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Qui, Jun

Democracias cada vez mais imperfeitas. O mundo deriva para o autoritarismo

Opinião
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Da China ao Oriente Médio, a pandemia favorece os regimes: menos direitos até nos países da Europa Ocidental.

A pandemia de coronavírus acelerou o declínio da democracia no mundo, tendência que já dura há quinze anos e foi confirmada pelo ranking anual do Economist Intelligence Unit para 2020. O índice, nascido em 2006, monitora 167 países e territórios no mundo e sofreu retrocessos na maioria. O dado central, o "cisne negro", foi o Covid-19.

A resposta dos estados à emergência acentuou os aspectos autoritários e fez emergir como "vencedores" regimes que exercem maior controle sobre suas populações, a começar pela China, enquanto os países ocidentais deram respostas tardias e pelo menos inicialmente menos eficazes.

O resultado é que dois terços dos estados viram seu índice diminuir. O nível global caiu para 5,37 em uma escala de 10, o nível mais baixo desde 2006, e hoje apenas 8,4 por cento do mundo vive em "democracia plena", um terço está sob tirania.

A autoritária Moscovo

Os países são divididos em "democracias plenas", "democracias imperfeitas", "regimes híbridos", "regimes autoritários". O declino afetou também a região da Europa Ocidental, com França e Portugal que passaram de “democracias plenas” para “imperfeitas”, ou seja, com votos abaixo de 8.

Situação que atinge também a Itália e os Estados Unidos da América, com leve piora. No entanto, o impacto da pandemia foi sentido muito mais nas regiões da América Latina e do Leste Europeu. Os dois blocos contêm apenas três "democracias plenas" e metade das "democracias imperfeitas" do mundo (26 de 52). Existem sete regimes autoritários na Europa Oriental, incluindo a Rússia, com uma pontuação de 3,31, e a Bielo-Rússia.

As eleições contestadas no Minsk, entretanto, levaram a um paradoxo: o renovado empenho civil e a maior desconfiança em relação ao homem "forte", o presidente Alyaksandar Lukashenko, elevaram o índice, ainda que ligeiramente, para 2,59.

Ao contrário, em Moscovo, as "reformas constitucionais" ensejadas por Vladimir Putin para permanecer no poder além de 2024 tiveram o efeito contrário.

O colapso de Hong Kong

“A democratização da Rússia ainda está muito longe”, conclui o relatório, ainda que a pontuação continue acima daquela da China. Pequim viu um declínio constante desde a ascensão de Xi Jinping ao poder, de 3,00 em 2012 para 2,27 no ano passado.

O relatório do The Economist, no entanto, destaca como os fechamentos draconianos decididos em Wuhan e depois em quase todo o país, com 760 milhões de pessoas trancadas em casa, impediram que a pandemia causasse muito mais vítimas em todo o mundo e "é difícil contestar que o 'experiência de bloqueio na China tenha sido um sucesso', embora poucos pensem que possa ser aplicada em outro lugar”.

As únicas democracias que tiveram sucesso são outras

Países asiáticos como Coreia do Sul e Taiwan, que até viram seus índices melhorar. No resto da região “a resposta à Covid-19 levou a agravamentos”, começando por Hong Kong e Mianmar, a ex-Birmânia, que está em plena involução também devido a problemas internos. Hong Kong caiu de "democracia imperfeita" para "regime híbrido", enquanto a Coreia do Norte continua sendo o país mais tirânico do mundo, com 1,08.

O Oriente Médio. No mapa, que vai do azul ao vermelho, todo o Oriente Médio está na zona vermelha ou laranja, e a Turquia também está em uma situação "híbrida", na zona amarela. Ancara passou de 5,70 em 2006 para 4,48 no ano passado. A região assistiu ao declínio da democracia, sublinha o relatório, "desde 2012, quando as melhorias após a Primavera Árabe foram revertidas: a região sofre uma concentração de monarquias absolutas, regimes autoritários, conflitos" e é a área "com o índice mais baixo, com sete países entre os últimos vinte”. Uma das piores atuações é a do Líbano. Em 2006 estava em terceiro lugar na região, atrás de Israel e Palestina, com discreto 5,82, agora caiu para a quarta posição, superado também pelo Marrocos, com péssimos 4,16. O caso positivo é a Tunísia, que após a revolução do jasmim passou de 2,79 em 2010 para 6,59 no ano passado e agora é a segunda. O Egito fez o percurso inverso, de 3,95 em 2011 para 2,93. Nas últimas colocações permanecem Irã, com 2,20, a Arábia Saudita, com 2,08, e a Síria, com 1,43.

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A reportagem é de Giordano Stabile, publicada por La Stampa.