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Seg, Jun

30 anos depois como o massacre da praça da Paz Celestial ainda ecoa na China

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Repressão a jovens estudantes em Pequim completa 30 anos em 2019. Episódio deixou legado de violação aos direitos humanos e repressão política no momento em que o país comunista começava a buscar protagonismo na economia global.

 

Entre abril e maio de 1989, milhares de jovens – a maioria, estudantes – deram início a uma série de manifestações pacíficas em várias partes da China contra um dos regimes que, até hoje, segue como um dos mais autoritários e fechados do mundo.

Naquele ano, os jovens chineses desafiaram as autoridades e saíram de casa para protestar contra a repressão política e a corrupção dos dirigentes do Partido Comunista Chinês. Eles também defendiam maior liberdade de expressão e de participação nos assuntos de interesse público.

Os protestos representaram, na China, uma das maiores afrontas contra o Partido Comunista, que governava o país com mão de ferro desde a revolução comandada por Mao Tsé Tung, em 1949.

Emparedado pelas marchas estudantis, o governo reagiu com violência. A mando de Deng Xiaoping, líder político chinês, tropas e tanques de guerra foram colocados nas ruas, até que, no dia 4 de junho de 1989, abriram fogo contra os manifestantes em Pequim.

O episódio ficou conhecido como o massacre da Praça da Paz Celestial, ou massacre de Tiananmen. O nome do massacre – cujo 30º aniversário ocorreu ontem terça-feira (4) – é uma referência ao local onde ele ocorreu.

A Praça da Paz é um ícone da China, um gigantesco complexo histórico, onde está localizada a Cidade Proibida, que é o antigo palácio imperial da Dinastia Ming, construído no século XV, e o mausoléu de Mao Tsé Tung, concluído em 1977.

Ainda em junho de 1989, dias depois do massacre, o jornal americano The New York Times tentou confrontar as estimativas de número de mortos, mas concluiu que essa cifra talvez nunca venha a ser conhecida. O governo falou em pouco mais de cem “baderneiros”, mas há relatos atribuídos à Cruz Vermelha que falam em 2.600 vítimas fatais, enquanto diplomatas ocidentais presentes em Pequim naqueles dias falam em cifras que variam entre 300 e 1.000 civis mortos.

As causas dos protestos

O levante dos jovens chineses, em 1989, está ligado a causas nacionais e internacionais. Foi a soma desses fatores que encorajou os estudantes a desafiarem o regime nas ruas, culminando no massacre de 4 de junho.

Causas internas

Internamente, os estudantes chineses se sentiam encorajados pelas propostas reformistas que vinham sendo defendidas nos anos 1980 pelo então secretário-geral do Partido Comunista, Hu Yaobang. Ele vinha implementando reformas políticas e econômicas que eram percebidas como uma ameaça por seus adversários no PC Chinês, mas que agradavam aos jovens.

A tensão no interior do PC levou Yaobang a renunciar em 1987. Sua morte, em 15 de abril 1989, aos 73 anos, é considerada o estopim do início das marchas que culminaram no massacre da Praça da Paz Celestial. Desde então, sua memória foi proscrita da história chinesa.

Causas externas

A China de 1989 era peça essencial no xadrez da Guerra Fria – nome dado ao período do pós-guerra (a partir de 1945) que ficou marcado pela conformação de um mundo bipolar, em que os países capitalistas orbitavam ao redor dos EUA e os países comunistas ao redor da União Soviética e da China.

Em novembro de 1989, caiu o Muro de Berlim, que por anos dividiu a Alemanha em um porção comunista (a porção oriental) e uma porção capitalista (a porção ocidental).

Nesse mesmo período, na União Soviética, o então presidente Mikhail Gorbachev conduzia um ambicioso programa de reformas políticas (glasnost) e econômicas (perestroika), que levariam à dissolução soviética, em 1991. O próprio Gorbachev tinha visitado Pequim em 1989, dando impulso aos estudantes que defendiam a importação do projeto reformista soviético para a China.

A recepção de Gorbachev, prevista para a Praça Tiananmen, teve de ser desviada para o aeroporto, para driblar uma concentração de estudantes que já faziam greve de fome na Praça da Paz Celestial, contra o governo chinês.

No fim, o massacre da Paz Celestial deu um desfecho repressivo e trágico a um movimento reformista jovem que, segundo analistas, poderia ter iniciado um período de abertura política, como ocorreu na Alemanha Oriental e na União Soviética.

A imagem mais icônica dos protestos

Três dias antes do massacre, o governo chinês cortou o sinal ao vivo das emissoras de televisão e proibiu que a imprensa estrangeira registrasse imagens em foto e vídeo do que ocorria no país. À época, a internet era incipiente.

Na maioria dos países do mundo, incluindo Cabo Verde, a rede sequer estava disponível para uso doméstico e comercial. Smartphones e redes sociais não existiam. Mas, apesar da censura governamental e das restrições tecnológicas próprias do período, uma imagem captada em Pequim no dia 5 de junho de 1989 tornou-se mundialmente famosa. 

A imagem, captada à distância por fotógrafos e cinegrafistas estrangeiros, mostra um homem de pé, sozinho, numa avenida de tamanho monumental e deserta, desafiando uma coluna de tanques de guerra. O homem nunca foi identificado, embora haja diversas reportagens e até documentários que se propõem a revelar o mistério.

Nas imagens, ele segura sacolas plásticas, como um transeunte comum. Mas impede a coluna de tanques de avançar pela avenida. O primeiro tanque da coluna para. Em seguida, tenta desviar. Mas o homem continua enfrentando o primeiro veículo da fila, gritando algo que não é possível escutar. Depois de alguns minutos, outras pessoas se aproximam dele, a pé e de bicicleta, e o levam para a calçada. O homem tornou-se um dos maiores símbolos dos eventos ocorridos em abril e junho em Pequim. A imagem é até hoje proibida pela censura chinesa.

Como o massacre ecoa hoje

O governo chinês manteve protagonistas dos protestos presos por anos. Miao Deshun foi um deles. Preso em 1989, aos 25 anos, ele só foi libertado em 2016, aos 52. Acredita-se que tenha sido o último dos presos políticos da Praça Tiananmen, mas nem as organizações de defesa de direitos humanos têm certeza dessa informação.

No aniversário de 30 anos do massacre, houve poucos pronunciamentos significativos do governo chinês. “Este incidente foi uma turbulência política, e o governo central adotou medidas para deter as turbulências, o que é uma política correta”, disse o ministro da Defesa, Wei Fenghe, em um evento publico em Singapura. Em toda a China, foram reportados cortes nos serviços de internet e nas redes sociais. Alguns jornalistas foram impedidos de registrar imagens na praça. 

Politicamente, as mortes e prisões de manifestantes terminaram por dar a feição atual do regime chinês, onde ainda hoje prevalece a censura e a perseguição a dissidentes. A internet é censurada no país, assim como a imprensa e as atividades culturais.

O único partido autorizado a existir é o Partido Comunista Chinês e os advogados e ativistas de direitos humanos enfrentam a ameaça de perseguição e de prisões arbitrárias.

Economicamente, a China avançou na direção do mercado capitalista e se tornou a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA. O modelo chinês combina o forte controle estatal com um agressivo protagonismo comercial.

O 30º aniversário do massacre em 2019 coincide com uma guerra retórica e comercial entre os governos dos EUA e da China. Na segunda-feira (3), o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, publicou um comunicado no qual “saúda os heróis do povo chinês que bravamente se levantaram por seus direitos 30 anos atrás na Praça Tiananmen”.

Jornalistas pediram ao porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Geng Shuang, que comentasse o comunicado de Pompeo. Ele respondeu que “o balbucio demente dessas pessoas terminará na lata do lixo da história”. Na frente económica da disputa, o presidente dos EUA, Donald Trump, vem aplicando diversas sanções a empresas chinesas, especialmente contra a gigante das telecomunicações Huawei.

O governo chinês reagiu impondo retaliações a empresas americanas. Metade das empresas dos EUA que têm negócios com a China disseram ter sofrido represálias, enquanto um terço delas disse que está segurando novos investimentos.

 

TN (com informações da Wikipédia)