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Sab, Abr

Pensar no plural é a vacina contra a miopia irresponsável

Opinião
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Sinais de esperança é o que todos estão a procurar. Neste tempo marcado pela morte, pela doença, pela separação, pelo peso do desemprego e pelo desânimo, todos querem ver uma luz ao fundo do túnel, capaz de dissipar as trevas da incerteza que esta pandemia nos obrigou a viver. Esta luz não cai do céu, ou melhor, vem do céu sob a inspiração de Deus, mas são homens e as mulheres de hoje que a devem concretizar. 

Opinião de Frei José Garcia de Barros*

Todos os anos, no mês de Fevereiro, um dia é dedicado aos doentes do mundo inteiro. O objectivo não é recordar os doentes e dizer-lhes “vai correr tudo bem”. Deve ser um compromisso, um agir para que, de facto, as coisas corram bem, da melhor forma possível. Por causa da pandemia da Covid 19 temos esta sensação de doença globalizada e todos nos sentimos em perigo. Não é suficiente a voz dos diversos líderes religiosos a difender a vida, a igualdade e a equidade. A pandemia mostra-nos, dia após dia, como são verdadeiras as palavras do Papa Francisco quando nos fala da ecologia integral na Sua encíclica Laudato Sì. Ninguém está livre da doença, hoje mais do que nunca, por causa do vírus que assola o mundo. O que nos pode salvar é a certeza de que ninguém é uma ilha, um eu autónomo e independente dos outros. Só juntos é que podemos construir o futuro, sem excluir ninguém porque, de facto, tudo está interligado. 

Estar livre do vírus é o que todos desejam e por isso todos se preocupam em adquirir a vacina e poder eliminar o risco de contágio. É certamente algo bom, que todos devem fazer. Porém sabemos das desigualdades económicas existentes entre os países. Muitos deles, economicamente fortes, já estão a adquirir este bem precioso e a campanha de vacinação já está em curso. Pensa-se em completar o processo o quanto antes e depois ficar tranquilo e voltar ao ritmo de crescimento económico. E os países mais pobres, ficam à mercê da sorte? Gostaríamos de ligar duas pontas à solta, isto é: a globalização e as mutações do vírus. 

Que este vírus não faz distinção de pessoas, ricas ou pobres, já sabemos. Ele afecta-nos a todos, sem distinção. Também não respeita as fronteiras, ficando à espera de uma autorização para entrar. Isso parece já estar claro, ao menos a nível intelectual. Mas quanto ao comportamento não parece estar claro porque muitos são aqueles que se preocupam só com os “seus”. Apraz-nos ver que ainda existem pessoas que pensam no plural. É o caso de Amina Mohammed, secretária-geral adjunta da ONU, que defende a disponibilização da vacina para todos, em todo o lado. Ela acredita que se as vacinas não estiverem disponíveis para todos, será difícil controlar a pandemia. 

Nenhum país, por mais poder económico que tenha, pode ousar pensar que está tudo resolvido quando vacinar os seus cidadãos. Estamos num mundo globalizado e tudo, bom ou mau que seja, alastra-se com muita facilidade. 

Com este inimigo comum e invisível, não podemos pensar egoísticamente apenas na nossa situação. Temos que alargar os horizontes. Para que uma vacina chegue a um país economicamente desfavorecido, são necessários alguns anos. Se isso acontecer com a vacina contra a covid 19, o resultado será péssimo porque estamos num mundo globalizado. Além disso, as diversas mutações que este vírus sofre podem pôr em risco qualquer acção de vacinação. Ninguém pode garantir-nos que mutações provenientes de países aonde não chegar a vacina não venha a complicar a situação nos países onde foi feito a campanha de vacinação. É precisa então uma vacinação globalizada. Não podemos cair numa miopia irresponsável. Ninguém pode proclamar vitória contra a covid 19 se as pontas a soltas não forem amarradas (países sem receber as vacinas e as constantes mutações do vírus). Nenhum país pode isolar-se do resto do mundo. A globalização deve estender-se também no processo de vacinação. Enquanto o mundo não for vacinado, ninguém está a salvo. Ou salvamos todos ou não se salva ninguém.  

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*Frei José de Barros é presidente da Comissão Justiça, Paz e Integridade da Criação dos Irmãos Capuchinhos de Cabo Verde