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Sab, Abr

Francisco Amaral (Cunny): A homenagem possível

Opinião
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Todos nós estamos familiarizados com o dito popular, repetido até à exaustão, que diz “... palavras leva-as o vento...”. 

Opinião de  P. L. Lima

Se por um lado é verdade, por outro lado, as palavras continuam sendo uma ferramenta mesmo que limitadas para expressarmos muitas coisas que nos habitam o coração. De entre elas, a gratidão. 

Se bem que, em muitas situações, não encontramos palavras suficientes no dicionário para significar cabalmente o que gostaríamos de dizer. É o caso que me traz de volta às paginas deste querido jornal Terra Nova.

O meu irmão que vive no Estado de Minnesota, nos Estados Unidos, dias atrás, comunicou-me que o Cunny tinha falecido. E eu, espantado com a notícia, perguntei-lhe: Mas... estás falando do nosso Cunny? Do Francisco Amaral ali de Porto-Novo, neto da Dona Bia e do Senhor Atanásio? Pois é. Ele mesmo!

Esta foi uma notícia que me abalou e estivemos durante muito tempo relembrando belas experiências que se conectam com o Cunny e com Porto Novo do nosso tempo.

O meu contacto com o Francisco Amaral deu-se ali pelo final dos anos 70 quando eu, bem jovenzinho, vinha da Ribeira-Fria a Porto-Novo para ter aulas nocturnas com vista a apresentar-me aos exames do segundo ano do ciclo preparatório e, mais tarde, na tentativa de fazer a secção de letras do antigo Curso Geral dos Liceus. 

Vínhamos eu e o Roberto Rodrigues. Se bem que ele, por ter mais posses do que eu, seguiu os estudos na Escola Industrial e Comercial do Mindelo, chegando a ser chefe do Registo Civil ali em Porto Novo e actualmente trabalha no aeroporto Cesária Évora em São Vicente.

Eu fui sempre um auto-didacta forçado pelas circunstâncias da vida, por ter sido um menino pobre, mas é das coisas que mais me orgulho na vida.

Nesse tempo, o Francisco Amaral era uma espécie de esperança para nós. Era ele que contactava outros professores, era ele que nos estimulava, aconselhava e desafiava. O Francisco Amaral queria saber se tudo estava bem connosco que vínhamos de fora e também era o primeiro a alegrar-se com as nossas vitórias. 

Eu depois do Curso Geral dos Liceus entrei para o Seminário Nazareno em Mindelo, exerci o pastorado nas ilhas do Fogo e do Maio seguindo depois para a Ilha Terceira nos Açores. Curioso é que esse amor ao saber que aprendi com o Francisco Amaral desde aqueles primórdios em Porto Novo, sempre me acompanhou como uma espécie de bagagem e continuará para sempre em mim como eterna gratidão. 

A pouco e pouco fiz a escola toda e, quando entrei para a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, a memória dos conselhos e incentivos que me foram dados pelo Francisco Amaral, estiveram presentes. E das poucas vezes que nos vimos quando fui a Cabo Verde, conversamos sobre estas coisas, não me cansava de expressar toda a minha dívida de gratidão a uma pessoa que apareceu na minha vida e foi figura chave para ajudar-me a entender o valor do saber. 

Muitos anos depois, quando o engenheiro César Almeida era Presidente da Câmara Municipal de Porto Novo, um grupo de vereadores foi convidado a visitar o Município de Angra do Heroísmo. Estiveram em minha casa ali em Angra. De entre eles, estava o Carlos Reis (Calú de nhô Jon Lexanda) e a Dona Celeste Ferro. Os dois também tinham sido meus professores desse tempo memorável em Porto Novo. Professores de Francês e de Português. E que professores!

Com o Francisco Amaral e com sua família fiquei com uma ligação mais próxima. Mantenho uma ligação à tia dele, a senhora Elvira. Ultimamente tínhamos conversado e foi ela que me informou que o Cunny, o Francisco Amaral, estava em Lisboa para onde se tinha deslocado para tratamento. E, de repente, a notícia surpreendeu-nos de que o Francisco Amaral tinha ido para o silêncio. 

O Cunny é daqueles seres humanos que nasceu para não ser esquecido, jamais. Que viveu com tamanho olhar atento e compassivo para com o próximo, principalmente para aqueles que mais necessitavam, nunca se irá desta vida porque conquistou um lugar no coração de muita gente. Cunny era querido por familiares que o reverenciavam, por amigos que o respeitavam e por Porto Novo de ponta-a-ponta pela pessoa extraordinária. 

Eu quis, de forma modesta, juntar a minha voz ao coro de multidões que conheceram, conviveram e receberam influência para o bem por parte do Francisco Amaral e agradecer-lhe, onde quer que esteja, pelo exemplo de vida altruísta como andou no chão deste planeta. 

É, em momentos como estes, quando pessoas como o Francisco Amaral partem para o silêncio, que nos damos conta de quão mais pobres ficámos. 

Obrigado pelo exemplo de vida, obrigado pela amizade, obrigado pelo respeito com que tratavas todos. Havemos de lembrar o teu exemplo. Até sempre, amigo. Descansa em paz.