentro daquilo que também é seu trabalho e a sua evolução. Estamos todos num processo de melhoria. Só que nem todos no mesmo estágio (de evolução) e nem temos todos as mesmas prioridades de vida.

4– Vivemos tempos difíceis, tempos de grandes incertezas… Acreditas que o humor faz diferença na vida das pessoas, principalmente nestes momentos?

O Humor é a leveza da vida! Uma vida sem humor é uma vida demasiadamente pesada! Em momentos como esses em que ninguém sabe de nada! Ninguém sabe o quê e o quando? E (…), em quanto tempo iremos recuperar? E que muito de nós temos a vida a depender das decisões de OUTRÉM.O Humor torna tudo mais leve! Quando conseguirmos fazer piada da nossa própria vida, do nosso próprio existir, tudo torna mais suportável. Quando nos tornamos da nossa vida uma piada (boa) conseguiremos desenvolver empatia para a situação do outro.

5 – Pelo que sabemos és blogueira e possuí uma página de humor no facebook, o que retratas na tua página?

Essa é uma pergunta que ajusta com a resposta da pergunta anterior!

Num país com apenas - 45 anos de independência - estamos ainda a constituirmos enquanto país, nos posicionando enquanto povo e ainda testando os valores que queremos nos pautar enquanto, nação

Isso é muito determinado pela nossa estrutura macroeconómica. Os nossos meios de resistência e sobrevivência (individual e como povo) a nossa capacidade de criar riqueza.

Em países como o nosso, aonde um dos fatores económicos - o TRABALHO – (recordemos que são 3 – capital, terra e trabalho) é predominante na máquina do ESTADO. Então, o povo tende a ser subserviente e a ser de pouco debate, pouco confrontos ou pouco diálogo para não ser BEM ou MAL conectado.

Depois que ingressei o mercado de trabalho e encontrei essa carência de debate cientifico e de confronto de ideias, substituída, pela cultura de que não importa – o QUE se diz – mas sim - QUEM o diz -, então de forma a levantar alguns questionamento comecei a fazer aquilo que chamo – HUMOR INTELIGENTE – criei uma página do facebook - A Gata Fedorenta – inspirado no grupo Português – o Gato Fedorento - para abordar com humor determinados aspetos do nosso quotidiano.

Ultimamente, após o nosso primeiro solo de Stand-Up – É li mé qui nós é bom - o meu produtor me lançou como – Beatriz Lúcio – tive receio, de associar o meu nome à parte cómica devido à minha profissão. Mas depois aceitei! É como já disse lá a cima, precisamos nos aceitar. Normalmente, digo que o nosso sociopolítico, se bem trabalhado, é uma - eterna comédia. Posso perder um episódio da telenovela da noite mas o TELEJORNAl das 20:00, é o meu momento do dia.

 

6 – Também tens um projeto acerca da Morna e a Guisa de São Nicolau. O que pretende com esse projeto?

Um dos pontos da candidatura da Morna a Património Imaterial da Humanidade foi a da se retratar que a Morna, ainda hoje nos acompanha em determinados - rituais quotidianos -, como é o caso das músicas de ninar ao NASCER e o choro nos rituais da MORTE.

A Guisa de São Nicolau está bem presente nos funerais do povo daquela ilha quer o enterro aconteça dentro ou fora do país. Entretanto - a Guisa - ela é muito abrangente. É uma forma de estar e de ser daquele povo. Durante o – nojo – aquilo que em Santiago se chama de – visita – as choradeiras estão sempre presentes com o propósito de: “… enterrar os mortos e consolar os vivos…”.  O tal da esperança e resiliência do Cabo-verdiano. E, sim, pode-se identificar momentos de muita descompressão e humor à mistura com a consternação da perda.

Durante a minha pesquisa vou consolidando que as choradeiras possam ser mulheres com grandes sensibilidades pela representação e dramatologia que encontram nos funerais os seus minutos de Palco.  

Aproveito o projeto para fazer uma comparação (da Guisa de São Nicolau) com a morna da Boa Vista mais satirizada e num ritmo mais acelerado, a sua evolução (a da morna) para a ilha Brava e o seu romantismo que ganha com a poética do Eugénio Tavares e daí ara em frente (…).

 

7- Que pensas da forma de fazer política em Cabo Verde?

R: Num sistema que se torna normal assumir grandes cargos de muita RESPONSABILIDADE mas sem responsabilização das ações dos seus titulares, com o passar do tempo, nos parece que todos podemos exercer a política ativa e assumir grandes cargos de forma simples e leve. Tão só isso!

Analisamos sempre o “fazer politica” como sendo “ as ações dos políticos” mas vai-se tornando cada vez confuso saber quem é quem? Se um Diretor-Geral também é políticos? O PCA de um Hospital é um político? Se o Judiciário é politico, se o Diretor da Policia é politico? Então política é todos nós. Então, eu penso que fazemos Politica à moda Cabo-verdiana, à nossa imagem e semelhança.

8 – O que pensas do aumento de candidaturas independentes nas eleições?

R: Penso que a resposta terá de ser tipo sandwich! É, por um lado, muito bom sinal -, que mais não seja, pela tolerância, pelo respeito à posição contrária e o aceitar dos movimentos sem apoios das grandes máquinas partidárias. Por outro lado -, quando vejo para determinados círculos eleitorais e pela pequenez dos nossos Municípios, um número de independentes que possamos considerar demasiado sentimos a obrigação de chamar a atenção de que QUANTIDADE não é QUALIDADE. E, perante candidatos inexperientes quanto à própria vida, ao sócio -politico, o económico, o administrativo e legal da gestão  autárquica, desculpem-me, mas -, mas chega a soar a que talvez – chegamos à fase de brincar  à Politica – ou então, a política como forma de auto - emprego.

 

9 – Os jovens têm mostrado alguma resiliência relativamente a participação na vida política? Que achas sobre isso?

R: Eu apenas penso que politica não tem que ser obrigatoriamente ser o exercício de política ativa. Ou Politica,  político-partidária. E, é uma afirmação controvérsia? É só vermos para as listas às assembleias e às câmaras municipais de todo o país. Maioria são jovens. O que se sente, é que, talvez os mais capazes, os tecnicamente melhores instruídos, ou os eticamente melhores posicionados, se afugentam? Talvez, porque não se tem necessariamente de estarem nas listas para se estarem aptos aos melhores cargos administrativos públicos/privados.

10 – Sendo Beatriz Lúcio uma jovem experiente que conselhos deixarias aos jovens que, de uma forma ou de outra, enveredam por caminhos que não os da verdade e do bem, assim como àqueles que se escusam de participar na vida política, exercendo sobretudo o direito ao voto?

Diria que a cidadania, a emapia e o saber estar deve ser ensinado nos primeiros anos de vida. Sou a favor do respeito ao livre-arbítrio do próximo mas pediria a todos que exerçam com clareza e honestidade o vosso direito de voto.

Façam a diferença, votem!

 

 TN - Redação

 

 

 

 

 

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