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Sab, Mai

A situação na Praia estará controlada após o Estado de Emergência? Riscos, valores e comportamentos sociais

Opinião
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A rápida difusão da pandemia do Novo Coronavírus no Conselho da Praia é acompanhada de uma frenética infodemia, previamente definida pela Organização Mundial da Saúde como “uma super abundância de informações - algumas precisas e outras não - que torna difícil para as pessoas encontrarem fontes e orientações confiáveis quando precisam”. 

Opinião de Hernany Soares

As instituições sanitárias de Cabo Verde se deparam, seja com a contenção do contágio deste vírus perigoso (para o qual ainda não se tem uma vacina/fármaco e os protocolos de tratamentos, como a hidroxidocloroquina, são experimentais), seja com notícias contraditórias ou divergentes, muitas vezes falsas e, sobretudo, “contagiosas”. As medidas relativas à prevenção, contenção, mitigação e tratamento da infeção epidemiológica causada pelo Novo Coronavírus, no conselho da Praia, dependerão grandemente das capacidades individuais ou coletivas de compreender, de aceitar e de dar sentido às mudanças provisoriamente prescritas pelo Estado de Emergência em Santiago1 e às medidas do Governo2.  

Todos os meios de comunicação e redes sociais estão a disponibilizar artigos e dados sobre o vírus e a situação sanitária em Cabo Verde, sobre a diferença entre o crescimento aditivo e o crescimento exponencial e sobre as estruturas sanitárias. Estas notícias úteis e atualizadas diariamente pelas autoridades competentes, fundadas em pesquisas científicas de ponta, não chegam. Como se sabe, muitas ideias infundadas e causadoras de irresponsabilidade individual e coletiva estão ligadas a uma fraca capacidade de compreensão da linguagem científica (e de todos os contornos desta situação sanitária emergencial). À vista disso, devemos estar atentos porque desta dificuldade de conciliar todas as variáveis desta situação epidemiológica pode emergir  o «vírus da paranóia3», com os seus derivantes (a histeria, o conspiracionismo, o apocalipsismo4, o medo, a estigmatização e a “somatização do vírus”). Como este tópico já foi amplamente evidenciado em outros contextos e as autoridades sanitárias cabo-verdianas estão fazendo um trabalho apreciável neste sentido, não cingir-me-ei a isto. 

Penso ser interessante trazer à baila, como aconteceu em outras questões de saúde pública (por exemplo com outras doenças infecciosas ou com a obrigatoriedade das vacinas), o tema do conflito entre o raciocínio técnico-científico e o raciocínio social. Ao passo que o  raciocínio técnico-científico analisa, ponderadamente, o problema epidemiológico do Novo Coronavírus e traça soluções; o  raciocínio social ressalta as suas consequências e os seus impactos na vida de cada cidadão e de todo o país, com perceções e linguagens diferentes. Porém vale a pena frisar que, na maioria dos casos, o raciocínio social depende do raciocínio técnico-científico, porque os riscos (sanitários, económicos, sociais, etc.) devem ser demonstrados em termos científicos para terem consistência e relevância aos olhos da opinião pública e da política. 

O facto é que, na atual «sociedade de risco» (conceito empregue pelo sociólogo alemão Ulrich Beck5) cabo-verdiana, os complexos problemas ligados ao Novo Coronavírus, são objetos de definições/explicações conflituantes ou controversos entre os médicos, os decisores políticos e os grupos/associações sociais. Não é só uma questão de factos, números ou evidências científicas. É, acima de tudo, uma questão de valores conflituantes e alternativos que norteiam, seja os comportamentos dos atores sociais (agentes sociais, económicos e instituições), seja as medidas políticas, com modalidades parecidas.

Ao avaliar a gravidade dos riscos (mesmo na comunidade científica), as atitudes recorrentes são de quatro tipos: 

  1. Os “maximalistas”: consideram que uma pequena percentagem de doentes e de mortes pelo Novo Coronavírus deverá ser evitada e estão dispostos a sacrificarem-se.
  2. Os “minimalistas”: estão propensos a considerar menos aceitável uma perda económica ou de uma liberdade individual do que um certo número de vidas ceifadas.
  3. Os “fatalistas”: consideram que o risco faz parte da vida. Por isso, é inevitável e está fora do controlo. 
  4. Os “individualistas”: colocam no centro da questão os interesses individuais em detrimento dos interesses coletivos, supervalorizando os recursos, os bens e os serviços. 

Em Cabo Verde, o modelo estratégico adotado foi o “maximalista”: contrasta-se o contágio, contendo-o com procedimentos emergenciais de isolamento profilático da população, arcando com todos os custos económicos exorbitantes. É um modelo exequível em culturas baseadas na coesão social, na aceitação de uma forte limitação das liberdades e direitos e com uma indiscutível autoridade das instituições. Foi, também, aplicado em outros países, como a China, a Coreia do Sul, a Itália e a Espanha. Contudo, outros países, como a Grã-Bretanha, a Alemanha e, parcialmente, a França e os Estados Unidos, aplicaram o modelo estratégico “minimalista”: fizeram os cálculos custos/benefícios e escolheram apenas e tão-somente cuidar dos doentes, sacrificando, se assim se pode dizer, uma percentagem da população (os idosos e os imunodeprimidos). No caso do modelo “maximalista”, aspira-se tutelar a saúde pública e evitar o colapso do sistema sanitário nacional. 

Mas será que os valores do bem comum e da coletividade são importantes e compartilhados pela maioria dos cabo-verdianos? Teoricamente sim, mas os comportamentos de alguns deixam muito a desejar.  “Kenha ki ka ta fika na kasa” ou “ken k fcá na casa” e se expõe ao risco, nem é irracional nem é desinformado: está sendo guiado por outros valores, sobretudo, individualistas e de um pequeno grupo radical e amoral. 

Pese embora muitos aderem ao modelo “maximalista”, nas declarações aos meios de comunicação e nas redes sociais – de expoentes industriais/económicos, casais jovens ou sem filhos, comerciantes, operadores turísticos, trabalhadores autónomos - patenteia-se uma linha “minimalista” subtil. Todavia, não se pode “estar-se nas tintas”, pois os valores da perspetiva “minimalista” devem ser tidos em consideração. É preciso diálogo (sinergia) para não se  “deitar por água abaixo” os possíveis ganhos. Sanções, controlo e medo de contagiar não mudam valores! 

 Os dados são claros: o vírus é mais letal nos idosos que nos jovens. Porém, enquadrar os riscos por categorias e não por comportamentos, faz-nos recordar os erros cometidos inicialmente com o SIDA, pois a comunicação concentrou-se nas categorias de risco, os homossexuais e os toxicodependentes. Por este ângulo, os jovens sentir-se-ão invencíveis e imunes, a percentagem de letalidade aumentará posteriormente e as relações entre as gerações tornar-se-ão “ásperas”. É fundamental centrar-se nos comportamentos e não nas categorias (embora relevantes)! 

Em suma, um quadro articulado e rico de valores que guie as ações e as escolhas, conjugado com formas seguras e legítimas do raciocínio social, poderá ajudar no controlo da situação epidemiológica praiense. Neste momento não serve etiquetar pessoas e nem deixar ninguém para trás. “Sta na nos mon”!!! 

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1.  Decreto Presidencial nº 09/2020, de  14 de maio de 2019. https://kiosk.incv.cv/V/2020/5/14/1.1.60.3237/p1322

2.  Decreto-lei 51/2020, de 14 de maio de 2020. https://kiosk.incv.cv/V/2020/5/14/2.1.60.3238/p2 

3. Estar apreensivo e preocupado com o Novo Coronavírus, é normal. Quando estas inquietações são exageradas e sem nenhum fundamento real ou razoável, está-se diante de uma psicose: é o “vírus da paranóia”. Daí, o fenómeno da estocagem em massa do papel higiénico. [Cf. https://averdade.org.br/2020/03/coronavirus-cautela-sim-paranoia-nao/].

4. Moulay Driss El Maarouf, Taieb Belghazi & Farouk El Maarouf (2020) COVID – 19: A Critical Ontology of the present1, Educational Philosophy and Theory. https://doi.org/10.1080/00131857.2020.1757426

5.  Refere-se a riscos contra os quais não se obter seguros para proteção, porque não podem ser mensurados. Situam-se num nível elevado de incerteza. [Cf. BECK, Ulrich (2007). Weltrisikogesellschaft : auf der Suche nach der verlorenen Sicherheit. Frankfurt am Main: Suhrkamp].