22
Sab, Fev

O neo-populismo no debate político cabo-verdiano: À procura da igualdade imaginária?

Opinião
Tipografia

É necessário passar da sociologia política e da ciência política para uma sociologia geral do neo-populismo e enquadrar a sua própria internalização social. 

Opinião de Hernany Dias*

 

O “populismo” é um dos temas mais recorrentes no debate político cabo-verdiano hodierno. É frequentemente usado como elemento discriminatório no confronto entre as forças políticas. 

A argumentação populista, funcional ao poder, é recente na história cabo-verdiana, e em particular modo, no sistema sóciopolítico, embora as suas raízes vêem de longe. O populismo entendido, nesse caso, como uma concepção meramente instrumental da ordem pública para conseguir fins políticos. 

A definição de populismo é uma das questões mais controvérsias, tanto no debate político, quanto nas ciências sociais. Isto deve-se a duas razões essenciais: primeiro, a categoria de populismo é “fraco”, porque vem à baila quando está-se diante de um actor colectivo, que embora tenha no centro do seu discurso e da sua prática uma certa polemologia de povo, não entra em nenhuma das tradições políticas (liberalismo, socialismo, comunismo, conservadorismo, fascismo); segundo, a referência ao “povo” e as contradições simplicistas que este traz consigo, não é exclusivo do populismo, pelo contrário, na modernidade todos os movimentos políticos de massa e a própria democracia como regime político, funda-se em uma “espécie” de apelo ao povo. A falta de monopolização tem duas consequências: a relação entre uma certa ideia de povo e um movimento político, inclusive o populismo, é “lábil” e está em permanente processo de construção e podemos encontrar traços de populismo em muitos movimentos que adoptam referimentos ideológicos diferentes. 

Na dificuldade de definir inequivocamente este termo, acentuou-se o seu uso polémico, sobretudo no período recente: é, por exemplo, o caso de Cabo Verde, em que o conceito assumiu uma acepção pejorativa, atribuída à alguns movimentos políticos com  características atípicas relativamente a democracia representativa. O uso sobreabundado deste termo conferiu-o uma etiqueta negativa e, contemporaneamente, transformou-o em um elemento que permite estigmatizar um certo número de fenómenos sociopolíticos ou um líder cosiderado odioso ou perigoso da parte de quem denuncia. 

Todavia, não obstante a controvérsia em que está envolvido o objecto em questão e do seu uso polémico, é possível individualizar características que permitem distingui-lo de outros processos e formas de políticas. É uma configuração interclassista, que considera a comunidade homogénea e se auto compreende como detentora absoluta da soberania popular. Se impõe como alternativa as elites existentes, acusadas de exclusão e pela decadência do sistema político. Há uma conexão directa entre um líder carismático e o povo (acepção diferente do populismo penal, que diga-se de passagem começa a aflorar também). Por último, mas não menos importante, é o estilo discursivo, argumentativo e comunicativo, onde o “nós” coincide com o “povo” e com tudo que a este se refere. O estilo discursivo visa promover a polarização política. 

Em Cabo Verde, não nos cingimos somente as dimensões de “ideia de povo” (cultura política axiológica), de liderança e do estilo discursivo, argumentativo comunicativo (cultura política expressiva), de modo ‘tout court’, há uma dilatação dessas variáveis. Algumas vezes, esta etiqueta é usada indistintamente  como denigritório de uma “política de praça”: como configuração oposta à ordem da representatividade eleitoral com características específicas. Outras vezes, para além das retóricas de igualdade que estão presentes na democracia cabo-verdiana, existe uma certa inclinação ao “deleite” nos meios de comunicação social e nos ambientes da vida quotidiana, que dá uma nova roupagem ao populismo em Cabo Verde. Sem dizer que, nos últimos vinte anos, o termo populismo, sofreu uma extensão excessiva na literatura contemporânea. 

Ora, devido a idiossincrasia terminológica e para excluir fenómenos antigos, designá-lo-ei como neo-populismo. Se o populismo clássico do século XX, principalmente da Rússia e dos Estados Unidos, antecipava ou seguia um alargamento da massa de participação política; nas experiências contemporâneas, especialmente no caso de Cabo Verde, o neo-populismo parece indicar uma “doença” de uma democracia de massa, que considera o sistema sóciopolítico incapaz de dar respostas aos cidadãos e de funcionar substancialmente (e não somente formalmente) a nível democrático. O neo-populismo cabo-verdiano, é uma tentativa – cheia de contradições e de insuficiências – de renovar a democracia.

O neo-populismo cabo-verdiano é caracterizado por algumas características específicas: a tendência dos líderes de “invocarem” a capacidade extraordinária e imediata de interpretar as necessidades do povo, o atropelo das regras formais da democracia que obstruem a missão de promover o bem público, a frequente referência ao sentido comum do “povo normal” e a tradição da “maioria do povo”, as acusações aos políticos de profissão e aos processos de decisão, assim como, aos intelectuais e aos sindicatos, imputados de quererem dividir o povo em classes. 

Um dos sintomas mais graves do neo-populismo é o designado “neo-populismo político”: os políticos, de todos os partidos, que nos seus discursos dirigem directamente ao povo, para além  das possíveis divisões ideológicas ou políticas, para obterem o mais amplo consenso eleitoral possível. O uso do termo “povo” é fascinante, porque é um termo que não tem um significado preciso, mas é rico de ressonâncias retóricas e emotivas. Os diversos tipos de operações retóricas são dirigidas directamente ao povo e baseiam-se, na maioria das vezes, em múltiplas promessas. 

Como se verifica a  progressiva maturação do neo-populismo cabo-verdiano, é improtelável passar das questões de polémicas intelectuais (e políticas) sobre o uso e a definição da categoria de “populismo” (correspondente a sua fase nascente)  para focalizar em novas interrogações; perguntas (e hipóteses) que devem ser conduzidas por uma certa “imaginação sociológica”, relacionando o neo-populismo com as dinâmicas colectivas e prospectivas independentes do debate político mediático.

 

Em suma, é necessário passar da sociologia política e da ciência política para uma sociologia geral do neo-populismo e enquadrar a sua própria internalização social. 

__________

*Seminarista Maior da Diocese de Mindelo