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Sab, Ago

Por que queremos comentar tudo na internet

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Em entrevista ao ‘Terra Nova’, o psicólogo Diamantino Amadeu Tavares discute a ‘cultura do comentário’ que transforma as redes sociais em campos de batalha.

 

O leitor lembra quando a internet não era um ruidoso ringue de ideias? 

Antes dos bots, das fake news e dos trolls, lembra o psicólogo não-binário americano Devon Price, o usuário precisava vasculhar a web para encontrar ferramentas para publicar suas ideias. A maioria dos sites era feita para ler - e o leitor não era constantemente incitado a interagir com um comentário ou um emoji. Agora, diz Price, estamos a viver uma “cultura do comentário”. 

“Nenhum tópico - de celebridades a mudança climática - está imune do comentário público. Nenhuma atividade - de compartilhar fotos das férias a comprar maquiagem ou ler periódicos científicos - está isenta da barulheira das seções de comentários. As redes sociais se tornaram nada mais do que infinitas seções de comentários”, escreveu, em 22 de maio de 2019, no Medium. 

Entram nessa cultura as milhares de críticas de leitores que não leram as postagens que comentam, as réplicas de autores que não notaram que estão a conversar com robôs, as tréplicas de amigos (ou inimigos) de determinado assunto que, no fundo, ninguém domina direito. O ritmo é o mais acelerado possível, antes que alguém “lacre” e a “treta” esfrie e caia no esquecimento. 

Embora a internet tenha aumentado o acesso a possibilidades de comunicação e arte, abarcando mais vozes nos debates públicos, a janela aberta incluiu uma série de comentadores não-especialistas ávidos por expressar opiniões que confrontam argumentos de especialistas de determinada área.

“Uma pessoa que nunca leu nenhum estudo científico relacionado à mudança climática pode publicar seus pensamentos na seção de comentários do site do jornal The New York Times, logo abaixo das palavras de um climatologista que dedicou a vida inteira ao assunto”, exemplificou Price.

Ler ou não ler comentários 

O argumento lembra a famosa frase do escritor e filólogo italiano Umberto Eco, ao receber o título de doutor honoris causa na Universidade de Turim, em junho de 2015: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Os exemplos se multiplicam. 

Cientistas especializados no estudo de encefalomielite miálgica (também chamada de síndrome da fadiga crônica), por exemplo, tornaram-se alvo de assédio e campanhas de intimidação nas redes sociais, reportou a Reuters, em 18 de abril de 2019. 

A síndrome é uma condição pouco conhecida que pode causar cansaço e dor. Segundo pesquisas recentes, realizadas na Universidade de Oxford, na Inglaterra, trata-se uma condição biológica de difícil diagnóstico, que pode ser agravada por fatores sociais e psicológicos. Uma experiência clínica do psiquiatra britânico Michael Sharpe, por exemplo, indicou que pacientes podem apresentar melhoras com terapias, o que inclui conversação e exercícios. 

Nas redes sociais, usuários ficaram furiosos com a experiência, pois acreditam que o resultado quer dizer que a síndrome é simplesmente uma doença mental - o que o estudo não diz. “Para muitos cientistas, é o novo normal: das mudanças climáticas às vacinas, os comentaristas da internet e a ciência se enfrentam. E as plataformas dos media sociais contribuem para exacerbar a batalha”, descreveu a Reuters. 

Como as pessoas se comportam nas redes 

Os psicólogos americanos Justin Hepler e Dolores Albarracín, das universidades de Illinois e Pensilvânia, respectivamente, pesquisaram o ódio online. Num estudo publicado em 2013, eles conseguiram identificar dois tipos principais de grupos: o primeiro é curioso e aberto; o segundo é fechado a informações novas, não gosta do desconhecido e tende a ignorar ou desprezar fatos que possam contradizer suas ideias já formadas. É a lógica da bolha. 

No livro “O filtro invisível” (2011), o ativista americano Eli Pariser analisa como as redes sociais, com seus complexos algoritmos, filtram informações alinhadas às ideias dos usuários, rejeitando argumentos contrários, às vezes informativos e talvez promissores para um bom debate. 

No livro “Reading the comments” (2015), o académico americano Joseph Reagle, professor da Northeastern University, nos EUA, indica que os comentários podem informar, aprimorar, manipular, alienar e moldar as pessoas - além de assustar. 

Segundo Reagle, comentários podem afetar a autoestima, autenticidade e identidade das pessoas (para o bem e para o mal). Mas, ao mesmo tempo, podem fornecer um retrato da comunicação contemporânea e seu papel na sociedade. 

Escrever ou não escrever comentários 

O fenómeno também marca as redes sociais em Cabo Verde. Além do dilema de ler ou não os comentários, há ainda a questão de escrevê-los ou não: eles têm algo a acrescentar no debate? “Lacrar é preciso, debater não é preciso”, ironizou o jornalista Paulo Roberto Pires, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em artigo publicado na revista Quatro Cinco Um, em 23 de maio de 2019. 

“Um bom comentarista precisa em primeiro lugar ter tempo livre e uma metralhadora de ódio. O bacharel comentarologista deve evitar o trabalho, os hobbies e as atividades ao ar livre. É preciso entregar-se por inteiro à ociosidade. Tempo livre pois não só é preciso dar opinião sobre qualquer assunto, mas essa opinião deve ser dada o mais rápido possível”, criticou o economista Alexandre Andrada, professor da UnB (Universidade de Brasília), num artigo publicado no portal HuffPost Brasil, em fevereiro de 2015. 

Num texto de fevereiro de 2012 no caderno de tecnologia Link, do jornal O Estado de S. Paulo, o jornalista Alexandre Matias referiu-se ao impulso de opinar na internet como reação à avalanche de informação e sintoma de uma “ressaca da web 2.0” que, segundo sua expressão, “que permitiu a qualquer um dizer o que pensa online – e agora estamos a ver todo mundo dizer o que pensa só pelo simples fato que é possível dizer o que se pensa o tempo todo”. 

A jornalista americana Angela Watercutter, editora sénior da revista de tecnologia Wired, lembra o óbvio: só porque a possibilidade de comentar está aberta não quer dizer “é preciso” comentar ou reagir a publicações alheias. Muitas vezes é bem-vinda a máxima cristalizada pelos memes da atriz Gloria Pires no Oscar: “não sou capaz de opinar”. “Nos últimos anos, tornou-se necessário responder a tudo. Isso se manifesta de maneiras óbvias, como comentando nos posts do Facebook ou respondendo a mensagens no Twitter, mas também de maneiras mais mundanas, como os emojis. E os estímulos para esse input é constante. 

Cada twite, cada post no Instagram, cada Snap - todos eles saltam nos nossos smartphones como as gêmeas de ‘O Iluminado’ dizendo ‘vem brincar com a gente’. Não interagir parece grosseiro. Dar like nas publicações, impulsioná-las, é parte do atual contrato social”, Watercutter escreveu, num artigo de agosto de 2018. 

O Terra Nova conversou sobre essas questões com o psicólogo Diamantino Amadeu Tavares

O que explica o impulso de comentar tudo na internet? 

É difícil reduzir a um único factor para explicar o que leva as pessoas a  comentarem tudo que se posta na internet. Mas um dos factores fundamentais tem a ver com o facto das pessoas vêm a internet como uma forma de expressarem livremente, o que num outro espaço seria de uma forma reduzida ou mesmo impossível.  O próprio acesso a internet, hoje facilita, pois, em qualquer lugar ou circunstância, a pessoa tem acesso e acompanha tudo através do telemóvel, tablet. Assim sendo, nem todas, têm a capacidade de selecionar as informações que recebem, de controlar o impulso de participar ou não numa determinada conversa.

Qual o impacto desse fenómeno? 

Esse fenómeno pode levar a contornos sérios, pois, as pessoas têm perdido algum equilíbrio, causando situações desconfortáveis, isso tendo em conta, que é uma forma de comunicação em que pelo facto do emissor e receptor estão a manifestar de forma virtual, muitas vezes, perde - se o equilíbrio, o respeito, em que poderia salvaguardar se fosse numa comunicação presencial. 

Vê possibilidade de diálogo? 

Penso que sim. Mas é claro que isso depende em certa medida, da personalidade dos comunicadores. Mas a internet deve ser vista como uma forma de comunicação, de podermos debater ideias, de expressarmos livremente sim, mas, lembrando sempre que comunicarmos para o outro e que as mensagens que passarmos, têm impacto em quem as  recebem e em nós mesmos, pois, muitas vezes nessas situações aparentamos quem somos na realidade.

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TN - Redação (com informações do Nexo)