18
Qui, Jul

A obra alemã que já dura 13 anos e custa o triplo do previsto

Saber Mais
Tipografia

Acha que o Mercado do Côco na Praia já demorou tempo demais e já gastou muito dinheiro para além do previsto? Acha que isso acontece apenas em países menos desenvolvidos? Não.  A construção do novo aeroporto de Berlim, que deveria ter sido inaugurado em 2011, é pontuada por mau planeamento, erros de gestão e escândalo de corrupção. 

É comum a Alemanha ser retratada em outros países como um lugar de engenharia de excelência, poder público eficiente e cumprimento de prazos. 

Mas, em Berlim, capital do país, um novo aeroporto que deveria ter sido inaugurado em 2011 segue em construção e já gastou mais do que o triplo do previsto inicialmente. 

Motivo de piada e constrangimento para os moradores locais, a história do aeroporto é pontuada por mau planeamento, erros de gestão e escândalo de corrupção. O plano de construir um aeroporto comercial de grande porte na cidade data de 1990, após a queda do Muro de Berlim e reunificação do país.

A capital tem hoje dois aeroportos em operação, mas ambos de médio porte, com instalações que operam no limite para o volume de passageiros e poucas conexões diretas com outros continentes: existem apenas dois voos diretos por dia para os Estados Unidos, e nenhum para a América Latina.

Os dois aeroportos de Berlim, Tegel (uma ex-base militar na área que foi controlada pela França durante a Guerra Fria) e Schönefeld (uma antiga base militar soviética em Berlim oriental) receberam 34,5 milhões de passageiros em 2018.

O aeroporto de Frankfurt, o mais movimentado da Alemanha, recebeu 69,5 milhões de passageiros no mesmo ano. Ambos os aeroportos da capital alemã são operados por uma empresa pública, a FBB, que pertence aos estados de Berlim, de Brandeburgo e ao governo federal. A mesma companhia também é responsável pela construção do novo aeroporto, que se chamará Aeroporto de Berlim Brandeburgo “Willy Brandt”. 

Willy Brandt (1913-1992) foi um político social-democrata e chanceler da Alemanha de 1969 a 1974, agraciado com o Prémio Nobel da Paz em 1971 pelos esforços de conciliação entre a antiga República Federal da Alemanha, capitalista, e países do bloco comunista.

O plano inicial dos governos hoje envolvidos na empreitada era que uma operadora privada construísse e operasse o novo aeroporto. Um concurso foi realizado em 1998 e ganho pela empreiteira alemã Hochtief. O consórcio perdedor, porém, recorreu à Justiça e anulou o resultado. Uma nova proposta unificada para construir o aeroporto foi apresentada em 2002 pela empreiteira Hochtief e a empresa de património imobiliário IVG, que integrava o consórcio perdedor, estimando a inauguração em 2007.

A empresa pública FBB, porém, rejeitou a iniciativa e disse que ela mesma iria planear, construir e operar o novo aeroporto. As obras começaram em 2006, com inauguração prevista para 2011. A FBB, porém, não tinha experiência para realizar um projeto dessa magnitude, e a obra tornou-se palco de uma sucessão de erros de planeamento e execução e derrapagens de orçamento. A construção do aeroporto tinha sido orçada em 2 bilhões  de euros, e hoje está em 7,3 bilhões.

A sequência de atrasos 

Em 2010, quatro anos após o início das obras, a FBB anunciou que a inauguração precisaria ser adiada para 2012. A chanceler do país, Angela Merkel, confirmou a presença no dia da inauguração, em 3 de junho daquele ano, e um voo inaugural da Lufthansa para o novo aeroporto com um Airbus A380 foi planeado. Porém, menos de um mês antes da data, a inauguração foi adiada.

A partir desse momento, sucessivos atrasos no cronograma das obras e adiamentos foram anunciados. A atual data oficial de inauguração é outubro de 2020, mas, apesar do aeroporto estar praticamente pronto, há dúvidas sobre um novo adiamento.

Em 2016, um relatório feito pela fiscalização do estado de Brandeburgo concluiu que as três esferas de governo tinham má-administrado o projeto e que o conselho da FBB errou ao não ter resolvido os problemas no início. A própria fiscalização admitiu que falhou em não ter apontado falhas e responsabilizado os administradores antes. 

Os problemas 

MAU PLANEAMENTO 

O sistema de proteção contra incêndios é o principal ponto frágil da obra. O projeto original previa que, em caso de fogo, a fumaça deveria ser retirada do ambiente por meio de tubos de exaustão sob o aeroporto, o que não se revelou funcional. Além disso, houve problemas na instalação dos cabos de controle do sistema contra incêndio. O sistema de alarme em caso de fogo, que já deveria estar pronto, ainda não foi concluído. Em março de 2018, Thomas Dirk, um dos integrantes do conselho da Lufthansa, empresa aérea alemã, estimou que o aeroporto teria que ser demolido e construído de novo antes de sua inauguração. 

ESTIMATIVA DE DEMANDA 

O projeto original previa que o aeroporto seria um hub de distribuição de passageiros pela Europa, atraindo pessoas e estimulando a instalação de lojas no local. Em 2015, a FBB, empresa pública responsável, reconheceu que a projeção não se confirmaria. A Lufthansa já usa o aeroporto de Frankfurt como hub e não tinha interesse em transferir operações para Berlim. Além disso, a Air Berlin, companhia aérea que demonstrava maior comprometimento em usar o aeroporto como hub, faliu em 2017. 

FINANCIAMENTO 

Devido aos constantes atrasos, adaptações ao projeto original e derrapagens no orçamento, a empresa pública responsável pelo aeroporto quase foi à falência em 2016, evitada por um empréstimo autorizado pela União Europeia de 2,4 bilhões de euros.

CORRUPÇÃO 

Em agosto de 2016, um diretor da empresa responsável pelo aeroporto admitiu perante à Justiça ter recebido em 2012 propina de 150 mil euros  da empresa holandesa Imtech, responsável por parte da obra. Em troca, ele autorizou o pagamento de notas fiscais superfaturadas no valor de 60 milhões de euros. Uma auditoria interna já tinha identificado em 2012 que uma das faturas para a Imtech, no valor de 33 milhões de euros, tinha justificativas para apenas 18 milhões. Em 2015, o homem que denunciou um caso de corrupção que envolvia o aeroporto foi envenenado, e sobreviveu após três meses de recuperação. 

Os próximos passos 

A população de Berlim e da Alemanha acompanha com cepticismo as obras do aeroporto, cuja inauguração oficial agora é prevista para outubro de 2020. Contudo, um relatório de segurança de março de 2019 apontou deficiências persistentes no sistema de alarme de incêndio, e em maio de 2019 o administrador do aeroporto admitiu, num comunicado interno, que a data de inauguração “não poderia ser mais totalmente garantida”.

O poder legislativo de Berlim está envolvido na fiscalização da obra, por meio de uma comissão parlamentar de inquérito. Em maio de 2019, os partidos de oposição e da situação concordaram em expandir o escopo da comissão, que era restrito para fatos ocorridos até junho de 2018, para incluir todos os desdobramentos até o momento atual.

Apesar de o governo federal estar envolvido na construção do aeroporto, a chanceler alemã, Angela Merkel, já criticou publicamente os seguidos atrasos na obra. Em outubro de 2018, ao comentar a inauguração da maior ponte marítima do mundo, que liga Hong Kong à China, ela disse: “Os chineses, com quem nós mantemos diálogo oficial, se perguntam o que está a acontecer em Berlim, onde não se consegue nem construir um aeroporto com duas pistas”.