09
Qui, Jul

O povo que eu vi tem a fórmula da felicidade

Opinião
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A vontade de viver é superior ao medo da morte. Por isso, ainda que a pandemia continue fazendo das suas, as pessoas saíram para o combate.

Opinião de Laurindo Vieira

Menos mal que até agora, em Cabo Verde, não obstante a inexistência de meios para confrontar um suposto colapso no nosso sistema de saúde, as coisas não têm andado mal. É preciso, ainda, fazer o ponto de embraiagem e não facilitar.

O método mais eficaz, continua sendo a higiene e o distanciamento físico. Nós não somos feitos para estar sem afeto, sem proximidade e sem o contacto afectuoso, de maneira que, nenhum convívio público terá, margem baixa de contágio. Evitemos a via da ingenuidade. Já passámos, a fase inicial do pânico e do desespero.

São cada vez menos os vídeos e exposições de fragilidades, nas redes sociais, debitando a culpa a terceiros e se lamuriando. É suposto que as coisas estejam muito mais apertadas, agora que passaram mais meses. Mas tudo faz parte da grande peça típica de dinâmicas sociais, como a nossa.

Aproximadamente 90 dias é tempo demais, sim, para determinadas famílias, sobretudo quando a cultura do poupar e guardar seja praticamente inexistente. Uma política que não marginalize, é tudo o que se precisa. Não existem não-contribuintes, radicalmente falando. É necessário fazer as contas certas para que sejam criados os fundos que sirvam para proteger, de alguma forma, quem mais precisa. E não deve ser encarado como esmola.

É certo que a educação e a saúde financeira devem fazer parte da lógica de usar o dinheiro por parte dos cabo-verdianos. Se bem que o cabo-verdiano é um povo especial quando o assunto é o uso do dinheiro. Não seria uma simples questão de falta de cultura de poupar.

A realidade familiar cabo-verdiana, definitivamente deve ser compreendida no seu contexto. A estrutura familiar é mais alargada. A cultura de não poupar ou não guardar tem o seu lado negativo inegável, mas tem o seu lado interessante. Eu vi nestes meses filas enormes de gente à espera de receber dinheiro através dos bancos e serviços de transferências. Dia por dia, a mesma coisa. Quantos milhões foram transferidos? E quantos dinheiros que deviam ser poupados serviram para confortar os parentes ou amigos? Foi basta o fim do estado de emergência para vermos como as famílias se socorrem umas às outras com bens de toda a natureza.

A manga Fogo, o peixe da Brava e do Maio, o queijo, abóbora e feijão do Fogo… Sem falar que em muitas partes da ilha do Fogo, do interior da ilha de Santiago, São Nicolau ou Santo Antão, esta forma de solidariedade é que vem mantendo ao longo dos tempos alguma qualidade de vida entre as pessoas.

O cabo-verdiano se sente feliz pela sua morabeza/solidariedade: “pobre-feliz”. Não temos que aceitar, para sempre, a condição de pobreza. Temos que romper com estes conceitos, erradicá-los da nossa forma de estar, mas não podemos permitir que determinadas lógicas nos retirem o que nos caracteriza: um povo simples, morabi, trabalhador, com valores.

O mundo já não tem morabeza; o mundo é cada vez mais robôt e por cá, ainda, existe calor humano… morabeza. Precisamos reinventar um trabalho que nos caracterize, ainda que sejam a agricultura, a pesca e a pecuária; aproveitar e rever que perfil terá a nossa economia, sermos morabi, termos fé e cantar a nossas músicas. No nosso caráter enquanto povo reside o nosso futuro.

E não tem absolutamente nada a ver com retirar uma estátua qualquer das nossas praças. Nós somos um povo livre, fizemos por isso e é o que conta. Iremos sempre encontrar o melhor meio para atingirmos os nossos objectivos enquanto povo. Mas, é necessário coragem. As elites não podem maltratar este povo. Ninguém põe a mão neste povo simples e precioso. Temos de ter coragem e fazer diferença.