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Dom, Set

Vida afectiva e “amor líquido”: A fragilidade dos laços afectivos e sentimentais no século XVI

Opinião
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A modernidade e os seus processos irreverênciais têm transformado, de modo radical, a vida dos cidadãos. Um mundo líquido em que os hábitos, os comportamentos, as escolhas e as estruturas sociais, não conseguem atingir a solidez necessária, para manter inalterado e seguro no tempo a própria forma. Tudo torna-se instável, efémero, incerto. Essa fragilidade que caracteriza a vida de cada um contagia também os relacionamentos afectivos e sentimentos. 

Opinião de Hernany Dias*

 

Consequentemente, no mundo líquido, o amor como um laço eterno e incindível é praticamente inconcebível. A palavra amor, foi talmente banalizada, ao ponto de ser utilizada para incluir um pouco de tudo. Muitas vezes, confunde-se o amor com o desejo ou seja, com o impulso de possuir o que atrai. Uma vez terminada a “curtição”, o “produto” é descartado.

Isto significa, que o desejo excluiu o verdadeiro e profundo significado do amor, não prevendo  nem a eternidade (durabilidade temporal), nem investimentos. O longo prazo, actualmente, não é defensável. A cultivação de um desejo de forma permanente é contraproducente. Como acontece nos mercados, as pessoas são estimuladas e excitadas pelos desejos imediatos e extemporâneos, que não têm consequências. As relações, então, tornam-se meramente sexuais. Segue-se um desejo momentâneo, porque a construção de um laço afectivo e sentimental é comprometedor. 

O “amor líquido” (conceito conato pelo sociólogo polaco Zygmund Bauman) é um amor privado de laços profundos, que se podem quebrar e consertar ao belo prazer, sem consequências e responsabilidades. O desejo de “liquidez” nas relações deve-se ao individualismo exacerbado que permeia a nossa sociedade, um individualismo que quer somente a satisfação, não suporta tensões e frustrações. Por isso, houve o “boom dos consulentes” ou seja, o pedido de ajuda, cada vez mais frequente, a psicólogos e sociólogos, por parte de pessoas cada vez mais incapazes de enfrentar sozinhas a complexidade da vida. O que se espera encontrar junto destes profissionais é essencialmente como ter estabelecer uma boa relação, sem compromissos e responsabilidades. 

Naturalmente, não existe um manual que ensine a amar. É por isso que a frustação de uma relação estável é substituída pelas “relações” ou seja, com aventuras numerosas e “fáceis”, estimulando a pessoa a crer nas próprias capacidades de “amar”, mas sobretudo estimulando pela ilusão de que cada nova experiência seja entusiasmante, maximizando-a ao infinito. Numa sociedade consumista, o outro é uma “coisa” pronta para mim, disponível para “uso e consumo”. Não é apenas objecto de desejo, mas objecto de mera satisfação.

Neste sentido, as relações parecem obedecer pateticamente a lógica do consumo: consumidas num lugar e por uma só volta,  para desfazê-las imediatamente depois. A escritora Catherine Jarvie as define de “relações de algibeiras” ou melhor dizendo, relações instântaneas: utilizadas somente quando servem, tendo substancialmente por base a convivência. 

Tal fragilidade e instabilidade, evidencia a necessidade e a importância da dimensão pedagógica. Na exortação Apostólica ‘Familiaris Consortio’(FC), sobre a missão da família cristã no mundo, o então Papa João Paulo II reservou um lugar importante a educação sexual, como um valor da pessoa humana: “A educação ao amor como doação de si” : o amor, não é somente uma ideia romântica ou a comunicação de algo, mas é uma doação integral de si mesmo; exige aprendizagem, um certo compromisso, assunção das responsabilidades, um constante aprofundamento da promessa de amor, esforço para superar as incompreensões e cansaços. Por isso, necessita da fidelidade no tempo, de escolhas responsáveis e conscientes e do empenho educativo.  

Diante de uma cultura que banaliza, em grande parte, a sexualidade humana, porque a interpreta e a vive de um modo redutivo e “pobre”, conectando-a unicamente ao corpo e ao prazer egoístico, a família tem um papel preponderante na afirmação da sexualidade como uma riqueza da pessoa no seu todo – corpo, sentimento e alma – e que manifesta o seu significado profundo na doação de si mesmo no amor (cf. FC 37). 

Em suma, a família como “escola de amor” é, efectivamente, o melhor ambiente para assegurar uma gradual educação sexual. Na família tem-se um certo nível de afectividade capaz de mudar, sem traumas, as realidades delicadas e integrá-las numa personalidade forte e equilibrada: “Para poder dar aos filhos orientações eficazes necessárias para resolver os problemas do momento, antes mesmo dos conhecimentos teóricos, os adultos sejam exemplo com o seu comportamento. Os pais cristãos devem ser conscientes de que o seu exemplo representa a contribuição mais válida na educação dos filhos. Estes, por sua vez, poderão alcançar a certeza que o ideal cristão é uma realidade vivida no seio da própria família” (Orientações educativas sobre o amor humano, n.50). 

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*Hernany Dias é Seminarista Maior da Diocese de Mindelo