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Ter, Jan

Harry e Meghan: a decisão de se afastar da família real

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Casal anunciou que passará a ser financeiramente independente, dividindo seu tempo entre Reino Unido e América do Norte e abrindo mão de acompanhar a realeza em eventos oficiais.

O príncipe Harry e sua esposa, Meghan Markle, anunciaram na quarta-feira (8) que vão se afastar da família real britânica e, a partir de 2020, passarão a dividir seu tempo entre o Reino Unido e América do Norte.

Nascida na Califórnia, nos Estados Unidos, a ex-atriz morou em Toronto, no Canadá, durante as filmagens da série “Suits” (2011-19). Foi nessa época também que começou a namorar Harry.

Segundo o casal, a decisão vem após meses de reflexão. Meghan e Harry, que oficialmente têm os títulos de duque e duquesa de Sussex, afirmaram numa postagem no seu Instagram conjunto que esse é o primeiro passo para ambos se tornarem financeiramente independentes da família real. Eles também disseram que o novo arranjo será benéfico na criação do filho, Archie, que nasceu em 2019 e não tem um título real.

Dessa forma, eles deixam de se apresentar como membros “seniores” da família real, o que significa que eles não mais precisarão acompanhar a rainha em eventos oficiais. Filho de Charles e irmão mais novo de William, Harry é hoje o sexto na linha sucessória.

Mesmo com a decisão, Meghan e Harry declararam apoio total à Rainha Elizabeth II e afirmaram que pretendem honrar seus deveres com a Commonwealth (grupo de países que reúne o Reino Unido e suas ex-colónias). O tempo afastado das obrigações da Coroa será usado, também, para que o casal se concentre no lançamento de uma entidade beneficente.

No mesmo dia da publicação do anúncio, um comunicado do Palácio de Buckingham, residência oficial da rainha, afirmou que as discussões para o afastamento ainda estão em “um estágio inicial” e que, apesar de entenderem o desejo do casal, “esses são assuntos complicados que levarão tempo”.

Como a família real é sustentada

Meghan e Harry afirmam querer buscar “independência financeira” da família real. Como membros “seniores” da realeza britânica, são proibidos de obter qualquer outro tipo de renda profissional.

Em sua página oficial, eles afirmam que já houve precedente de membros da família que “apoiam a rainha mas também têm empregos em tempo integral além das responsabilidades com a Coroa”.

Harry e Meghan têm 95% de seus gastos oficiais cobertos pela renda com propriedades e investimentos privados do príncipe Charles, que em 2019 totalizou 21,6 esterlinas. O mesmo acontece com o Príncipe William e a esposa, Kate.

Já os outros 5% vêm do Sovereign Grant, um fundo pago à rainha anualmente. Ele não cobre despesas particulares, restringindo-se a gastos com recepções, concessões de honrarias, festas e outras viagens e eventos oficiais.

O cálculo do que é pago via Sovereign Grant é baseado no que a Coroa desembolsa ao governo do Reino Unido. Todo ano, a Crown Estate, entidade gestora do patrimônio da monarquia, paga ao Tesouro britânico uma porcentagem dos lucros que teve com o aluguel de suas residências, escritórios, lojas, empresas e centros comerciais. Em troca, a Coroa recebe de 15% a 25% dos lucros anuais para cobrir seus gastos oficiais.

Para 2020, o valor do Sovereign Grant será de 85,9 milhões de esterlinas. É desse fundo que Harry e Meghan estão a abrir mão com o anúncio.

O dinheiro do fundo também cobre custos de manutenção dos palácios reais, como a mansão Frogmore Cottage, residência de Harry e Meghan no Reino Unido. O imóvel é alvo de questionamentos desde que cerca de 2,4 milhões esterlinas foram gastos numa reforma em 2019. Meghan e Harry dizem que vão continuar a habitar o espaço quando estiverem no Reino Unido.

Outros afastamentos da realeza

O ex-assessor do Palácio de Buckingham Dickie Arbiter comparou a decisão do casal de se afastar da família real com a abdicação do rei Edward VIII, em 1936. Na ocasião, o nobre deixou o trono para se casar com a socialite americana Wallis Simpson, que já era divorciada duas vezes e, por isso, não era bem vista pela corte britânica.

Como monarca, Edward era chefe nominal da Igreja da Inglaterra, que não permitia que pessoas divorciadas se casassem novamente tendo os ex-cônjuges ainda vivos. Com o afastamento, seu irmão assumiu a posição: Jorge VI, pai da atual rainha da Inglaterra, Elizabeth II.

Segundo Arbiter, esse é o único outro caso na história moderna da realeza que se aproxima da situação de Harry e Meghan. Nos últimos anos, dois outros integrantes da família real pediram à rainha o afastamento das tarefas reais, mas mantiveram os privilégios financeiros. Os dois casos foram aprovados por Elizabeth II.

Em 2017, o príncipe Philip, marido da rainha, anunciou sua aposentadoria aos 96 anos de idade. Em 2019, o príncipe Andrew, terceiro filho da rainha, se afastou da vida pública no meio de polémicas após uma entrevista dada à BBC na qual falou de sua relação próxima com o magnata americano Jeffrey Epstein. Epstein, que foi acusado de tráfico sexual de menores, esperava seu julgamento em uma prisão em Nova York quando foi encontrado morto em agosto de 2019.

A relação do casal com o media

Antes do anúncio oficial de Meghan e Harry, a imprensa já especulava sobre uma possível decisão do casal nesse sentido.

Os tabloides britânicos não costumam poupar esforços ao investigar a privacidade dos membros da família real. Esse tipo de assédio foi marcante na vida da princesa Diana, mãe de Harry, que morreu num acidente de carro em 1997 enquanto fugia de paparazzis.

Meghan foi alvo de forte escrutínio dos media desde que começou o relacionamento com Harry, em 2016. Antes mesmo do casamento em 2018, relatos de que ela teria se aproveitado da família da meia-irmã para ascender começaram a pipocar nos tabloides.

Sua ascendência também foi alvo de matérias racistas que chegaram a afirmar que ela traria um “DNA rico e exótico” à família real. Meghan, que é filha de pai branco e mãe negra, é a primeira pessoa que se identifica como birracial a fazer parte do alto escalão da família real. Ainda em 2016, Harry divulgou um comunicado oficial em que questionava o tratamento que os tabloides e o público davam à sua então namorada.

Já casada, ela passou a ser criticada pela quebra dos protocolos da realeza, por supostamente passar uma imagem de pessoa difícil de se lidar e até pela forma como segurava seu filho publicamente. A perseguição se torna mais evidente quando comparada à cobertura de Kate Middleton, esposa do príncipe William. Em alguns casos, comportamentos similares rendiam elogios a Kate e críticas a Meghan.

Em outubro de 2019, Harry processou uma série de tabloides que publicaram cartas e acessaram correios de voz privados da esposa. Num comunicado, chamou o assédio da imprensa de “bullying” e expressou o temor de que “a história pudesse se repetir”. “Perdi minha mãe e agora assisto à minha esposa se tornar vítima das mesmas forças poderosas”, afirmou.