24
Seg, Jun

Batismo de Jesus no rio Jordão significa o seu abaixamento*

Liturgia
Tipografia

A imagem que apresento encontrou-me há anos em Adis-Abeba, a capital da Etiópia, e serve aqui para fazer o que é óbvio: sublinhar a importância cristológica do Batismo, o de Cristo primeiro e, depois, o que na e pela Igreja temos n’Ele.

 

Opinião de Padre João Vila-Chã, Jesuíta português, publicada no seu perfil de Facebook

A cena do Batismo de Jesus no rio Jordão significa, antes de mais, o seu abaixamento, a sua «kenosis». Como tal, trata-se de um evento que para além de ser conclusivo do ciclo do Natal, nos fez ver até que ponto Jesus Cristo, assumindo plenamente a condição de ser um de nós, escolheu partilhar em tudo a nossa condição.

Daí a importância que para a nossa existência tem o facto de na natureza humana de Cristo, no momento do seu Batismo por João nas águas do Jordão, ter resplandecido a Voz d'Aquele que, sendo Pai, lhe dá a escutar a Palavra que encontramos no Evangelho e entre todas devemos considerar como fundamental, e que, como tal, se poderia traduzir assim: «Tu, Meu Filho, és O amado e em Ti tenho toda a minha Alegria!» Segundo o relato evangélico, estas palavras fizeram-se ouvir no momento em que Jesus emerge das águas onde tinha entrado, águas essas que, sem mais, nos aparecem como símbolo do abismo que é o pecado.

Mas essas são sobretudo palavras que, no Filho − pelo Filho e com o Filho – continuam a ser enunciadas em favor de cada um/a de nós, ou seja, de todos quantos escutam a Palavra que vem de Deus, e que em Jesus de Nazaré é Deus feito homem.

Creio, portanto, que a liturgia deste Domingo não pode deixar de evocar em cada um/a de nós o desejo acrescido de uma nova Escuta, ou seja, o desejo de nos reencontrarmos com a alegria de uma vida vivida sem ilusões, de um tempo preenchido com a ausência do vazio, enfim, de uma vida vivida na liberdade e sem medo, nomeadamente do medo de ter medo e da perda da própria liberdade.

Recordar o batismo que recebemos (aquele a que todos podem legitimamente aspirar), com efeito, é darmo-nos conta da mais importante possibilidade que temos, a de poder, pela Graça, dar o justo peso e adequada medida a tudo quanto faz parte da nossa vida, incluindo os sonhos e as esperanças que temos, mas sem esquecer as desilusões, ou os enganos, com que sempre nos enfrentamos.

O Batismo não anula nada do que somos, apenas nos liberta de tudo o que em nós destrói a liberdade. O Sacramento do Batismo é incompreensível se desintegrado do Mistério da Páscoa, e tanto assim é que o significado mais profundo da nossa própria incorporação na Igreja está proleticamente espelhado no ritual a que o mesmo Jesus no rio Jordão Se submete, um rito cujo significado, em poucas palavras, se poderia expressar deste modo: com Ele e por Ele temos a possibilidade de uma Nova Travessia, de uma Passagem (=Páscoa) para o melhor da Vida, para uma Vida Outra, ou seja, para uma Vida sem ilusão, antes toda ela revestida de sentido.

A propósito deste mistério, Bento XVI escreveu: «Deus criou o ser humano para a Ressurreição e a Vida, e esta verdade dá dimensão autêntica e definitiva à história dos homens, à sua existência tanto em sua dimensão pessoal como social, à Cultura, à Política, à Economia».

E concluo: Num tempo ainda tão dolorosamente marcado pela desordem da violência e da injustiça, recordar o mistério do Batismo, seja o de Jesus seja o nosso, é motivo importante para nos fazer pensar. Antes de mais, no Dom da vida; e com isso, celebrar a Redenção que temos em Cristo. Daí, enfim, a importância de viver bem o Tempo Comum que temos na Liturgia da Igreja, tempo feito de quotidianidade, mas também de tempo marcado pelo convite que a Cristo nos faz a estar com Ele, desde logo participando no Evento que é a Eucaristia, realização consumada do mistério que é o da nossa pessoal integração na Vida/Corpo de Cristo.

 

*Título da responsabilidade nossa redação