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Dom, Set

Conheça a história dos africanos que foram à França enfrentar o nazismo

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Em 1944, 350 mil militares das colônias francesas na África, recrutados tanto voluntariamente quanto à força, desembarcaram na Provença, num episódio marcado por heroísmo e também racismo.

 

A França celebrou em 15 de agosto, na cidade de Saint-Raphael, na costa do Mediterrâneo, os 75 anos do desembarque de tropas na região da Provença. O episódio é pouco conhecido fora do país. Nessa mesma data de 1944, mais de 350 mil militares franceses chegaram às praias na reta final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). 

Esses milhares de homens compunham uma espécie de segundo exército da França. Eles haviam sido trazidos das colônias na África, na Ásia e na Oceania para reagir à ocupação nazista, numa grande ofensiva contra as forças de Adolf Hitler. 

Entre esses homens desembarcados na Provença, havia um contingente de africanos nascidos em países como Guiné, Costa do Marfim e principalmente Senegal. Alguns haviam se alistado voluntariamente. Outros haviam sido recrutados à força para arriscar a vida na linha de frente.

“A França tem em si uma parte da África”, disse o presidente do país europeu, Emmanuel Macron, em seu discurso em Saint-Raphael, 75 anos depois. Ao lado dele, estavam o presidente da Costa do Marfim, Alassane Ouattara, e o presidente da Guiné, Alpha Condé. 

Ao redor de 70% dos militares que combateram nas praias da Provença durante a Operação Dragão, como ficou conhecida a ofensiva, vinham das colônias francesas. “Nós não esqueceremos de ninguém”, disse Macron, para se referir a uma participação negra na Segunda Guerra que ele mesmo já chamou de um “episódio desconhecido” das páginas da história. Antes da ofensiva, a capitulação francesa

Quatro anos antes desse desembarque francês na Provença, as tropas de Hitler tinham marchado sobre Paris. Sob o comando do marechal Philippe Pétain, as forças francesas tinham capitulado à ocupação - uma decisão que permanece até hoje como um dos episódios mais vergonhosos da história da França. 

À época, Pétain moveu a capital para uma cidade chamada Vichy, 360 km ao sul de Paris. De lá, acuado e sem poder real nenhum, governou a metade sul da França, enquanto os nazistas ocuparam a metade norte.  

O plano de convivência pacífica imaginado por Pétain com os nazistas encontrou no general Charles De Gaulle seu maior rival. De Gaulle - ex-companheiro de Pétain no Exército e, como ele, veterano da Primeira Guerra Mundial (1914-1919) - se opôs ao acordo e passou a articular a resistência francesa no exílio, em Londres. 

De lá, com apoio do então primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, De Gaulle tentou a todo custo mobilizar as tropas que estavam nas colônias que a França mantinha sobretudo na África. O general francês pronunciava seus discursos na BBC de Londres, fazendo chegar uma mensagem de alento e de rebeldia aos franceses que não engoliam a capitulação de Pétain. 

Foi esse contingente animado pelo discurso de Gaulle, espalhado pelas colônias francesas, que desembarcou na Provença em 1944, na Operação Dragão.

Uma história dividida

Pode não haver tantos atos de heroísmo a serem celebrados numa história francesa marcada por capitulação, colaboracionismo e divisão. Mas o país se esforça, desde De Gaulle - que viria a presidir a França após a guerra, de 1959 a 1969 - para valorizar e realçar o lado de sua biografia vinculada à resistência francesa e à retomada da Provença em 1944.

Nessa tentativa de equalizar a história em termos mais favoráveis a si mesma, a França trata o desembarque na Provença como uma espécie de segundo Dia D. Apenas 62 dias antes, as tropas aliadas tinham desembarcado na costa norte do país, na Normandia, no verdadeiro Dia D. Esse primeiro episódio é celebrado até hoje como um marco central que levaria ao fim da Segunda Guerra Mundial. 

No Dia D original, na Normandia, os franceses haviam sido apenas coadjuvantes, atuando sobretudo por meio das FFI (Forças Francesas do Interior) na sabotagem de linhas de comunicação e de linhas férreas utilizadas pelas tropas nazistas. Mas, dois meses depois, na Provença, a ofensiva francesa, e também africana, foi decisiva. 

Generais rebeldes convertidos em herói 

Dos 350 mil homens que desembarcaram na Provença, no Dia D francês, 250 mil estavam sob o comando do general Jean de Lattre de Tassigny. 

Assim como De Gaulle, Tassigny fazia parte dos militares que não aceitavam a postura de Pétain. Quando os alemães cruzaram o Mediterrâneo na direção da possessão francesa da Tunísia, ainda em 1942, Tassigny ofereceu resistência, contrariando ordens expressas de Pétain. 

A desobediência custou a Tassigny uma temporada na prisão, da qual ele conseguiu fugir em 1943, e ressurgiu com moral redobrada para aglutinar as tropas francesas na África que estavam disposta a desembarcar na Provença no ano seguinte.

A participação dos negros

Os militares negros recrutados nas colônias foram incorporados a batalhões, regimentos e companhias já existentes, a maioria em função de infantaria. 

Esses militares eram conhecidos desde o século 19 como “tirailleurs”, ou “atiradores”, “fuzileiros” e “caçadores” em português. Embora viessem de diferentes países da África, eles ficaram conhecidos genericamente como “tirrailleurs sénégalais” (fuzileiros senegaleses).  Esses fuzileiros negros já haviam sido empregados anteriormente em batalhas coloniais e também da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), antes de se engajarem na Segunda Guerra Mundial pela França, num total de 180 mil homens. 

Os nazistas referiam-se aos militares negros como untermensschen (sub-homens). Quando capturados, os fuzileiros senegaleses não eram enviados a campos de trabalho forçado na Alemanha, como os demais prisioneiros de guerra inimigos, para “não sujar” o solo alemão. Eles eram mantidos em campos chamados de frontstalags, que ficavam na própria França ocupada. 

Discriminação entre iguais 

Nos 75 anos do desembarque da Operação Dragão, a imprensa francesa recuperou dois testemunhos de fuzileiros senegaleses. Os testemunhos são de Issa Cissé e de Alioune Fall, ambos do Senegal. Os dois foram incorporados em 1942, aos 20 anos, ao contingente francês. O primeiro, morreu em 2018, aos 96 anos. O segundo, em 2019, aos 97. 

Ambos contaram que, quando jovens, foram treinados em campos de instrução em Dakar antes de embarcarem para a Provença dois anos mais tarde. Os dois se alistaram voluntariamente para enfrentar os nazistas, encorajados pelos discurso que ouviam no rádio, do general De Gaulle.

Cissé e Fall contam que, apesar de lutarem lado a lado com os franceses brancos, eram tratados como inferiores. Os soldados negros ficavam o tempo todo sem camisa enquanto estavam estacionados no Senegal. Eles só podiam usar um modelo de uniforme sem colarinho, e unicamente nos dias de desfile. 

Os dois contam também que os militares negros comiam menos. A eles, era oferecida uma ração composta por uma xícara de mingau de milho no almoço, sem direito a café da manhã, nem sobremesa. 

Os dois jovens estavam entre os 350 mil militares desembarcados na Provença em 1944. O grupo deles chegou primeiro à Ilha de Elba, passando em seguida pela Corsa, antes de tomar a Península de Saint-Tropez.

Tomaram a cidade de Toulon naquele ano, onde ficaram estacionados e, durante dois dias, foram designados para se dedicarem exclusivamente a enterrar os corpos. Cissé conta que sempre sonhou com os cadáveres que empilhou em Toulon naquelas 48 horas. 

Na mesma cidade, as tropas francesas tiveram de agir para impedir que as forças de resistência executassem compatriotas que haviam colaborado com os nazistas recém-expulsos. 

A partir dali, o plano dos comandantes franceses era tomar o caminho pelo vale do rio Rone e pelos Alpes, para juntar-se com as tropas aliadas que avançavam a partir da Normandia, no norte, onde tinham desembarcado 62 dias antes, no Dia D. 

Ao subirem pelo mapa, entretanto, já na altura da Alsácia, vieram ordens superiores de “embranquecer” a tropa francesa. “De Gaulle nos impediu de acompanhar até a vitória final. Era um colonizador”, disse Cissé, anos mais tarde. 

Os dois foram condecorados anos depois, como heróis, mas viveram vidas simples até morrerem, com quase cem anos, no Senegal. 

Antes do ano de 1944 acabar, um grupo de fuzileiros senegaleses ainda seria vítima de um trágico episódio. Em dezembro daquele ano, pelo menos 35 deles, de acordo com dados oficiais, foram fuzilados por franceses depois de terem protestado contra um atraso de dois meses no pagamento do soldo. O episódio ficou conhecido como o Massacre de Thiaroye, nome da periferia de Dakar, onde a matança ocorreu. 

Esses fuzileiros tinham lutado pela França. Muitos deles tinham sido capturados pelos nazistas e foram enviados de volta ao Senegal, depois do avanço vitorioso das tropas aliadas. Outros tinham simplesmente sido desmobilizados por causa da estratégia de “embranquecer” as tropas que chegariam a Paris. 

“A França é boa, mas seus governantes não estavam do nosso lado. Muitos senegaleses deram a vida para que a bandeira francesa pudesse existir”, lamentava Cissé. 

Memória recuperada aos poucos

Assim como a história da França na Segunda Guerra junta uma faceta de heroísmo e outra de colaboracionismo, o mesmo ocorre no que diz respeito ao apoio dos fuzileiros senegaleses contra o nazismo. Assim como Macron convidou os presidentes da Guiné e da Costa do Marfim para a celebração dos 75 anos da Operação Dragão, e fez questão de dizer que o país tem uma dívida com a África, outros líderes franceses fizeram o mesmo no passado.

Em 2004, em Toulon, Jacques Chirac, discursou na celebração do 60º aniversário desembarque na Provença. Na ocasião, ele reuniu líderes de 20 países africanos. Dez anos depois, em 2014, foi a vez de o presidente François Hollande, repetir o gesto, no 70º aniversário da Operação.

Hollande viajou a Dakar e prestou homenagens aos fuzileiros enterrados no cemitério do Massacre de Thiaroye. Macron reforçou a iniciativa cinco anos depois. “Em 15 de agosto de 1944, milhares de homens, vindos principalmente da África, desembarcaram na Provença. Depois das horas sombrias de Vichy, a França enfim reencontrou sua liberdade e sua dignidade. Nós devemos muito à coragem deles, para que esta parte da história não continue desconhecida”, disse, ao saudar os veteranos do desembarque.