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Ter, Jan

Morna “Património da humanidade”: Oportunidade e responsabilidade

Opinião
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«Declaro a decisão adoptada»: foi deste modo que a UNESCO anunciou a inserção da Morna no património da humanidade. A decisão foi anunciada na 14ª reunião anual do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Unesco que aconteceu recentemente na cidade de Bogotá, na Colômbia.

Opinião de Hernany Dias*

 A convenção para a Salvaguarda do Património Mundial da Unesco, assinada em Novembro de 1972 em Paris, foi o primeiro instrumento jurídico internacional a reconhecer e proteger os bens culturais e naturais, com o objectivo de garantir a identificação, a consciência, a conservação e a transmissão às gerações futuras. Trata-se de bens de elevadas peculiaridades culturais, artísticas, ambientais e paisagísticas, que satisfazem uma série de critérios que permite inscrevê-los na “word Heritage List”. 

Na sequência de uma grande campanha de cooperação internacional, levada a cabo nos anos Cinquenta do século passado, para salvar os templos de Abu Simbel, no Egipto, que corriam o risco de ficarem submersos pela construção de uma barragem, sentiu-se a necessidade de proteger estes bens.  

Posteriormente, em Outubro de 2003, reconhecendo a interdependência entre património cultural material e imaterial (intangível), a Unesco aprovou uma convenção (que entrou em vigor em Abril de 2016) para salvaguardar o património imaterial, definindo-o como “um conjunto de práticas, representações, expressões, conhecimentos, saberes que as comunidades, os grupos, em alguns casos indivíduos, reconhecem como parte do próprio património cultural”. 

A inserção da Morna, “a pérola da música cabo-verdiana”- como a definiu o Padre Firmino Cachada, no seu livro de homenagem póstuma ao Ano Nobu (alcunha de Fulgêncio da Circuncisão Tavares, um dos grandes compositores da Morna) - na lista da Unesco, não representa somente o reconhecimento do seu valor a nível internacional, mas oferece a possibilidade de usá-la como recurso de identificação de Cabo Verde, recordando o passado e o presente, com um visão voltada para o futuro. 

Um tema central, na reflexão sobre a adopção da Morna como Património Cultural Imaterial da Humanidade,  é a transmissão da memória cultural colectiva. A promoção e a valorização da Morna devem fazer parte do carácter comunicativo profundo: a transmissão de uma geração à outra de competências, conhecimentos e hábitos que são elementos importantes deste símbolo identitário.

 O aspecto social de identificação e de reconhecimento é central para que os “dispositivos” da memória funcionem e sejam eficazes. Se o cidadão cabo-verdiano tornar-se actor (individual ou colectivo), a memória cultural garantirá a continuidade da identidade da Morna no tempo que tantos, como Eugénio Tavares, B. Leza, Ano Nobu, Betú, Djodja, Luís Rendall, Luís Morais, Paulino Vieira, Katchás, Renato Cardoso, Manuel Clarinete, Bana, Cesária èvora, Ildo Lobo, Titina Rodrigues, Fernando Quejas, Dojosinha, Bau, Tito Paris, Frank Mimita, Celina Pereira, esmeraram  por manter . 

Tratando-se de um bem cultural, de valor inestimável, para todos os cidadãos cabo-verdianos, como conta-nos a historiografia da Morna dos anos 70 do século passado, esta assume-se como herança do próprio passado, por conservar no presente e a ser transmitida às gerações futuras. Se para alguns a notoriedade da Morna é tal, de modo a fazerem descaso do reconhecimento da Unesco, para muitos, esta oportunidade serve para ampliar o conhecimento, ao menos a nível internacional, favorecendo de consequência a salvaguarda e a valorização. Mesmo se detrás deste grande interesse, esconde-se o perigo que as operações de promoção e de marcketing, com finalidades ligadas exclusivamente ao aproveitamneto e levadas a cabo sem sólidas e adequadas bases cognocitivas e planificadoras de alguns, possam ser somente um meio para tirar proveito. 

O “selo Unesco” parece ter uma capacidade de incidência, sobretudo em dois âmbitos fundamentais: a investigação científica (com o intuito de conhecer aprofundadamente, preservar e valorizar a Morna) e o turismo cultural (com a função de atrair e garantir a qualidade da Morna). 

O sector que mais “vantagem” pode tirar da Morna enquanto “Património da Humanidade” é, indubitavelmente, o turismo, mesmo se não é fácil avaliar os impactos económicos e sociais. Primeiramente, porque o turismo é um dos sectores mais complexos e problemáticos de quantificar devido a um conjunto de motivos já conhecidos (dificuldades de identificar a clientela, grande parte das actividades económicas não operam exclusivamente para o turismo, etc). Em segundo lugar, faltam dados sobre a capitalização da “marca” Unesco, do número de fruidores e a venda de produtos relacionados. 

Ocorre, principalmente, compreender as formas de interacção entre o turismo e a Morna, enquanto Património Cultural Imaterial da Humanidade, de modo a reconhecer a importância da fruição deste bem cultural na transmissão e promoção da identidade cabo-verdiana. 

Para além da obrigação de conhecer mais aprofundadamente a Morna (sobretudo aquelas mornas mais antigas, como a morna “Brada Maria”, relegadas a lugares de pouca ou nenhuma visibilidade) é improtelável proceder com um projecto de consciencialização, salvaguarda e valorização nacional, activando políticas que miram a fruição deste património cultural.

Neste perspectiva, será essencial o reconhecimento de figuras profissionais específicas que, em diversos níveis de especialização e aprofundamento, sejam capazes de valorizar as fontes iconográficas e a Morna como expoente essencial do património cultural cabo-verdiano. 

Em suma, a extraordinária riqueza da Morna e a situação dos estudos e da pesquisa iconográfica-musical cabo-verdiana actual, definem um quadro riquíssimo na efectivação do projecto de consciencialização, salvaguarda e valorização nacional, seja na vertente da pesquisa de base, seja sobre a documentação e a valorização. 

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*Seminarista maior da Diocese de Mindelo