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Ter, Nov

‘E pluribus unum’: por que ainda se estuda latim no mundo moderno

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 O idioma continua sendo a principal ferramenta de académicos para desvendar o legado clássico do homem.

 

Apesar de ser cada vez menos usado, o latim ainda pode ser bastante útil. O latim foi a língua franca do mundo moderno por mais de mil anos. Era usado no comércio internacional e como língua de relação, entre o século VI a.C. até pelo menos o ano 550 d.C, quando o império romano entrou em decadência. O idioma tem esse nome porque surgiu na região do Lácio, às margens do rio Tibre, na Itália.

Como língua oficial do império romano, se espalhou pela Europa com as conquistas territoriais do império. Apesar de ser a língua-mãe de alguns dos idiomas mais falados no mundo, como espanhol e português, e de influenciar cerca de 60% dos vocábulos em inglês (através da influência francesa), o latim é praticamente uma língua morta.

Assim é classificado o idioma que não é falado por nenhuma população nativa. E mesmo no Vaticano, onde o latim é a língua oficial - a igreja o usa para propósitos ritualísticos e burocráticos - o idioma vem perdendo importância. 

Latim é fundamental para entender o mundo antigo 

Os estudos de latim seguem relevantes no meio académico, e não apenas por estudantes de letras ou direito. Ainda hoje, a literatura nas áreas de botânica, medicina, direito e teologia, por exemplo, usam muito o latim para batizar conceitos e espécies animais e vegetais. Ainda mais importante, o conhecimento do latim é a principal ferramenta de historiadores para desvendar a história da antiguidade.

Textos sobre filosofia, arquitetura, matemática, engenharia, biologia e ciências naturais e manuscritos históricos antigos sobreviveram aos séculos, mas precisam ser traduzidos para que o conhecimento neles seja resgatado. Especialmente para o português, há pouca tradução desses textos. Estudar latim é fundamental para ter acesso a esse material. 

A literatura clássica na sua forma original - Ovídio, Plício, Cícero, Virgílio - também só pode ser acessada por quem sabe latim. As versões originais, e não as traduções, são preferidas por linguistas para os estudos. Estudar latim ajuda também a estabelecer conexões, dar-se conta da etimologia de certos vocábulos e pode facilitar a aprendizagem de outras línguas, mas que esse efeito pode vir do estudo de qualquer outro idioma.

Ainda que conversar em latim não seja o principal fim de estudar o idioma, existem grupos de conversação que praticam a língua por hobby. Para reconstituir a pronúncia, estudiosos usam documentos metalinguísticos da época, que explicavam os sons do idioma.

Para os entusiastas, há inclusive uma lista de clássicos modernos, como Moby Dick, Orgulho e Preconceito e até a série Harry Potter que têm versões em latim - desafiando a ideia de que uma língua antiga seria incapaz de traduzir conceitos modernos.

Cursos das áreas de letras, direito e teologia costumam ter disciplinas de latim. Há também mestrados e pós-graduações na área, especialmente para linguistas. Ou seja: para estudar latim numa sala de aula, o melhor caminho é a universidade. Há também sites de notícias em latim, podcasts que ensinam o idioma e canais do YouTube com a mesma finalidade.

Abaixo, o Terra Nova recupera algumas das expressões em latim mais usadas. 

“Deus vult”

O primeiro registro da expressão aparece no contexto da primeira Cruzada. As Cruzadas eram incursões militares que saíam da Europa ocidental para a Terra Santa com o objetivo de conquistá-la e mantê-la sob domínio cristão. Em 1095, o papa Urbano II anunciou a primeira dessas missões, ouvindo como resposta o grito de guerra “Deus vult”. Em anos recentes, a expressão se popularizou entre apoiadores da extrema direita que veem as Cruzadas como símbolo de uma batalha de “valores judaico-cristãos” contra outras culturas. É o que bradavam integrantes da manifestação Unir a Direita, realizada na cidade americana de Charlottesville, em 2017. Vários deles portavam bandeiras nazistas e armas, gritando também slogans racistas e antissemitas.

“Quid pro quo”

Uma coisa por outra coisa. Na política americana, a expressão é usada em um contexto de troca de favores. Em outubro de 2019, ela aparece com frequência na imprensa dos EUA para descrever a pressão que Trump teria feito em cima do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, em diversas ocasiões, para que investigasse Hunter Biden, filho do pré-candidato do Partido Democrata à presidência, Joe Biden. Hunter era membro do conselho de uma empresa de gás ucraniana. Em retribuição, Trump liberaria ajuda militar ao país europeu. O auxílio já tinha sido aprovado pelo congresso americano, mas Trump reteve a verba e usava a liberação como moeda de troca. Em Cabo Verde, a expressão ganhou conotação de “confusão”.

“Parturiunt montes, nascetur ridiculus mus”

Se fez muito alarde para pouca coisa. Ao pé da letra, a expressão significa “A montanha pariu um rato ridículo”. Ela tem origem numa das fábulas do escravo e contador de histórias grego Esopo, “O Parto da Montanha”. A referência mais conhecida à fábula se encontra no poema “Ars Poetica”, escrito em latim pelo poeta romano Horácio no ano 19 a.C. 

“Verba volant, scripta manent”

As palavras voam, os escritos permanecem. Não há informações sobre a origem do provérbio latim. Segundo o historiador francês Jean Pierre-Bois, uma dos primeiros registros conhecidos da frase aparece em um discurso do imperador Tito no Senado romano, em torno de 50 a.C.. 

“Amici curiae”

No direito, o “amicus curiae” (amici curiae, no plural) é uma pessoa, entidade ou órgão que não está envolvido com o caso, mas auxilia a Justiça com esclarecimentos sobre pontos do processo. Ele pode participar voluntariamente do processo ou ser convocado. 

“E pluribus unum”

De muitos, um. A frase aparece no brasão dos Estados Unidos e no emblema do Sport Lisboa e Benfica. Nos EUA foi proposto para o brasão por um comité do recém-formado congresso americano, em 1776, a frase foi escolhida para simbolizar a união das 13 ex-colónias que declararam independência da coroa britânica para formar o país. Posteriormente, a frase passou a ser usada para representar a diversidade da população americana, composta de imigrantes de várias partes do mundo. É nesse sentido que Obama utiliza a expressão em seu discurso em uma cerimónia de lembrança dos atentados de 11 de setembro de 2011. “De muitos, somos um. Pois sabemos que nossa diversidade - nossa herança múltipla - não é uma fraqueza; ainda é, e sempre será, um dos nossos pontos mais fortes”, prosseguiu Obama.

“Pacta sunt servanda”

Apoiado na boa fé, trata-se de um princípio importante do direito internacional. A formulação é atribuída ao advogado, filósofo e estadista romano Cícero, aparecendo em seu tratado “De Officiis”, de 44 a.C., que expõe sua visão sobre obrigações morais, comportamento e modo de vida. Na era moderna, o princípio é destacado em “A era da razão”, do filósofo anglo-americano Thomas Paine. A expressão é citada nas primeiras linhas da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, ratificada em 1969 e que codificou o direito internacional com relação a tratados entre países do mundo. Segundo o documento, “os princípios do livre consentimento e da boa fé e a regra pacta sunt são universalmente reconhecidos”. Macron usou a frase num comentário sobre o anúncio do presidente americano, Donald Trump, de que os Estados Unidos iriam sair do Acordo de Paris do qual tinham sido signatários.

 

TN