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Ter, Mar

Japão volta à caça comercial de baleias. Entenda o que isso significa

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Com mudança, Japão deixará de caçar na Antártica e em outras águas internacionais, e passará a caçar em territórios sob seu controle ou destinados à sua exploração 

 

No dia 26 de dezembro de 2018, o secretário de Estado do Japão, Yoshihide Suga, anunciou que o país deixaria a CBI (Comissão Baleeira Internacional), da qual participava desde 1951.

Dessa forma, abandona oficialmente o acordo que vigora desde 1986 e que estabeleceu uma moratória para a caça às baleias. Na prática, o país já vinha, no entanto, caçando os animais com a justificativa de realizar pesquisas científicas, vendendo posteriormente sua carne.

Com a saída da entidade, o território em que a caça ocorre deverá ser restrito ao território japonês ou águas internacionais destinadas especificamente à sua exploração econômica.

De onde vem a moratória 

Apesar de já ser realizada anteriormente em menor escala em diversas partes do mundo caça industrial de baleias se iniciou no final do século XIX, junto ao desenvolvimento de técnicas como o navio a vapor e arpões explosivos - eles estouram após penetrar a baleia, garantindo sua morte.

Inicialmente, a caça industrial tinha como objetivo principalmente extrair óleos dos cadáveres das baleias, usado como combustível para iluminação e para a fabricação de sabão.

O drástico declínio populacional das baleias levou à articulação internacional para que a sua caça fosse racionalizada no século XX. Em 1946, uma convenção sobre o tema foi realizada nos Estados Unidos, levando à fundação da CBI, que tem como objetivo declarado preservar as populações de baleias de forma a garantir o desenvolvimento da indústria baleeira.

Após uma década de debates, o veto à caça comercial de baleias foi acordado em 1982 pelos países membros da entidade, que definiram que a regra passaria a valer apenas em 1986.

Inuítes, e outros povos que mantinham a prática tradicional, poderiam continuar a caçar os animais para fins de subsistência.

Dos 32 participantes que votaram em 1982, somente 7 foram contra a medida: Brasil, Islândia, Coreia do Sul, Japão, Peru, Noruega e a União Soviética. Segundo informações publicadas na época pelo jornal americano The New York Times, Japão e Noruega defenderam que fossem criadas excepções, para que pudessem continuar a caçar.

Quais países continuaram a caça

Logo após o início da vigência da moratória, em 1986, o Japão lançou seu programa para caça de baleias com fins científicos, que vem desde então enviando missões de pesca duas vezes ao ano à Antártica e outras regiões do hemisfério Sul.

Para a maior parte dos ambientalistas, trata-se de um artifício para a manutenção da caça comercial, já que a carne é vendida após ser estudada.

Anualmente, o país mata entre 200 e 1.200 baleias. 333 Baleias minke foram mortas pelo Japão na última temporada de caça na Antártica relativa ao início de dezembro de 2017 e final de fevereiro de 2018, de acordo com acompanhamento da CBI. Entre os animais abatidos estiveram 122 baleias grávidas. No auge da caça às baleias no país, em 1964, o Japão chegou a matar 24 mil animais em um ano.

Para evitar a caça comercial com justificativa científica, a Corte Internacional de Justiça determinou, em 2014, que não era necessário matar baleias para estudá-las. A medida, no entanto, não afetou a maioria dos programas que o Japão mantém nessa linha. Dois países no Norte da Europa, Noruega e Islândia, também continuam a caçar os animais, alegando que se trata de uma prática tradicional antiga. Isso, no entanto, é feito em águas próximas ao país.

Assim como o Japão, a Islândia estabeleceu um programa para a caça de baleias com fins científicos inicialmente, e em 1992 deixou a CBI. Em 2004 voltou à instituição e em 2006 voltou a realizar a caça comercial.

Mesmo sem deixar a CBI, a Noruega voltou a caçar baleias minke já a partir de 1993, estabelecendo de forma autônoma sua cota de caça.

1.380

É o número de baleias capturadas ao redor do mundo em 2017, segundo dados levantados pela CIB e pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) 

Os efeitos da moratória

A ONG Whale Dolphin Conservation possui dados sobre a caça mundial de baleias desde a década de 1940.

Em 1986, 3.621 baleias foram mortas -já naquele momento bem abaixo do pico de 38.635 baleias mortas em 1958. Em 2016, foram 1.480 baleias mortas.

Criada em 1964, a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (sigla em inglês para União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais) é a principal referência internacional para acompanhamento da queda populacional de espécies, assim como seu risco de desaparecimento definitivo no mundo.

A atualização de novembro de 2018 da lista da entidade enfatiza determinadas ações de conservação que foram capazes de frear o processo de desaparecimento de algumas espécies, incluindo as de baleias. O documento cita o caso das baleias-comuns (Balaenoptera physalus), cuja população caiu a um nível tão baixo na década de 1970 que a espécie foi classificada como “em perigo”.

Esse é o segundo nível mais grave de ameaça, usado quando pesquisas indicam que a espécie provavelmente será extinta num futuro próximo. Medidas de restrição à caça, incluindo a moratória em 1986, contribuíram para frear a redução da população da espécie.

Entre 2006 e 2008, a população de baleias-comuns já havia subido para 62 mil animais, fazendo com que seu status fosse modificado para “vulnerável”, que é o termo mais brando da classificação das espécies ameaçadas, usado quando pesquisas indicam que há risco elevado de extinção se não houver melhoras das condições que permitam a sobrevivência e reprodução da espécie.

O que acontece com a saída do Japão da CBI

Segundo informações do jornal americano The New York Times, o secretário de Estado Yoshihide Suga justificou a retirada da CBI afirmando que a entidade vinha focando excessivamente em conservacionismo, sem, no entanto, estruturar a indústria baleeira, um de seus objetivos oficiais. Numa declaração oficial reproduzida pelo jornal, Suga ressaltou que a caça às baleias é uma prática tradicional no país, algo frequente no debate sobre a caça. “Em sua longa história, o Japão usou baleias não só como fonte de proteína, mas também para vários outros propósitos (...) A caça às baleias vem dando apoio a comunidades locais, desenvolvendo dessa forma a vida e a cultura do uso de baleias.”

Ao sair da CBI, o Japão deve passar a caçar os animais apenas em suas próprias águas ou então em águas que façam parte de sua Zona Econômica Exclusiva, estabelecida em conferências da ONU realizadas entre 1973 e 1982. Mas deixará de caçar nas águas internacionais da Antártica, como vinha fazendo.

A situação se aproxima, dessa forma, daquela de Islândia e Noruega. O país anunciou que pretende voltar a caçar comercialmente baleias de forma oficial em julho de 2019. 

Segundo informações da BBC, a caça às baleias é uma prática antiga em determinadas regiões costeiras do Japão, mas explodiu após a Segunda Guerra Mundial, quando o animal se tornou uma fonte fundamental de carne.

Atualmente, a carne de baleia corresponde a apenas 0,1% das vendas de carne no país, segundo informações do jornal japonês Asahi reproduzidas pela BBC. 3.000 Toneladas de carne de baleia foram comercializadas em 2016 no Japão, segundo dados do governo reproduzidos pelo The New York Times. Em 1962 haviam sido 233 mil toneladas