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Qui, Fev

Os chineses chegaram ao ‘lado escuro’ da lua. Mas o que tem por lá?

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Os chineses pousaram na lua. Uma sonda não tripulada chegou ao chamado lado escuro, lado oculto do satélite natural que orbita a terra. Mas o que tem lá que tanto nos encantam a nós terráqueos? E porque o feito chinês foi parar nas marchetes dos jornais de todo o mundo? O Terra Nova foi investigar e com a Nexo Jornal responde agora a estas perguntas. 

 

Ás 10h26 de manhã no horário de Pequim, um pouquinho depois das 19 horas de Cabo Verde, de ontem, as agências estatais chinesas comunicaram que a sonda Chang’e 4 pousou com sucesso na lua. 

Porque esse facto é notícia de repercussão internacional         

O pouso no lado escuro ou face oculta da lua é inédito. Foi a primeira vez que humanos ficaram pés ali, ainda que sejam pés mecânicos de uma sonda espacial guiada á distância. A sonda que foi lançada há quase um mês, no início de dezembro, pela China, tocou hoje, de forma suave, na cratera Cratera Von Karman de 186 km de diâmetro. Essa cratera que fica na bacia de Aitken, no polo sul da Lua, é uma das maiores crateras conhecidas do sistema solar e uma das mais antigas da lua. 

“O homem abriu um novo capítulo na exploração lunar” diz a Agência Espacial Chinesa num comunicado oficial. 

Tem também uma relevância geopolítico nesse pouso. Isso porque ele representa um marco no ambicioso programa espacial chinês. É um programa ainda distante do programa dos EUA com a NASA em termo de dinheiro.

São para ficar com uma ideia, enquanto os chineses tem um orçamento estimado em 6 bilhões e dólares para a exploração espacial, os americanos investem 40 bilhões. Mas, de qualquer forma, conhecer mais e mais o espaço é uma prioridade do governo chinês que se vai projectando como potência global diante dos americanos.

É bom ter em conta que existe uma guerra comercial em curso entre as duas super potências e esta corrida espacial agora, faz lembrar, um pouco, a corrida dos tempos da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética com um tom bem menos bélico, é verdade, tanto que o administrador da NASA, agência espacial americana, celebrou o sucesso chinês.

Ele escreveu assim no Twitter: “parabéns á equipa da Chang’e 4 da China pelo que parece ser um pouso bem sucedido no lado escuro da lua. Essa é uma primeira vez para a humanidade e uma realização impressionante!” 

A China está a recuperar-se do atraso de ter iniciado a corrida espacial bem mais tarde do que os EUA e a Rússia. O primeiro astronauta chinês a ir para a órbita da Terra foi em 2003.

O americano Neil Armstrong poisou e pisou na lua há quase 50 anos, em 1959. Enfim, é verdade que houve diversas missões à lua de países diferentes nos últimos anos mas a grande maioria foi na órbita lunar e a última missão a poisar no satélite com seres humanos foi Apollo 17 em 1962.

Lembrando que só americanos pousaram no solo lunar. Entre missões tripuladas e não tripuladas o pouso sempre deu-se na parte visível da Terra e nunca no dark side, o lado escuro. 

O que é, afinal, este lado oculto?

Para começar, não é que nesse lado oculto não chegue luz como muitos poderão imaginar. Os raios solares chegam lá normalmente. Mas o facto é que esta parte da lua onde os chineses pousaram, nunca foi vista da Terra.

Por causa de um fenómeno chamado de rotação sincronizada, só conseguimos ver uma face da lua. Isto quer dizer que o tempo da rotação da lua é igual ao seu período orbital, ou seja, o tempo em a lua gira em torno ao seu próprio eixo, movimento chamado rotação, é igual ao tempo que ela leva para girar ao redor da Terra, movimento chamado de translação.

É essa sincronia entre rotação e translação que faz com que, para nós no planeta Terra, um lado da lua fique sempre oculto. Isso sempre atiçou a curiosidade humana Além de ter dado nome a um famoso disco dos Pink Floyd nos anos 60, o The dark side of the moon.

Graças a missões anteriores que sobrevoaram o lado oculto da lua, já se sabia que tem uma superfície bem mais acidentada do que a face que é visível da Terra. Essa característica somada à dificuldade de comunicação tornava muito dificultoso p pouso suave no dark side. 

Objectivos do pouso

Entre os objectivos do pouso da China está o de colectar material lunar para entender mais sobre essa geologia e como esse satélite natural foi formado. A cratera onde a sonda pousou é também por ser a mais antiga da lua fruto de um fortíssimo impacto que atingiu e penetrou a crosta lunar há muito tempo até à zona chamada de manto.

Além disso a sonda chinesa leva experimentos biológicos. Leva ovos de bicho da seda, sementes de batata e flores para observar a germinação, o crescimento e a respiração em condições de baixa gravidade na superfície lunar.

A ideia é fazer estudos preliminares para uma eventual colonização humana da lua. A sonda carrega ainda um rádio telescópio que vai fazer observações do universo num raríssimo lugar  do sistema solar, livre da interferência de rádios das transmissões artificiais na terra. 

Dificuldades e perspectivas 

Essa incomunicabilidade com a face obscura da lua acrescentou dificuldades à missão chinesa. É impossível estabelecer uma linha direta de lá pra cá na Terra. Então os chineses tiveram de lançar em maio um outro satélite de comunicações para orbitar ao redor da lua de onde poderia tanto a sonda que pousou ontem como o controle da missão na China.

Os esforços dos chineses para conhecer e entender mais sobre a lua não param por aí. Essa sonda que alunissou (esta é a palavra correta porque aterrar é na Terra) ontem é a quarta de uma série de missões chinesas rumo ao satélite natural.

A primeira e a segunda lançada em 2007 e 2010 foram para conhecer a órbita lunar. A terceira foi lançada em 2013 e pousou na face visível da lua preparado o caminho para o pouso atual. Estão previstas, ao menos, mais duas missões lunares: uma ainda em 2019 e a outra que deve ocorrer entre 2022 e 2024.

Tudo isso para que perto de 2030 seja então enviada uma missão atribulada chinesa para a lua. Embora essas informações tem muito de especulativo uma vez que são informações que na China são muito controlados pelo governo e atende aos interesses do Estado.

Lembre-se que a China não é uma democracia e não tem nem eleições diretas nem imprensa livre. A própria divulgação do pouso de ontem esteve envolto em mistérios e vai-e-vem, não se sabia exatamente a hora em que ia acontecer. O horário do pouso só foi anunciado de forma não oficial na rede social chinesa Weibo