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Sab, Mar

A dimensão política da fé hoje

Opinião
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Em função das próximas eleições municipais, faz-se mais uma reflexão sobre a relevância da fé cristã face à política, seja social, seja partidária.

A fé não é um ato ao lado de outros. Mas é uma atitude que engloba todos os atos, toda a pessoa, o sentimento, a inteligência, a vontade e as opções de vida. E uma experiência originária de encontro com o Mistério que chamamos Deus vivo e com Jesus ressuscitado.

Esse encontro muda a vida e a forma de ver todas as coisas. Pela atitude de fé  vemos que tudo está ligado e religado a Deus, como Aquele Pai/Mãe que tudo criou, tudo acompanha e tudo atrai para que todos possam viver com espírito fraterno, com cuidado de uns para com outros e da natureza.

Esse amor social constitui  a mensagem central da nova encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti. A fé não é só boa para a eternidade mas também para este mundo.

Neste sentido, a fé engloba também a política com P maiúsculo (política social) e com p minúsculo (política partidária). Sempre se pode perguntar: em que medida a política, seja social, seja partidária, é instrumento para a realização dos bens do Reino como o amor social, a fraternidade sem fronteiras,  a justiça pessoal e social, a solidariedade e a tolerância; em que medida a política cria as condições para as pessoas abrirem-se à cooperação e não se entredevorarem pela competição mas à comunhão uns com os outros e com Deus. Essa é chamada pela recente encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti “a Política Melhor” que inclui o coração e até  a ternura e a gentileza como de forma surpreendente vem dito lá.

A fé como uma bicicleta

A fé não fica apenas como experiência pessoal de encontro com Deus e com Cristo no Espírito. Ela se traduz concretamente na vida. Ela é como uma bicicleta, possui duas rodas mediante as quais  se torna concreta: a roda da religião e a roda da política.

A roda da religião  se realiza pela meditação, pela oração, pelas celebrações, pela leitura da Bíblia, também a popular, pelas romarias, pelos sacramentos, numa palavra, pelo culto.

Muitos reduzem a religião somente a essa roda. Especialmente as redes de TV católicas. Essas são, geralmente, de um cristianismo meramente devocional, de missas, santos, rosários e de ética familiar. Quase nunca se fala de justiça social, do drama dos milhões de desempregados, do grito dos oprimidos e do grito da Terra. Neste campo, precisa-se de um compromisso, de assumir um lado, para escapar do cinismo face à realidade com tantas iniquidades. Por esse tipo de cristianismo fica difícil entender por que Jesus foi preso, torturado, julgado e condenado à morte de cruz. Esse tipo de cristianismo é cômodo. Jesus teria morrido de velho e cercado de seguidores.

Mais grave é o tipo de fé proclamada pelas igrejas neopentecostais com suas televisões e programas multitudinários. Aí não se escuta nunca a mensagem do Reino de amor, de justiça, de fraternidade e de perdão. Nunca se ouve a palavra fundamental do Jesus histórico: “Felizes os pobres porque vosso  é o Reino de Deus…ai de vós ricos, porque já tendes a vossa consolação” (Lc 6,20.24). Em seu lugar volta-se a um tipo de leitura do Antigo Testamento (raramente a tradição profética) onde se ressaltam os bens materiais.

Pregam não o evangelho do Reino, mas o evangelho da Prosperidade material. Logicamente, a maioria é pobre e precisa de uma infraestrutura material básica. É a fome real que martiriza milhões de fiéis. Mas “não só de pão vive o homem” disse o Mestre.

O ser humano tem no fundo outro tipo de fome: fome de reconhecimento negado às mulheres, aos mais humildes, fome de beleza, de transcendência, ínsita na natureza humana, por fim, fome de um Deus vivo que é de ternura e de amor aos mais invisíveis. Tudo isso, essência da mensagem do Jesus histórico, não  se ouve nas palavra dos pastores.

Estes, a maioria deles, são lobos em pele de ovelha, pois exploram em proveito próprio a fé singela dos mais humildes.  Ao lado deles, há um grupo de católicos saudosistas do passado, conservadores que se opõem até ao Papa, ao Sínodo para a Amazônia, usando de verdadeiras mentiras, fake news e outros ataques por seus youtubers. Podem ser católicos conservadores, mas  nunca cristãos na herança de Jesus, pois nessa herança não cabe o ódio, a mentira e a calúnia que eles propagam.

A fé possui uma segunda  roda,  da  política; é o seu lado prático. A fé se expressa pela prática da justiça, da solidariedade, da denúncia  das opressões, pelo protesto e pela prática da solidariedade sem fronteiras, do amor social e da fraternidade universal, como enfatiza o Papa na Fratelli tutti (n.6). Como se vê, política aqui é sinónimo de ética. Temos que aprender a nos equilibrar em cima das duas rodas para poder andar corretamente.

Entre aqueles que vivem uma ética de solidariedade, de respeito e de busca da verdade, estão muitos que se confessam ateus. Admiram a figura de Jesus por sua profunda humanidade e coragem ao denunciar as mazelas sociais de seu tempo e, por isso, de sofrer perseguições e ser crucificado. Bem enfatiza o Papa Francisco: prefiro estes ateus éticos do que cristãos indiferentes ao sofrimento humano e às clamorosas injustiças mundiais.

Quem busca a justiça e a verdade está na direção do caminho que termina em Deus, pois sua verdadeira realidade é de amor e de verdade. Mais valem tais valores que as muitas orações se nelas não está presente a justiça, a verdade e o amor. Quem é surdo diante dos padecimentos humanos, não tem nada a dizer a Deus e suas orações não são ouvidas por Ele.

Para as Escrituras judaico-cristãs a roda da política (ética) emerge  mais importante que a roda da religião institucional (culto, cf. Mt 7,21-22; 9,13; 12,7; 21,28-31; Gl 5,6; Tg 2,14 e os profetas do AT). Sem a ética, a fé é vazia e inoperante. São as práticas e não as prédicas que contam para Deus.  Não adianta dizer “Senhor, Senhor” e com isso organizar toda uma celebração e uma aeróbica religiosa; mais importante é fazer a vontade do Pai que é amor, misericórdia, justiça e perdão, coisas todas práticas, portanto, éticas (cf. Mt 7,21).

Por ética em política se entende a dimensão de responsabilidade, a vontade de construir relações de participação e não de exclusão em todos os âmbitos da vida social. É ser transparente e abominar a corrupção. Hoje os problemas, como a  fome, o desemprego, a deterioração geral das condições de vida e a exclusão de grandes maiorias, são de natureza social e política, portanto, ética. Então a fé deve mostrar sua força de mobilização e de transformação (Fratelli tutti n.166)

Política social (P) e política partidária (p)

Como acenamos acima, há dois tipos de política: uma escrita com P maiúsculo e outra com p minúscula: a Política social (P) e a política partidária (p).

Política social (P): é tudo o que diz respeito ao bem comum da sociedade; ou então é a participação das pessoas na vida social.  Assim por exemplo a organização da saúde, da rede escolar, dos transportes, a abertura e a manutenção de ruas, de água e esgoto etc têm a ver com  política social, bem como lutar para conseguir um posto de saúde no bairro, se unir para trazer a linha de autocarro até no alto do bairro: tudo isso é Política social. Definindo de forma breve podemos dizer: política social ou Política com P maiúsculo significa a busca comum do bem comum.

Política partidária (p): significa a luta pelo poder de estado, para conquistar o governo municipal e central. Os partidos políticos existem em função de se chegar ao poder de estado, seja para mudá-lo (processo libertário), seja para exercê-lo assim como se encontra constituído (governar  o status quo existente). O partido, como a palavra já o diz, é parte e parcela da sociedade não toda sociedade. Cada partido tem por trás interesses de grupos ou de classes que elaboram um projeto, visando toda a sociedade. Se chegarem ao poder de estado (governo) vão comandar as políticas públicas conforme o seu programa e sua visão particular dos problemas.

Com referência à política partidária, é importante a pessoa de fé considerar os seguintes pontos:

  • Qual é o programa do partido?
  • Como o povo entra neste programa? Se foi discutido nas bases; se atende aos reclamos reais e urgentes do povo; se prevê a participação popular, mediante seus movimentos e organismos; se estes foram ouvidos na sua concepção, implementação e controle.
  • Quem são os candidatos que representam o programa? Que biografia têm, se sempre mantiveram uma ligação orgânica com as bases, se são verdadeiramente aliados e representantes das causas da justiça e da transformação social com mais justiça e direitos ou se querem manter as relações sociais assim como são, com as contradições e até iniquidades que encerram.

Bastam estes simples critérios para se perceber o perfil do partido e dos candidatos, de direita, de esquerda ou de centro.

Para os cristãos, impõe-se analisar até que ponto tais programas se afinam com o projeto de Jesus e dos apóstolos, como ajudam na libertação dos oprimidos e marginalizados e em que sentido abrem espaço à participação de todos. Mas releva enfatizar: a decisão partidária é assunto de cada consciência e um cristão sabe que direção tomar.

Dada a conjuntura de exclusão social devido à lógica do neoliberalismo, da financeirização da economia e do mercado, a fé aponta para uma política partidária que deve revelar uma dimensão popular e libertária, de baixo para cima e de dentro para fora como o Papa Francisco tem proclamado aos movimentos sociais populares e na encíclica Fratelli tutti (n.141-151).

Essa política pretende  outro tipo de democracia: não apenas a democracia representativa/delegatícia mas uma democracia participativa pela qual o povo com suas organizações ajuda a discutir, a decidir e a encaminhar as questões sociais.

Por fim, releva inaugurar uma democracia socio-ecológica que incorpore como cidadãos com direitos a serem respeitados: a Terra, os ecossistemas e os seres da criação com os quais mantemos relações de interdependência. Somos todos “tutti fratelli” segundo as duas encíclicas do Papa Francisco, “Laudato Si’: sobre o cuidado da Casa Comum” e a recente de 2020 Fratelli tuttii.

A política partidária, tem a ver com o poder que para ser forte quer sempre mais poder. Nisso há um risco, o risco do totalitarismo da política, de politizar todas as questões, de ver somente a dimensão política da vida. Contra isso devemos dizer que tudo é político, mas a política não é tudo. A vida humana, pessoal e social, comparece com outras dimensões, como a afetiva, a estética, a lúdica e a religiosa.

Conclusão: a memória perigosa de Jesus

Os cristãos podem e  devem participar da política em todos os níveis, em P maiúsculo e em p minúsculo. Sua atuação se inspira no sonho de Jesus que implica um impulso de transformação das relações sociais e ecológicas, corajosamente apresentadas na encíclica Fratelli tutti. Nunca, entretanto, deve esquecer que somos herdeiros da memória perigosa e libertária de Jesus. 

Por causa de seu compromisso com o projeto do Reino de amor, justiça, de intimidade filial com o Pai e especificamente, de sua compaixão pelos humilhados e ofendidos, foi levado à morte na cruz.

Se ressuscitou foi para, em nome do Deus da vida, animar a insurreição contra uma política social e partidária que penaliza os mais pobres, elimina os profetas, persegue os pregadores de uma justiça maior e reforçar a todos que querem  uma sociedade nova com  uma relação de fraternidade e  de cuidado  para com a natureza, para com todos os seres, amados como irmãos e irmãs  e para com o Deus de ternura e de bondade.

Por Leonardo Boff