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Seg, Jun

Quais os percalços na transição democrática do Sudão?

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População tira presidente que estava há 30 anos no poder, mas cai na mão de uma junta militar que posterga eleições por 9 meses e mata 35 manifestantes num único dia.

Pelo menos 35 pessoas foram mortas e 650 ficaram feridas na segunda-feira (3) em Cartum, capital do Sudão, depois que militares abriram fogo contra manifestantes que pediam democracia no país. O grupo fazia parte de um acampamento montado há dias na frente do Ministério da Defesa.

Liderados por sindicatos, ONGs e outros grupos da sociedade civil, os manifestantes bloqueavam a principal avenida comercial da capital, a Nile Street, com pneus queimados e outras barricadas erguidas com detritos.

A matança interrompeu o caminho que o país tenta percorrer na direção da democracia. O cenário, no dia seguinte às mortes, era de comércio fechado, população escondida e silêncio total na capital do Sudão, de acordo com correspondentes internacionais. O contexto em que a matança ocorre A população local tinha conseguido derrubar o presidente Omar al-Bashir no dia 11 de abril de 2019.

O líder que governou o país por 30 anos permanece detido numa prisão local. A queda de Bashir foi antecedida por quatro meses de protestos de rua. Todo esse processo ajudou a reerguer uma sociedade civil combalida pelas três décadas de domínio de um único governante. A euforia, no entanto, começou a ser contida assim que uma junta militar assumiu o controle do processo de transição. Logo após a queda de Bashir, o ministro da Defesa do Sudão, Awad Mohamed Ahmed, fez um comunicado em cadeia de rádio e TV ordenando o fechamento do espaço aéreo e das fronteiras do país.

O controle da junta ficou, primeiro, nas mãos do general Ahmed Awad Ibn Auf. Em seguida, foi assumido por outro militar, Abdel Fattah al-Burhan, atualmente no cargo. Em todo esse tempo, a população foi mantida como espectadora das decisões da junta. Uma mesa de diálogo até chegou a ser criada entre os militares e a sociedade civil, mas não durou 50 dias. No dia seguinte à matança de segunda-feira (3), a instância foi oficialmente declarada suspensa.

A principal reivindicação dos manifestantes, a realização de eleições livres, recebeu como resposta de Abdel Fattah al-Burhan uma data distante: só ocorrerá em março de 2020. A proposta foi recusada pelos manifestantes ontem, terça-feira (4). A condenação internacional A matança em Cartum foi imediatamente condenada por vários governos do mundo.

“A violência gratuita das forças de segurança sudanesas contra manifestantes pacíficos em Cartum é repugnante. A Junta de Transição deve respeitar o direito ao protesto pacífico e acelerar a transição para um governo civil, tal como reivindicado corretamente pelo povo sudanês”, disse o conselheiro do governo americano para Segurança Nacional, John Bolton. O secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), o português Antonio Guterres, emitiu comunicado condenando “fortemente” a repressão contra os manifestantes. Ele disse ainda que há relatos de que militares atacaram civis dentro de instalações médicas em Cartum.

A União Africana de Nações também emitiu comunicado crítico à junta militar sudanesa. O presidente da organização, o chadiano Moussa Faki, condenou a violência, cobrou investigação independente e pediu que civis e militares retomem as negociações interrompidas. O Sudão tem um longo histórico de guerra civil. O ex-presidente Bashir foi condenado no Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, mas nunca foi capturado fora do Sudão nem cumpriu pena. Sua situação legal permanece indefinida.

A transição democrática interrompida pela instauração da junta militar e pela matança em Cartum colocam o país num dilema entre a reprodução das dinâmicas violentas do passado e a construção de um novo modelo de democracia e participação social pacífica. No fim de semana anterior à matança, membros da junta sudanesa tinham sido enviados para participar de diálogos internacionais na Arábia Saudita, no Egito e nos Emirados Árabes, numa busca por recursos financeiros, interlocução e legitimidade internacional.

A junta diz que trabalha para criar condições de estabilidade que permitam uma transição democrática dentro do prazo de nove meses, mas porta-vozes dos manifestantes atribuem aos militares de agora os mesmos “erros do passado”, em referência ao apego ao poder e ao caráter autoritário do governo anterior, de Bashir.

TN - Redação