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Qui, Out

A destruição de livros na Turquia. E a história dessa prática

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Desde 2016, o governo de Recep Erdogan promoveu a destruição de mais de 300 mil obras ligadas a um clérigo acusado de golpe de Estado. Medo de publicações contrárias a regimes aparece em diversas eras.

 

Mais de 300 mil livros foram destruídos desde 2016 pelo governo turco por seu caráter supostamente subversivo. A revelação teria sido feita pelo ministro da Educação, Ziya Selcuk, e incluiu títulos didáticos, de ficção e de história. A notícia foi veiculada por sites de notícias do país.

O material foi eliminado por sua conexão com o clérigo muçulmano Fethullah Gülen. Ele é acusado pelo governo do presidente Recep Erdogan de encabeçar a tentativa de golpe de Estado de julho de 2016. Gülen nega envolvimento no episódio e hoje vive exilado nos Estados Unidos.

O ministro teria explicado que os livros eram publicações de 29 editoras que foram fechadas pelo governo central do país desde a tentativa de golpe. As empresas foram acusadas de “espalhar propaganda terrorista”, e seu encerramento teve forte impacto no mercado editorial do país.

Selcuk falou sobre as medidas depois de ser questionado por uma parlamentar da oposição. Ele disse que o ministério elaborou uma lista negra livros que se encontravam em repartições locais, escolas e bibliotecas escolares.

A medida soma-se a outros atos de destruição de material editorial dos últimos anos, relatados por sites como o Turkey Purge, mantido por jornalistas que denunciam abusos do regime turco, muitos dos quais vivem fora do país.

A página afirma que, em 2016, um livro de matemática foi censurado por conter as iniciais de Fethullah Gülen em uma questão com a frase “do ponto F ao ponto G”. No mesmo ano, 1,8 milhão de livros teriam sido incinerados por conterem a palavra “Pensilvânia”, estado americano onde Gülen reside atualmente. Gülen é um dos líderes da Hizmet, organização que tem presença em mais de 160 países. 

O medo dos livros 

A prática de suprimir livros indesejáveis existe desde que livros são publicados. Mesmo antes dos livros como os conhecemos atualmente, a história dá conta de episódios, na Antiguidade e na Idade Média, de destruição de manuscritos, pergaminhos, tábuas com inscrições e mesmo bibliotecas inteiras.

“E sucedeu que, tendo Jeudi lido três ou quatro folhas, cortou-as com um canivete de escrivão, e lançou-as no fogo que havia no braseiro, até que todo o rolo se consumiu no fogo que estava sobre o braseiro”, descreve a passagem bíblica Jeremias 36. No episódio, Joaquim, rei de Judá, lança às chamas um rolo escrito pelo profeta Jeremias, que depois é preso. O monarca não gostou da previsão divina contida no texto, que dizia que Jerusalém estava para ser destruída. 

Publicações desagradam autoridades e determinados grupos, em geral, por questões religiosas, morais ou políticas. Busca-se a supressão de ideias divergentes ou ofensivas. “O medo dos livros”, como colocou o escritor britânico Holbrook Jackson em livro de mesmo nome, não teme apenas os volumes em si, mas mais ainda a influência que eles podem ter.

Em “Outras Inquisições”, o escritor argentino Jorge Luis Borges vê a destruição de livros como uma ação de cancelamento da história. Borges lembra que, durante a tentativa de Oliver Cromwell de instalar uma república na Inglaterra no século XVII, o líder revolucionário “seriamente propôs que os arquivos da Torre de Londres fossem queimados, que qualquer memória do passado deveria ser apagada, e que todo um novo modo de vida deveria ter início”.

Condenada pelo Iluminismo como ato de barbárie, a queima de livros foi retomada no século XX por regimes ditatoriais.

Na Hungria, nos anos 20, durante o governo nacionalista de Miklos Horthy, sua “guarda branca” jogou obras na fogueira, incluindo livros de Friedrich Engels e Karl Marx.

Os atos na Hungria preconizaram eventos similares realizados na Alemanha nazista na década de 1930. A prática de incendiar obras se disseminou por diversas cidades alemãs, e tinha seus eventos anunciados pela rádio. Títulos lançados ao fogo incluíam literatura pacifista, volumes sobre arte “decadente” (como os da escola Bauhaus), a ficção científica do britânico H.G.Wells, manuais de educação sexual e literatura de inclinação democrata e progressista, de autores como Thomas Mann.

Os regimes comunistas da União Soviética e da China também realizaram campanhas de aniquilação de livros. Na década de 1940, o líder Josef Stalin ordenou que a coleção de literatura judaica de uma biblioteca em uma região judia autônoma fosse destruída. Logo que Stalin subiu ao poder, duas décadas antes, listas de obras a serem queimadas circularam pelas bibliotecas do país. 

No Chile, o regime de Augusto Pinochet fez fogueiras de livros, revistas e jornais nas décadas de 1970 e 80. O material condenado incluía obras marxistas, mas também títulos de sociologia e até livros sobre cubismo, que os soldados acreditavam ter relação com o regime de Cuba.

TN (Informações do Nexo)