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Qui, Jul

A denúncia da violência policial na obra de Spike Lee

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Em vídeo com imagens de “Faça a coisa certa”, cineasta americano famoso por tratar das questões raciais nos EUA destaca a repetição histórica que vitima pessoas negras no país.

 

O cineasta americano Spike Lee divulgou no domingo (31), em sua conta no Twitter, um vídeo de cerca de um minuto e meio de duração.

Intitulado “3 brothers” (Três irmãos), ele alterna cenas reais de violência policial nos EUA e imagens do longa de ficção “Faça a coisa certa”, escrito e dirigido por Lee em 1989. O vídeo estabelece uma ligação entre o assassinato de Eric Garner, em 2014, George Floyd, em 2020, e do personagem Radio Raheem. Protagonistas de histórias tragicamente semelhantes, os três são negros. “A história vai parar de se repetir?”, é a pergunta que inicia o filme.

O vídeo contém imagens sensíveis.

Capítulo mais recente dessa repetição histórica, George Floyd foi assassinado por um policial branco em Minneapolis, no estado americano de Minnesota, em 25 de maio. Floyd, que estava desarmado, foi imobilizado pelo policial Derek Chauvin no chão e morreu por asfixia – Chauvin manteve seu joelho por mais de oito minutos contra o pescoço de Floyd, que avisava não estar conseguindo respirar. O episódio desencadeou protestos em centenas de cidades dos EUA, que já completaram uma semana.

No video “3 brothers” foi exibido na TV americana durante a participação de Spike Lee em um programa especial da CNN, intitulado “I can’t breathe: black men living and dying in America” (Não consigo respirar: homens negros vivendo e morrendo nos Estados Unidos), que foi ao ar no domingo (31).

Terceiro longa de Lee, “Faça a coisa certa” é sobre as dinâmicas do racismo, das tensões raciais e da falta de comunicação entre grupos racialmente distintos, vistas no microcosmo do Brooklyn, em Nova York, na década de 1980. O conflito envolve a pizzaria de um italiano, Sal, onde uma parede exibe apenas retratos de celebridades dessa mesma ascendência – e portanto brancas – no bairro de maioria negra. O assassinato de Raheem, enforcado pela polícia, é o ponto culminante das tensões raciais e provoca uma revolta.

Com diferentes abordagens, a forma como a questão racial molda a vida dos americanos, principalmente dos negros, é o tema principal do diretor. Ele está presente desde seu primeiro filme, “A resposta” (1980), em que um roteirista negro é contratado para escrever o remake de “O nascimento de uma nação” (1915), conhecido por sua representação racista de pessoas negras, e permanece forte em produções mais maduras de sua obra, como a cinebiografia “Malcolm X” (1992).

O contexto do filme

Nos créditos finais de “Faça a coisa certa”, Lee dedica o filme às famílias de seis pessoas negras que tinham sido recentemente assassinadas em decorrência do racismo nos EUA. Cinco dessas vítimas – Eleanor Bumpurs, Arthur Miller, Edmund Perry, Yvonne Smallwood e Michael Stewart – foram mortas pela polícia. A exceção, Michael Griffith, foi atropelado ao tentar escapar de um grupo de jovens brancos que havia decidido atacar a ele e dois amigos também negros.

Para além desses episódios, a década de 1980 começou nos Estados Unidos com a primeira revolta de cunho racial ocorrida após as conquistas do movimento pelos direitos civis das décadas de 1960 e 1970. A revolta de Miami de 1980, como ficou conhecido o episódio, foi motivada pela absolvição de um grupo de policiais brancos acusados de espancar até a morte Arthur McDuffie, um motociclista negro que tinha passado um sinal vermelho.

O que mudou e o que não mudou de lá pra cá

Três décadas após “Faça a coisa certa”, as forças policiais americanas seguem incorrendo em atos brutais de violência que têm homens negros como alvo mais frequente. As revoltas desencadeadas por esses eventos são, ainda, catalisadas pela impunidade amplamente garantida aos responsáveis pelo assassinato de pessoas negras.

“O choque [provocado pelo filme hoje] é que, mesmo que muitos aspectos culturais e cívicos representados por ele tenham mudado, seu drama central – o assassinato de americanos negros pela polícia – continua inalterado e largamente irreparados”, escreveu o crítico Richard Brody na revista New Yorker em 2019, no aniversário de 30 anos de “Faça a coisa certa”.

À BBC, Lee falou sobre a raiva expressada pelos manifestantes nos protestos que vêm ocorrendo nos EUA após o assassinato de George Floyd. Ele a vê como uma resposta não só à violência policial e à impunidade dos agressores mas também à desigualdade racial e a injustiças que constituem a sociedade americana de forma mais ampla.

“Pessoas negras e não-brancas em geral estão indignadas com as desigualdades entre os que têm e os que não têm, [com a falta de acesso à] educação, beber água suja, racismo. Elas estão enfurecidas por uma razão. Não se nasce com raiva. Você fica com raiva por viver cada dia nesse mundo onde o sistema não é feito para que você vença”, disse.

TN com informações do Nexo