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Seg, Jun

Entenda por que o termo ‘África subsaariana’ está a ser questionado

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Imprecisão e carga histórica negativa são razões dadas pelos que reivindicam que designação seja deixada de lado. 

 

Usado em livros didáticos, na academia, pelos media e por entidades internacionais, o termo “África subsaariana” abrange um conjunto de 46 países africanos abaixo do limite natural formado pelo deserto do Saara. 

Apesar do seu uso corrente, a expressão está sendo questionada por antropólogos e especialistas em estudos africanos, que veem nela um agrupamento reducionista que remete ao tempo colonial do continente. 

Argumentos contrários ao uso 

Agrupamento reducionista 

Um dos motivos para contestar quem se refere dessa forma aos países abaixo do Saara é a visão artificialmente homogênea de países muito diversos que o termo constrói. Além disso, o uso por vezes indiscriminado e impreciso geograficamente pode tê-lo esvaziado de significado. 

Enquanto a ONU (Organização das Nações Unidas) inclui 46 países na nomeação, excluindo Argélia, Djibuti, Egito, Líbia, Marrocos, Somália, Sudão e Tunísia, o Banco Mundial classifica como subsaarianos também o Sudão e a Somália, perfazendo um total de 48 países. 

Assim como a concepção vaga de “Ocidente”, por exemplo, usada para classificar contextos variados, a definição de África subsaariana também acaba perdendo o sentido. Além disso, países como Mali, Chade e Mauritânia, considerados subsaarianos, estão, na verdade, localizados na região do deserto. 

Quando o fundador do Facebook Mark Zuckerberg visitou pela primeira vez a Nigéria no fim de agosto de 2016, muitas manchetes de grandes media, incluindo a “CNN”, se referiram não ao país - a sétima maior população mundial -, mas à “África subsaariana”.

Englobar mais de quatro dezenas de países sob um único nome é uma simplificação que remete ao desconhecimento geográfico sobre o continente africano, ao qual figuras públicas muitas vezes se referem como um único país

Ligação com o passado colonial do continente 

A referência a uma “África subsaariana” veio substituir outros termos de conotação racial mais evidente, como “África negra” e “África tropical”, por volta dos anos 1950. Quem data essa origem é o antropólogo da Universidade de Columbia, Brian Larkin.  A linha divisória que o termo implica tem, portanto, raízes coloniais.

Além de parentesco direto com a antropologia evolucionista do início do século XX, segundo a qual as civilizações obedeceriam a uma hierarquia de desenvolvimento onde as metrópoles europeias seriam o ápice da civilização. Essa corrente se valia também de justificativas raciais para a dominação colonial, das quais derivam a ideia de que os países do norte da África, mais próximos ao Mediterrâneo, de etnia árabe e pele mais clara, seriam culturalmente mais desenvolvidos.

Por isso, para os críticos do termo, ele se tornou uma maneira de se referir pejorativamente à “África negra” sem ser abertamente racista. “[O termo] divide a África de acordo com ideias raciais, tornando os africanos do norte brancos o suficiente para serem levados em conta por suas glórias, mas nem tão brancos assim”, escreveu Tatenda Chinondidyachii Mashanda, estudante de política e Relações Internacionais na Wake Forest University, nos EUA, em um artigo para o site “African exponent”.

Essa batalha de denominações importa porque a dominação colonial na África teve também um forte componente linguístico. A imposição das línguas dos colonizadores e o consequente apagamento das línguas nativas, excluídas do ensino formal, por exemplo, são violências às quais a colonização submeteu os povos colonizados, entre eles os africanos.

Por que, então, o termo continua a ser usado

As nações agrupadas sob o nome têm, de fato, um passado colonial comum que frequentemente lhes legou instituições similares, línguas e relações próximas entre si. O “subsaara”, no entanto, é vasto demais para que a divisão favoreça o conhecimento desses traços. 

Além disso, o uso do agrupamento em “países subsaarianos” por entidades como o Banco Mundial, para organizar dados e estatísticas, torna jornalistas dependentes dessa categoria imaginária para se referir ao continente, suas tendências económicas e demográficas.

Académicos e mesmo governos africanos também acabam por se tornarem reféns da denominação quando elas são usadas pelas organizações que fazem investimentos e empréstimos a países africanos. 

TN - Redação (com  Nexo)