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Dom, Jul

Entenda porque Rússia e China ajudam Maduro a ficar no poder

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Financiamentos bilionários, exportação de petróleo, exercícios militares e votos no Conselho de Segurança estreitam laços de Moscovo e Pequim com um governo cada vez mais isolado. 

 

Toda vez que os EUA aumentam a pressão por uma mudança efetiva de governo na Venezuela, aumentam também as demonstrações de apoio da Rússia – e da China, em menor medida – ao presidente Nicolás Maduro. 

Os americanos, juntamente com dezenas de outros países consideram que o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, deve assumir o cargo de presidente interino da Venezuela no lugar de Maduro. Cabe ao opositor, dizem esses países, assumir o controle do Governo e convocar novas eleições, com base na interpretação de artigos da Constituição venezuelana.

Os russos, por sua vez, juntamente com a China, a Turquia e alguns outros poucos países, como a Bolívia e Cuba, consideram Maduro vítima de um golpe de Estado e de uma usurpação de funções por parte de Guaidó. Para esses países, a disputa de 2018, na qual Maduro foi reeleito, é idônea e seu resultado não pode ser desrespeitado.

Essa dinâmica de pressão e de apoio que envolve russos e americanos, e que tem na Venezuela seu vértice, traz de volta à política internacional elementos da Guerra Fria (1945-1991) – nome dado ao período em que a extinta URSS, comunista, rivalizava política e militarmente com os EUA, capitalistas. Esse embate não ocorre apenas na Venezuela. Ele apenas reproduz – com nuances próprias e renovadas – outras disputas que ocorreram recentemente entre russos e americanos em casos como o da Síria, da Líbia e da Ucrânia.

Em todos eles, Rússia e EUA assumiram posições antagônicas extremas com a intenção de ampliar as próprias vantagens econômicas, além de estender suas áreas de influência para locais que são considerados quintais de seus respectivos rivais.

Ameaças, advertências e outros sinais 

Os EUA falam em intervir militarmente na Venezuela desde pelo menos agosto de 2017. À época, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse: “Temos muitas opções para a Venezuela, incluindo uma possível opção militar se for necessário”. Em seguida, acrescentou: “Estamos em todo o mundo, e temos tropas em todo o mundo, em lugares que estão muito longe. A Venezuela não está tão longe.” No dia 1º de fevereiro de 2018, o então secretário de Estado americano, Rex Tillerson, voltou à carga, dizendo: “na história da Venezuela e dos países sul-americanos, às vezes os militares são o agente da mudança quando as coisas estão tão ruins e a liderança não serve ao povo”.

Em dezembro de 2018, dois bombardeiros supersônicos russos, modelo Tu-160 – além de um cargueiro An-124 e um avião de passageiros II-62 –, viajaram 10 mil quilómetros, de Moscou até o aeroporto de Maiquetía, nos arredores de Caracas, para participar de um exercício militar conjunto com a Venezuela. A OEA (Organização dos Estados Americanos) divulgou nota manifestando preocupação com a presença de “aeronaves militares russas com possível capacidade nuclear na Venezuela”. 

 ‘Anarquia e banho de sangue’ 

Quando Maduro e Guaidó se auto proclamaram presidentes legítimos da Venezuela ao mesmo tempo, em janeiro de 2019, a Rússia advertiu para o risco de “anarquia e banho de sangue” no país. A previsão do ministro adjunto de Relações Exteriores da Rússia, Serguei Riabkov, foi de um “cenário catastrófico” no país. Apenas 15 dias após a contestada posse de Maduro, a agência de notícias Reuters publicou reportagem em que dizia que “agentes privados de segurança em missão secreta para a Rússia voaram para a Venezuela”.

De acordo com a agência, aproximadamente 400 desses agentes estavam trabalhando como seguranças de Maduro. No dia 28 de janeiro, um Boeing 777, com capacidade para 400 passageiros, pousou em Caracas. O avião pertencia à companhia russa Nordwind Airlines, que nunca fez a linha Moscovo-Caracas. A viagem foi feita sem escalas e alimentou rumores de que trazia militares ou ouro para financiar Maduro. 

Mais uma tentativa de diálogo 

Na quinta-feira passada (31 de janeiro), o governo da China ofereceu-se para mediar um diálogo de paz entre as duas partes envolvidas na disputa pelo governo da Venezuela. 

Um ‘seguro de vida’ para Maduro 

A Rússia envia bombardeiros com capacidade nuclear para Caracas, enquanto a China se oferece para mediar diálogo. Seja pela ameaça de uso da força ou pela negociação, Maduro tem na ação de russos e chineses uma espécie de “seguro de vida”. A expressão foi usada pelo Víctor M. Mijares, cientista político da Universidade dos Andes, da Colômbia, em entrevista à CNN no dia 29 de janeiro.

Essa apólice funciona assim: para ser considerada legal, uma intervenção militar em país estrangeiro precisa configurar legítima defesa frente a uma agressão ou contar com aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Para passar no Conselho de Segurança, uma resolução sobre uso da força tem de receber o apoio de todos os cinco membros permanentes. É até possível que EUA, Reino Unido e França possam apoiar o uso da força na Venezuela em caso extremo, mas China e Rússia, não. 

Os interesses russos na Venezuela 

Chineses e russos são atualmente os dois maiores investidores estrangeiros na Venezuela. No caso da Rússia, a cooperação segue o rastro do petróleo venezuelano, além da geopolítica.

A Venezuela tem as maiores reservas de óleo bruto do mundo. Em dezembro de 2016, a estatal petrolífera russa Rosnet assumiu 50% das ações da Citgo, subsidiária da estatal petrolífera venezuelana, a PDVSA. Os russos revendem atualmente 13% do total de exportações de petróleo da PDVSA. A Rússia também refinanciou uma dívida de US$ 3,15 bilhões que o governo Maduro tinha com Moscovo, e, de 2005 a 2018, vendeu entre US$ 11 bilhões e US$ 20 bilhões em equipamentos militares para a Venezuela. 

A Venezuela, por sua vez, apoiou publicamente a Rússia em contestações territoriais que envolviam países do Leste Europeu, como a Ossétia do Sul e a Abecásia – regiões da Geórgia que se rebelaram em 1991 –, além da anexação russa da Crimeia, em 2014, e da legitimação da ação militar de Moscovo em favor do presidente da Síria, Bashar-al Assad. Por todas essas razões, “a Rússia fará de tudo para impedir uma mudança de regime na Venezuela”, disse à Al Jazeera Pete Duncan, professor de política russa na University College London.

Os interesses chineses na Venezuela 

A Venezuela é o maior destino de financiamentos chineses na América Latina. De acordo com dados do centro de estudos Diálogo Interamericano, entre 2005 e 2017, foram enviados US$ 62,2 bilhões da China para a Venezuela.

O valor absoluto é alto, mas vem caindo ano a ano, depois de ter atingido o pico de US$ 21,4 bilhões em 2010. A queda nos investimentos chineses é vista como um sinal de precaução diante da possibilidade de calote e de crise ainda mais grave, na interpretação do colombiano Mijares. Empresas chinesas atuam nas áreas de transporte, telecomunicações e energia, entre outras, na Venezuela.

Os pagamentos tem sido feitos em petróleo para a China. Como muitos desses contratos foram feitos sem o aval da Assembleia Nacional – controlada pela oposição e declarada ilegal por Maduro –, os chineses temem que uma troca de comando no governo venezuelano termine por glosar os pagamentos devidos. 

 

TN com informações de www.scoopnest.com e Nexo