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Sex, Nov

LEV – Uma lição que ficou

Opinião
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Lev é a transliteração da palavra hebraica que significa Coração. Assim explicava o professor durante uma das fabulosas lições em Portugal, aos meus 20 e poucos anos.

Opinião de Laurindo Vieira

Lev para os hebreus é estação do pensamento, a sede do pensamento, é onde mora e vive o pensamento. A cultura ocidental veicula uma ideia romântica de coração de tal forma que é difícil entendermos, por exemplo, que ‘a boca fala do que abunda no coração’ (Dito popular) ou então que ‘onde está o teu tesouro está o teu coração’ (Evangelhos).

Duas máximas simples e sábias que podem encontrar eco em ciências modernas, ligadas à Psicologia.  De facto, cada um olha o mundo através das lentes das suas crenças, das experiências, dos valores, das emoções, perdas etc. Hoje fala-se de know how que é o mesmo que dizer o domínio de determinados assuntos ou técnicas, ou seja, o que abunda no pensamento coletivo de algumas comunidades. Mas em sentido muito mais imediato e particular podemos falar da Pandemia. O coração do mundo abunda deste assunto.

A comunicação social faz transbordar os canais de notícia com assuntos, ligados ao novo vírus e nós vamos de hora em hora encher o coração de números de mortos, de vacinas, de máscaras, de teorias, também de conspiração, e todo o resto e todas as misturas que nem temos mais noção onde está verdade e onde não está. E não saímos desta doença. Nós a estamos a viver ainda antes de a contrairmos. É impraticável ver outra coisa. Para reforçar, o cenário ajuda: viseiras, máscaras, luvas, álcool-gel, anúncios e por aí fora.

Tudo isso é mesmo para ajudar ou para amedrontar? De que forma têm impedido os contágios e mortes? Eu ainda não sei a resposta, porém podemos nos dar conta que, pelo sim e pelo não, não nos têm facilitado em matérias de nos enchermos de outras ocorrências. É aqui que tudo fica mais severo e asfixiante. E é aqui mesmo que nós mudamos de assunto, para abundarmo-nos com outras coisas, munidos de responsabilidade e das informações que já estão na nossa posse.

É verdade que atravessaremos este imenso mar turbulento com muito mais qualidade de vida, nos abastecendo de outras coisas reais. Na cidade da Praia, nalguns bairros, caindo as primeiras boas chuvas, houve pessoas pelas ruas, amontoadas a tomar banho de chuva. Dias depois, as cheias invadiram a capital cabo-verdiana e nesses dias a pandemia parou. De facto a nossa mente tem uma relação estreita com os eventos e acontecimentos, não interessa qual a dimensão. E felizmente nós temos a grande capacidade mental de relativizar realidades ou dá-las uma conotação diferente.

Não é possível relativizar esta pandemia que tem a dimensão, que tem, sendo incauto tentar minimizá-la. Mas o Lev tem o incrível poder de absorver diversamente o bombardeamento horrendo que têm sido as notícias.

Estão à porta as campanhas eleitorais para as autárquias e vai ser um tempo que abundarão as difamações, as controvérsias etc. Em tempos como estes, há pessoas singulares e partidos políticos que ao que parece, juntam toda a podridão ao longo dos anos, para os vir despejar nas campanhas.

Como se eu estivesse interessado nisso. Os discursos são o que são, porque é assim que fazem transbordar argumentos que apanham certeiramente os desprevenidos. Os partidos políticos têm existido praticamente para situações de campanha, de governação ou oposição. De modo que estão completamente ausentes na ‘vida prática’ do país. Resumem-se a falar ou calar.

Em situações de catástrofes não gastam um tostão furado para intervir.  Falam ou calam- se. As redes sociais falam de todos os assuntos, mostram todas as imagens, até as que não deviam, por isso... o dinheiro deles é para fins próprios, ligados aos partidos, mas solidariedade social, parece não entrar. De maneira que o tempo urge por uma cidadania ativa, real e não asfixiada, perseguida ou censurada.

Que se vote sim, que se escolha sim e que se expresse pelo voto. O povo só serve de encomenda, aliás, não serve. Onde existem boas práticas são para salientar e replicar; o sistema daninho tem que ser combatido com a melhoria de cada um, lá onde está e com interesse no que é de todos.

O sangue do povo e o seu suor não devem continuar a dar vida a uns e não a outros. É preciso dividir melhor, matar as leis e acordar o verdadeiro espírito da boa governação. O resto é tudo mentira, demagogia e corrupção. Não é?