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Dom, Set

Obrigado João Paulo II

Opinião
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A visita apostólica que o Papa João Paulo II acaba de realizar ao nosso país irá, para sempre, ser recordada como acontecimento mais feliz da história dessas ilhas, pelo menos até hoje.

É que jamais se viu tanto cabo-verdiano reunido, a olhar para a mesma direção e com os corações a bater em unissonância tão perfeita. Realmente foi Deus que através desse homem, a visitar o seu povo, inundando de paz e alegria os corações e, misteriosamente, incutindo, em todos, sentimentos de confiança e de esperança. 

“Meu pai faleceu precisamente no dia em que desembarcava no Sal o Papa João Paulo. Por motivo de respeito para com o meu querido pai, não queria ver a televisão. Afinal, olhando para a figura daquele homem, cuja imagem a televisão fazia chegar até a minha casa, enchi-me de coragem, senti-me menos triste” - Foi a confissão dum amigo que viajou connosco no dia 28, no voo Praia/São Vicente.

Compreendemos as palavras cheias de emoção que o jornalista da rádio dizia no Sal, ao assistir a cenas daquele primeiro abraço do Papa ao povo cabo-verdiano: “Eu nuca vi coisa igual!”

“A solicitude por todas as Igrejas” (2 Cor.) a ânsia apostólica de a todos chegar, cumprindo assim o mandato de Cristo “ide por todo o mundo anunciai a Boa Nova a todas as gentes”, estiveram bem patentes nas palavras que, com paternal bondade, pronunciou à sua chegada ao Sal: “Eu desejava, há muito, conhecer Cabo Verde e seus habitantes”. Palavras que, afinal, correspondiam dum modo tão feliz às do povo que cantava “Benvindo João Paulo II…/ Estas ilhas desde há muito te esperavam e jubilosas hoje podem ver-te” (letra e música do P. José Álvaro). E o Papa: “Gostaria de encontrar-se e conversar com cada um dos habitantes deste arquipélago”. 

Veio então aquele recado que o povo de Sal e nós todos nunca mais esqueceremos: “Foi-me referido que, normalmente, a luz das ilhas deste arquipélago é maravilhosa; e o nome da vossa terra, Sal, tem razão de ser e é sugestivo… por isso o recado do Papa para vós é este: sede cada vez mais luz do mundo e ‘Sal da terra’ (Cf. Mt. 5, 13-14)! Ou seja, procurai viver como cristãos responsáveis, testemunhando a dimensão social da própria adesão a Jesus Cristo e à sia Igreja…”. 

Foram três dias que valeram um século, mas parafraseando o salmista, um século diante de um Homem de Deus qual João Paulo II, é igual ao dia de ontem que passou. Efetivamente, tudo passou tão depressa, dando-nos a sensação dum sonho feliz. Sobretudo pensando no bom povo de 3 meses para poder ter, no fim, apenas duas horas de alegria, em companhia do insigne Pastor. Mas valeu a pena, já que foram duas horas de verdadeira alegria, essa que perdura…

“Agora o Senhor pode levar-me, se assim quiser”, disse na Praia para a rádio uma velhinha, depois que as mãos sagradas do Papa poisaram sobre aquela cabeça de nonagenária e a abençoaram. A fazer lembrar as palavras do velho Simeão, junto ao tempo de Jerusalém, ao acolher em seus braços aquele corpinho de Deus feito criança (Lc 2, 29-32). 

Foram apenas três dias. E, durante esses três dias, fomos o povo mais feliz do mundo, porque tínhamos, de algum modo, a Cátedra de Pedro transferida de Roma para o meio de nós. Tínhamos Pedro, o pescador de homens, ao longo de três dias a pescar em nossa águas. E como estavam cheias aquelas redes, nas margens do mar de Quebra-Canela, no Gimno-Desportivo da Chã-de-Areia ou no Estádio da Fontainha, em São Vicente!

“Não, esse homem tem qualquer coisa de estranho nele! É diferente!” - era assim que falava para a mãe um jovem que por simples tinha ficado à berna da estrada, na Praia, à espera de ver esse de quem todos falavam. Como Zaqueu, outrora, ele queria ver quem era João Paulo II. Pois bem. Esse jovem que antes não queria saber da Religião correu depois à casa paroquial á procura de um cartão de entrada no Gimno-Desportivo. Claro, já era tarde e não pôde ir. Mas João Paulo II deixou inquieto esse jovem. 

João Paulo II! O enviado de Deus às nossas ilhas, na hora em que a humanidade assiste à queda de tantos ídolos de pés de barro. O homem que veio para todos nós e deixou uma carinhosa mantenha para os emigrantes, mantenha que, a terminar estas notas, transcrevemos parcialmente: 

“Quereria que os cabo-verdianos que se encontram noutros países e que, sem dúvida, acompanham com interesse e fé, a visita do Bispo de Roma ao seu Arquipélago, soubessem que também o Papa pensou neles e aqui rezou por eles, bem conhecendo o sacrifício de terem de estar longe do que lhes é querido”. Obrigado, João Paulo II! 

 

Frei A. Fidalgo (Edotorial do jornal Terra Nova, Janeiro de 1990)