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Seg, Mai

Mulher, porque não choras?

Opinião
Tipografia

É tarde. Já é madrugada e sei que deveria dormir mais. Entretanto paro para pensar um pouco. Quero pensar na Mulher. Quero pensar nalgumas pessoas que encontrei nestes últimos dias. Quero pensar em algo concreto que ouvi delas. Ainda que pareça poesia sem alma o que venha a expressar vou apenas partilhar pedaços de vida que carreguei na alma. Mais do que pensar vou lembrar-me de vidas com que cruzei. Perdoe-me a metáfora, sem ela conseguiria dizer pouco ou nada. Não há mulher imperfeita. Toda a Mulher é perfeita, mesmo aquela que tenta transformar outras vidas em sofrimento ou desgraça. É perfeita, pois é tudo o que ela consegue ser, com toda a sua perfeição possível, nos diferentes momentos que a compõem. É perfeita porque é tudo o que ela consegue reproduzir do que aprendeu.

Opinião de Laurindo Vieira

Quero pensar, em particular em ti que tens lutado, esbarrando-te no estrume do fundo do poço, para um reencontro contigo mesma; pensar nas vezes que choras ou que nem tens direito às tuas próprias lágrimas. E gostaria que soubesses que eu não tenho medo das tuas lágrimas, ainda que gostaria que elas fossem de alegria. Preciso pensar em ti, porque acredito na força do (meu) pensamento e sei que alguma coisa vai mudar.

Os pesadelos que temos, são benéficos porque nos impedem de morrer durante o sono. Mesmo assim, dói-me terrivelmente os pesadelos e as noites que passas em branco ou até o medo que sentes de dormir para não teres que viver os horrores das mãos que te molestaram e os dedos que te fizeram sinal para te calares....psiiiiuuuu... Ai como pesa na tua alma o respeito por ele e a angústia; o carinho a dor e a raiva, o medo e o nojo por ele, tudo num só prato. Dói-me porque ninguém nunca viu ou quis ver a tua dor e de como vives, tentando mastigar um punhal, encravado entre o céu da tua boca e o abismo onde jaz a tua língua, tão estranha que ninguém entende. Mas quem imaginaria que o céu que te prometeram faria fronteiras com o inferno que viveste?

Penso agora em ti e no maço de cigarro que deitaste fora e os maços do dia seguinte e as cervejas que bebeste, com gula, para chegares no álcool e anestesiar a dor que consumiu o teu peito enquanto tentavas voltar a ti mesma. Todos condenam com facilidade e nunca fizeram caso de nunca teres sido elogiado pelo teu pai. Se entendêssemos o valor das palavras!

Raios partam! Que mal tem o diálogo? Onde foram os homens? Porquê comerem-se assim, como se de lobos se tratassem! E eu nem posso falar tudo o que vejo e de como sinto; nada posso fazer senão ficar aí, como de plantão borrado, manchado de sangue, o sangue dos outros. E que diferença faz se o meu ou dos outros, quando a dor é imensa? Mas ainda assim, sou aquele que sabe que nem tudo acaba desta forma. Vejo tudo. Sou feito de fé e esperança. Tenho que esperar e tenho que fazer algo para que acabe esta carnificina.

Gritem aí, para que rompam esta cadeia. Gritem, para que deixem que a Mulher seja ela mesma sem que os homens queiram ser donos absolutos dela, querendo tudo dela: o seu cérebro, a sua mente, o corpo, a alma... tudo e tudo e as sobras também.

Oh mãe, mostra, de novo, ao teu menino que tu és mulher e que jamais nascerão meninos, sem a mulher, nunca nascerá um macho sem a mulher.

Não intoxiquem as crianças com ideias absolutistas machistas ou feministas. Deixem-nas brincar, tocar o mundo; sigam-nas; ajudem-nas a encontrar a sua luz, na harmonia das constelações, formadas pelas crianças todas, na sua primavera da vida. Estejam lá. Ensinem-nas o verdadeiro valor das coisas e a essência do imaterial... a harmonia e um uso adequado das tecnologias. Não ponham-nas a pastar, a postar pela internet, a entranhar-se nos videogames...

Tenham coragem para seguir e ouvir as filhas e os filhos. Vamos respeitar as crianças, permitindo que sejam crianças.

Que a criança não seja criança mãe; ainda filha e já mãe quando aquela família assim permite, porque subjugada e conivente, porque escrava da miséria, a miséria de mil cabeças...

É preciso interromper o ciclo malicioso do mal sobre as crianças, sem julgamento, sem preconceitos e sem mais violências. Sarar as feridas para não se abrirem mais feridas

Penso no Não da Mulher, em madrugadas como esta, muitas vezes ignorado, atrás de janelas ou portas trancadas. Há mulheres que ainda têm que ceder o seu corpo, mesmo quando diz que não pode, ou não quer. E a quem, afinal, o corpo pertence?

Penso na Mulher que um dia trilhou um caminho, que a pôs contra si mesma. Penso em várias formas que isso aconteceu, sem poder falar disso abertamente.

Vivo com muitos segredos de Mulheres (e não só), vítimas da tortura, motivada pela simples vontade alheia de querer ter o próprio e egoísta prazer sexual.

Penso na mulher coisificada e invisível, na mulher a que fizeram achar que era feia e naquela que vive espreitando uma brisa que a ajude abrir as asas e voar.

Penso na Mulher, a mulher que está perto de ti, com as tantas coisas que ela tem e que nem de perto cheguei, na mulher com os seus segredos, os seus medos, os seus sonhos, as suas dúvidas e arrependimentos.

Penso na Mulher que realizou que está feliz e no comando. A mulher que se acha. A mulher decidida, resolvida, a que brilha, a Mulher-Mulher.

Penso na Mulher que não conheço...

Penso na mulher infinitamente misteriosa e obra prima das mãos de Deus as que encontrei, as que encontraste e que labutam nos milhares vácuos silenciosos ou silenciados do tempo e do mundo.