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Ter, Dez

Economia digital em Cabo Verde: qual direcção tomar para o futuro?

Opinião
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A Economia Digital é o resultado das profundas transformações que estão acontecendo e continuam a acelerar graças a aplicação das novas tecnologias digitais em todos os processos produtivos terciários do mundo. 

Opinião de Hernany Dias*

A transformação digital trouxe grande inovação e  desenvolvimento económico, ao ponto de poder alegar que a economia não é somente global mas, efectivamente, digital. Neste panorama é imprescindível uma mudança de paradigma de modo a assegurar o crescimento, incrementar a competitividade e a produtividade, ampliar as oportunidades ocupacionais e de negócios, modernizar a administração pública. 

Mas o que é a Economia Digital? Baseia-se nas tecnologias informáticas. Vai para além da Rede. Compreende todas as tecnologias, seja hardware (estruturas material) que software (componente lógico e programático). O primeiro a falar de Economia Digital foi Don Tapscott em 1995 em um artigo, onde argumentava porque a internet teria mudado o modo de fazer negócios. Actualmente, se aposta em novos processos de produtividade, novos modos de abordar os problemas e, sobretudo, novos modos de trocas de conhecimentos. 

Efectivamente, a Economia Digital, representa um macro universo que gira em torno da inovação nos negócios. Assim sendo, de um lado, temos empresas que aderiram às transformações digitais e estão renovando-se e do outro, empresas que estão ancoradas nas lógicas tradicionais. O mercado está dividido em dois. Não fazer parte da economia digital, advertem os especialistas, pode ser arriscado porque o centro da transformação digital não é a tecnologia, mas a visão. De facto, a digitalização antes de ser um fenómeno tecnológico, consiste numa visão de liderança. Um tema cultural e organizacional. Na new economy, as redes digitais e as infra-estruturas de comunicação permitem a interacção, a comunicação e a colaboração entre pessoas e organizações, numa plataforma global, de modo a obter-se mais informações, bens e serviços. 

É evidente que a primeira área influenciada pelas tecnologias é a própria organização empresarial e o mundo dos negócios. A mudança e a inovação não nascem por acaso. Para além de ter um terreno fértil capaz de estimular e gerar a vontade e o espírito inovativo é necessário empreendedores visionários e colaboradores. 

Um dos aspectos mais relevantes é a inovação colaborativa: a colaboração dentro e fora das empresas.  É importante envolver os clientes, as comunidades de pesquisa e parceiros no processo de decisão. É fundamental, engajar a nova geração com novas competências e ampliar os horizontes. As competências digitais devem ser aplicadas isto é, as estruturas de lideranças prevalentes no século XX já não funcionam na Economia Digital hodierna, e as empresas são interpeladas a rever estes  modelos tradicionais. Em particular, as empresas devem rever o abrangimento de decisões e baseá-las mais sobre os datos do que nas opiniões dos líderes. É mais fácil tomar decisões, quando estas se baseiam sobre os algoritmos. 

As empresas estão em função dos clientes. São estes que têm grande influência nas empresas. Os consumidores actualmente têm acesso as informações antes do tempo. Podem adquirir em qualquer parte o melhor produto, com o melhor preço e com grande rapidez. Sabem exactamente o que querem e como adquiri-lo.  

A digitalização é um paradigma que está revolucionando não só a economia mas toda a sociedade cabo-verdiana: esta transformação supera os parâmetros geográficos, està a cima dos diferentes sectores. Mudou também o mercado e as regras contractuais que por decénios tinham regulado as relações entre os inúmeros actores económicos. A robótica que substitui a tradicional força laborativa, as novas formas de avaliação digital e a intermediação feita pelas plataformas e dos algoritmos são alguns dos elementos da new economy.

Cabo Verde deverá investir em sectores chaves. Em primeiro lugar, nas infra-estruturas digitais e competências adequadas. O contexto nacional, com efeito, corre em duas velocidades e a difusão geográfica das empresas é heterogénea. Se de um lado as grandes empresas, paulatinamente, estão a beneficiar dos benefícios da Economia Digital, outras – especialmente as pequenas – correm o risco de ficarem para atrás. Por isso é necessário superar este desfasamento através de uma profícua e eficaz aliança entre as empresas e de todo o mundo financeiro. Um outro factor de risco a ter em conta é a das realidades empresariais. As realidades empresariais de sucesso em Cabo Verde estão dispersos diversamente no território; o que comportaria desequilíbrios e atrasos no desenvolvimento da new economy e reduziria a capacidade de mobilizar recursos humanos e de atrair capitais financeiros necessários para afrontar melhor o novo cenário competitivo. 

Em suma, é imprescindível determinar a competitividade do sistema cabo-verdiano e das empresas apostando nos elementos de atractividade, favorecendo a valorização das pessoas e das competências. A mudança radical na cultura de negócios deve envolver todos os actores económicos nas transformações. O novo conceito de empresa deve basear-se nas plataformas digitais e na realidade empreendedorial comprendida como rede. 

 

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* Hernany Dias é seminarista maior da Diocese de Mindelo e escreve todas as quartas-feiras