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Qui, Jun

O meu primeiro amor

Opinião
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Qual é a tua fonte de inspiração? O que te faria levantar da cama, de qualquer maneira?

Opinião de Laurindo Vieira

Eu seria capaz de me levantar da cama para ir jogar à bola, ir a um sítio novo; viajar... Pela bola, fui pela primeira vez ter a um bloco operatório, no ano de 2015, quando rompi a totalidade do tendão de Aquiles direito. Cheguei ao hospital no dia seguinte, vulnerável e desprovido.

O cirurgião que me atendeu, um jovem muito simpático e culto, com um nome estranho – Mortala – entendeu a gravidade da situação e pediu que eu fosse operado de urgência. Isto não aconteceu, por um imprevisto logístico do Hospital Agostinho Neto. Foi um alívio para mim que tive de voltar para casa. Dias depois, voltámos. Dessa vez ia ser de vez. Fiz todos os procedimentos burocráticos e fui parar à cama F9.

Encontrei três internados, um que perdeu um olho, devido a um pedaço do metal da enxada que o saltou para o olho, muito simpático; outro que numa briga em que muitos partiram por cima dele, fraturou o osso zigomático. Não entendo muito bem da osteologia, mas é o osso que fica logo por baixo do olho.

O outro jovem apanhou com uma pedrada e fracturou a mandíbula. No final éramos o quarto mais divertido, onde todos gostavam de entrar e demorar-se o máximo possível. O momento em que me vieram buscar para ir para o bloco foi aterrorizante: gritos de um servente impreparado que, sob piadinhas, me levou nu, dentro de uma bata, num carrinho e deixou-me num corredor por vários minutos. O silêncio e o vazio eram estrondosos.

Depois disso foi tudo uma maravilha. O terror passou a ser uma das melhores experiências da minha vida. Foi uma viagem mágica, de um abandono extraordinário e uma confiança firme que só tinha que dar certo. O melhor é que foi por causa da bola. 

E tu, o que te faz levantar da cama, do meio do sono? O que te faz correr riscos?

Vamos falar do meu primeiro amor. Foi aos meus 33 anos que comecei a notar essa pessoa, dedicada, sempre disponível, compreensiva, que foi alertada para “deixar de ser Deus”. Tinha tempo para todos, sacrificava-se e perdia a própria vida pelo trabalho, pela relação, pelos filhos, por ajudar os outros. Curiosamente, grande parte das vezes que precisava de ajuda os outros estranhavam. Mas a ajuda sempre chegou de parte de pessoas muito estimadas. Enfim…um belo dia parei a olhar fixamente para essa pessoa e resolvi, definitivamente, e para sempre, fazer dela o meu primeiro e o maior amor.

Mais ninguém ocuparia o lugar do primeiro amor além de mim mesmo. Eu sou o meu primeiro amor. Isto é o mesmo que ter auto-estima no nível exato. Isto é o mesmo que ouvir o grito daquele que pede para amar o próximo como a mim mesmo. É isso!

Quando descobri o primeiro amor, passei a ser mais livre e senti com maior intensidade a vida que foi plantada em mim. Não há lugar para uma relação possessiva, controladora, sem liberdades ou sem diálogo, com insegurança. Não entendo muitas formas de amar. Mas peço que fujas de quem tenta amar-te mais do que a si mesmo; mantém-te distante de que te quer só para si. Fica afastado de quem te põe no centro da sua vida. Não vai funcionar.

Amar é muito diferente disso que nos mostram nas telenovelas, das frases feitas partilhadas e do que o consumismo nos obriga a fazer no dia de São Valentim.  Amar implica amar-se, implica estimar-se intensamente.

Por isso mesmo, significa cuidar da sua aparência,  cuidar da sua saúde física,  mental, espiritual, intelectual,  financeira, social, moral, cuidar da sexualidade ou da saúde sexual... enfim, tratar de estar ecologicamente de pé, estando autónomo,  maduro. É  preciso amadurecimento e amadurecimento exige treino, esforço e um 'stress tópico ' que dói, cansa e custa. E nós não somos só o coração romântico, o amor de castelo que nos faz gostar de todos. Nem Cristo pediu isso. Há gente de quem não vamos gostar e que vive bem perto de nós.

Não é pecado, nem crime não gostar de alguém. Podemos não gostar. Será pecado ou anti-ético quando não fomos caridosos com ela, ou lhe faltamos a ética, ou mesmo o respeito. Nós somos matéria, precisamos de comer e comer bem, ter uma dieta conforme; estamos incluídos numa lógica de finanças e precisamos de saúde nesta área; somos seres de intelecto e precisamos sentar e ler um livro na vida, um livro bom, criar uma ficha de leitura, anotar e desler; sim, desler. Somos espírito e precisamos urgentemente cultivar a espiritualidade.

Somos seres sociais e precisamos ter maturidade social… Somos emoção, somos sexualidade, somos antropológicos e humanos, seres em construção, inacabados e divinos. Ninguém vai amar de verdade se não se amar a si e lutar pela maturidade de cada característica que tem em si. O amadurecimento deve ser ecológico, consciente e constante.

Ninguém vai amar ninguém se não se amar primeiro a si; nenhuma relação será madura se um dos dois é humanamente negligente perante uma das suas faculdades, qualidades e caraterística supra mencionado.

Depois do grande amor próprio, do autoconhecimento, depois de notarmos que é um prazer enorme e uma infinita alegria sermos nós mesmos, amar a nós  mesmos, tendo consciência de quem somos, agora sim voamos à procura de algo ou alguém com quem partilhar a nossa descoberta, esperando nunca menos, nunca exigindo a mais.

Amar não é ir sugar o outro/a outra, em nenhuma circunstância; não  tem nada a  ver com "sem ti eu não sei o que fazer; sem ti a minha vida perde todo o sentido". Não. A vida faz sempre sentido, porque se não for "contigo", será com outro, com outra e pode ser sem ninguém, pois, o trabalho dá sentido à vida, a amizade; viver viajando dá sentido à vida; viver ensinando/pesquisando dá sentido; viver doando-se pelas grandes causas dá sentido à vida…

Esquece o amor romântico e o falso carisma. Encontra o teu primeiro amor, não importa a idade.