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Sab, Dez

Canonizados ou não, os Santos são manifestações de Cristo*

Opinião
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Na Solenidade de Todos os Santos, uma das Festas mais luminosas que, malgrado o sentimento da Saudade que nos abrange, temos no calendário da Igreja, penso, entre outras coisas, no seguinte: 

 

1. Ao celebrar «Todos os Santos», ou seja, todos os homens e mulheres, pessoas de todas as idades e condições, que em todos os tempos e em todos os lugares radicalmente se deixaram configurar por e com Cristo, a Igreja rejubila com a Alegria da Ressurreição, alegria que para nós é sempre tanto maior quanto sabemos que entre «todos os santos» estão também pessoas das nossas relações, alguém que recordamos como parte integrante da nossa própria vida: pais ou avós, filhos ou filhas, colegas ou familiares, antepassados ou contemporâneos, mestres ou discípulos, pessoas de quem muito gostamos ou até alguém de quem não tanto assim.

Para além disso, 2. A Festa de Todos os Santos recorda-nos que aquilo que de mais original o Cristianismo tem é a sua profunda, e insuperável, devoção à pessoa concreta, aos Rostos que perfazem a Igreja que está em Deus e aquela que ainda hoje, no aqui e agora da história, prossegue na sua peregrinação terreste, neste nosso mundo feito de complexidades e (des-)encontros, de sonhos e realizações. Hans-Urs von Balthazar, um dos grandes teólogos do século XX, fazia questão de se referir aos Santos como autênticas "frestas", pois, sempre e quando temos a graça de o/a/s encontrar, eles e elas nos permitem ver, ou tocar, a Realidade invisível de Deus no meio, ou a partir, das muitas contingências que perfazem a realidade do mundo em que habitamos. Canonizados ou não, os Santos são manifestações de Cristo, lentes espirituais que nos fazem ver melhor o que tantas vezes precisamos para avançar no conhecimento de quem seja Deus e de quem somos nós.

Os Santos que hoje a Igreja celebra na complexa riqueza e diversidade de tantos e tantos Rostos que nos habitam pelo mistério da Fé, merecem a nossa celebração festiva, pois esta, que eles não precisam, nos faz um bem imenso, permitindo-nos ver em tamanho grande, sempre diverso e sempre maior, a dimensão absolutamente infinita da Realidade que Deus é. E com isto, uma pergunta final nos podemos fazer também, cada um/a por si: que faço eu para que, chegando a minha hora, que será sempre num tempo determinado, embora só por Deus conhecido, um «hic et nunc» único e irrepetível, Cristo possa ser reconhecido em mim e no mundo de que faço parte?

A Festa, portanto, destina-se a ser de todos. Mas para o ser, isto é de todos, ela primeiro tem de ser de cada um/a. Com a ajuda de Deus, o Único que é verdadeiramente Santo, e Santificador, reconheçamos, então, que está na Hora de dar seguimento ao Programa da nossa vida, ou seja, ao projeto da nossa santificação. Chegada a nossa Hora, de facto, nada haverá de mais importante do que poder mostrar que o que somos é de Cristo e que em nós Cristo é de Deus. 

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Opinião de Pe. João Vila-Chã

 

*Este texto foi publicado originalmente no perfil de Facebook do seu autor. O título é da responsabilidade da Redação