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Qua, Jan

Caneta esferográfica. Conheça a sua história e como ela mudou a caligrafia

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Instrumento que substituiu a caneta tinteiro se difundiu a partir da década de 1940, introduziu maior praticidade e um novo estilo de escrita.

 

Se hoje muitos podem prescindir dela, fazendo suas anotações quotidianas no telemóvel ou em outros dispositivos eletrónicos, a caneta esferográfica representou uma pequena revolução tecnológica quando se tornou mais difundida, em meados do século XX.

Até então, o instrumento titular de escrita era a caneta tinteiro, que precisava ser alimentada constantemente pelo conteúdo de um frasco de tinta e requeria extremo cuidado para não produzir borrões na folha de papel.

Além da praticidade, a caneta esferográfica introduziu uma mudança na própria maneira de escrever – relacionada à espessura da tinta, mais grossa em relação à caneta tinteiro, e à firmeza na mão necessária para escrever com ela. 

A invenção

A criação da caneta esferográfica normalmente é creditada ao jornalista húngaro László Bíró. Antes dele, porém, o princípio da caneta esferográfica já havia sido patenteado por John Loud em 1888.

Loud era um americano que trabalhava em um curtume, e a invenção teria surgido com o propósito de marcar peças de couro, não chegando a ser explorada comercialmente.

Nas décadas que se seguiram, muitas outras patentes de canetas esferográficas de diferentes tipos foram registradas, sem tampouco chegarem a ser comercializadas.

Sua concepção mecânica funcionava, mas a tinta usada ainda era fina, como é necessário que seja para fazer fluir a escrita com a caneta tinteiro.

Na caneta esferográfica, porém, a tinta fina embutida na carga da caneta acabava vazando, sujando bolsos e manchando papéis.

Com a colaboração de seu irmão, o químico György Biró, László realizou a mudança essencial para que o novo objeto fosse incorporado. Fizeram experiências com tintas mais grossas e de secagem rápida.

Com o tempo, conseguiram chegar em uma combinação de tinta e design da ponta e da esfera que impedia que a caneta vazasse (em grande quantidade). A primeira patente da caneta de Biró data de 1938.

Logo depois, porém, ele precisou fugir da perseguição nazista que tomou conta da Europa, e entrou com um novo pedido de patente em 1943, na Argentina, onde se estabeleceu.

No mesmo ano, a Força Aérea Britânica buscava um modelo de caneta que suportasse altitudes e pudesse ser levado nos aviões de combate sem vazamentos, e comprou 30 mil das canetas de Biró.

Em 1945, elas começaram a ser vendidas em Buenos Aires e logo depois se espalharam pelo mundo, tendo sua patente vendida para empresas europeias e americanas.

Marcel Bich, que comprou os direitos de patente da esferográfica na França, foi criador do design responsável por barateá-la: quando chegou ao mercado em meados da década de 1940, uma esferográfica custava o equivalente hoje a cerca de US$ 100 (cerca de 9 mil escudos). Na década seguinte, seu preço já estava na casa dos centavos de dólar nos Estados Unidos.

O impacto na cursiva

Num artigo para a revista The Atlantic, o professor Josh Giesbrecht discute como a passagem da tinteiro para a esferográfica modificou a caligrafia.

Segundo ele, a tinta mais grossa alterou a experiência física de escrever, e não necessariamente para melhor.

Escrever com tinteiro exige ter a mão leve e remover a ponta da caneta do papel nos intervalos entre palavras e frases, já que o mero contato com a superfície produzia uma gota de tinta.

Além disso, a tinteiro produzia uma caligrafia fluida, de letras conectadas, como a que é difundida pelo método Palmer, popular entre o final do século XIX e início do XX.

A mão que escreve com a esferográfica, por outro lado, necessita ser mais firme e tesa, capaz de fazer uma pressão maior no papel para que a tinta saia, em vez de apenas tocá-lo. Essa posição produz um resultado distinto, que, segundo Giesbrecht, favorece a letra de forma, não a cursiva.