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Qui, Jul

Missa em streaming só em tempo de crise, porque a Igreja não é virtual?

Opinião
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Questionar sobre a mediação da religião não é uma operação conceitual inédita, mas nestes dias da emergência do Novo Coronavírus veio à tona. Existe, efetivamente, uma proliferação da presença eclesial nas redes sociais. 

Opinião de Hernany Dias*

A emergência sanitária que a humanidade está vivendo alterou os nossos hábitos e apoquetou a aparente solidez das nossas estabilidades: fê-lo paulatinamente, como foi paulatina a tomada de consciência da gravidade da conjuntura atual. Até onde se pode falar de “Missa” em streaming? Qual é o efeito da mediação da Igreja nas plataformas digitais? Questionar sobre a mediação da religião não é uma operação conceitual inédita, mas nestes dias da emergência do Novo Coronavírus veio à tona. Existe, efetivamente, uma proliferação da presença eclesial nas redes sociais. 

A grande presença das práticas religiosas nas plataformas digitais foi uma das consequências dos decretos governativos que impuseram à população cabo-verdiana o confinamento domiciliar obrigatório. É inegável que o confinamento profilático deu um abanão descomunal à sociedade. 

A situação sanitária emergencial não estremeceu somente as certezas conseguidas durante gerações, mas também reestruturou, implacavelmente, as configurações existenciais a partir de duas grandes categorias sociais: o espaço e o tempo. O espaço ficou circunscrito ao recinto doméstico e o tempo reconfigurado, anulando os tempos sociais tradicionais que éramos acostumados. Dessarte, criou-se um “tempo ímpar de suspensão”. 

Vivemos um momento em que o essencial imiscuiu-se com o marginal. De fato, iniciou-se a desagregação das atividades corriqueiras. O isolamento profilático obrigou os cidadãos a fazer face à desestruturação espaço-temporal, reposicionando o quotidiano e (re)inventando práticas consuetudinárias como, por exempo, as praxes eclesiais. 

As celebrações comunitárias e as atividades pastorais foram transmitidas ao vivo nas plataformas digitais, promovendo momentos de oração e catequeses. Estas transmissões aconteceram através das redes sociais (facebook das dioceses e das paróquias), das mensagens (watsApp, messenger) ou de outras plataformas de streaming a disposição. Às experiências pastorais concebidas e vivenciadas online juntaram-se  as celebrações extemporâneas.  

Uma das muitas e válidas razões que conduziram a essa decisão foi, sem dúvida, a necessidade de estar presente espiritualmente. Assim, a qualidade (e não a intenção) da mediação pastoral é uma questão a ser aprofundada. 

Desde os primeiros dias da emergência sanitária e, especialmente, após os decretos que proibiram o ajuntamento de pessoas e que, indiretamente, impediram a liturgia comunitária, vieram à baila várias discussões  no mundo cristão. As primeiras polémicas sobre a necessidade ou não de aceitar as medidas impostas foram superadas, entretanto os questionamentos concentraram-se em torno do elo eclesiológico presbítero – povo de Deus. 

Por um lado, a teologia do Vaticano II combate intrepidamente a ideia que possa existir uma Missa privada, por outro lado o Código de Direito Canónico de 1983 deixa em aberto a possibilidade de uma “Missa sine populo”, ou em outras palavras, a Missa sem a participação dos fiéis(o código de 1917 a proibiva categoricamente).  

Perante esta situação, recorreu-se à transmissão em streaming das Missas celebradas sem a assembleia ou com um número  bem reduzido de fiéis. Embora a transmissão das celebrações em favor dos impossibilitados de participar seja uma praxe consolidada, a situação era, contudo, insólida: até o presente momento transmitia-se as habituais eucaristias dominicais em favor dos fiéis doentes: trata-se de Missas sine populo em que, continuamente, quem preside dirige-se a uma câmera.  Com efeito, este gesto demonstra a genuina solecitude da Igreja para com o povo de Deus. Uma tentativa de estar próxima e a todos os fiéis reconfortar. 

À nível sacramental, o que realizza a Missa em streaming? O fiel tem a consciência que a Eucaristia foi celebrada sem a sua participação presencial e que o Sacrifício do Senhor tornou-se realmente presente onde foi celebrado. Contudo, não sabe muito mais que isso: o lugar da celebração é inatingível por causa da sua historicidade (e não pela transcendência). O dispositivo midiático que veicula a imagem e o som não é capaz de tornar tangível o evento porque é uma reprodução da realidade. O virtual não difere do real porque falta dinamismo (a virtualidade também tem a sua força -“vis”), mas porque falta a materialidade do sacramento, a sua forma celebrativa. 

Porém, este não é um pretexto para negar que o streaming possa suscitar uma sincera participação na oração e uma memória afetiva (a presença real conjugaria todas as outras formas de presença). Ressalta desta memória afetiva que a Missa sine populo transmitida em streaming não susbstitui a reunião à volta do altar. Esta reiteração não é para despersuadir o uso das transmissões nas plataformas digitais, mas para colocar cada coisa em seu devido lugar. De fato, terminada a emergência, a sabedoria pastoral deverá ser capaz de distinguir os ganhos e as ambiguidades. 

O cenário descrito remete-nos, portanto, a um conceito protótipo da cultura digital – o “grassroots”, ou seja, a produção mediática de caráter espontâneo, produzida por não proficionais, mas com enorme penetração social. A pastoral “grassroots”, efetivada durante o isolamento, foi um indicador da creatividade eclesial. Permitiu, efetivamente, a rápida difusão e foi acessível a um grande número de pessoas ao mesmo tempo e no mesmo lugar (plataforma digital). Dessarte, é improtelável  “apostar todas as fichas” na pastoral digital.

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Seminarista maior da Diocese de Mindelo