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Ter, Nov

O Sínodo da Amazónia e a ordenação de homens casados: Os “Viri probati” e os novos caminhos para a Evangelização

Opinião
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Nos meios de comunicação social, nos momentos de reflexão e discussão durante o Sínodo para a região Amazónica, se ouvia que uma das soluções para a resolver o problema da evangelização e o acompanhamento das comunidades cristãs amazónicas, seria a ordenação presbiteral dos “viri probati", leigos casados, reconhecidos na comunidade pela integridade de vida e testemunho cristão. 

Opinião de Hernany Dias, seminarista maior

Efectivamente, o documento final do Sínodo da Amazónia traz no seu número 111 uma proposta a esse respeito, que será analisada posteriormente pelo Papa Francisco: “Considerando que a legítima diversidade não prejudica a comunhão e a diversidade da Igreja [...] propomos [...] ordenar sacerdotes homens idóneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, podendo ter família legitimamente constituída e estável”. 

Não são os “viri probati”, ou seja pessoas reconhecidas pela comunidade, sem nenhuma formação específica, mas aqueles que já são diáconos permanentes. Pessoas casadas e com uma família constituída estavelmente, que já fizeram um percurso bem definido ao interno da Igreja e estariam, deste modo, habilitados para aceder ao sacerdócio.

É de realçar de antemão que a possível ordenação de homens casados não coloca em causa a beleza e a sublimidade do celibato presbiteral porque entraria na linha de uma opção livre e facultativa que consequentemente, diminuiria a estima pela virgindade para o Reino dos Céus (por exemplo a Ordem das Virgens). 

Se de um lado, a ordenação de leigos nas comunidades mais longínquas é necessária porque são regiões de difícil acesso;  por outro, esta perspectiva acentua um enorme clericalismo,  porque implicitamente se pode compreender que onde não há um ministro, não há vida eclesial. O problema de fundo é significativo. Poderia se passar a ideia, sem quer, que uma comunidade que não tem um padre, não funciona. Uma ideia que seria errada, já que a nossa fé, enquanto cristãos, está radicada no Baptismo (como afirma categoricamente o Concílio Vaticano II), não na ordenação sacerdotal. Não seria necessário, antes de mais, criar novos mecanismos e apostar na ministerialidade laical? Não seria aconselhável primeiramente apostar numa Igreja de baptizados protagonistas em vez de clericalizá-la? 

Uma visão “funcional” do ministério, que não revitaliza toda a comunidade cristã como protagonista da evangelização, mesmo tendo leigos ordenados, não resolve o problema. O compromisso cristão permanecerá o mesmo. Um exemplo claro é a Igreja em Correia, que nasceu da evangelização dos leigos, como o Yi Seung-hun e da Igreja do Japão, que depois da expulsão e do martírio dos sacerdotes missionários (200 anos), contou apenas com o engajamento fervoroso – Kakure Kirishitan - dos leigos. 

Devemos tomar cuidado para que a proposta dos “viri probati” como solução para a evangelização não seja uma proposta ilusória, quase mágica, que não toca a fundo o problema. É preciso procurar “novos caminhos para a evangelização” que vão para além da ordenação dos “viri probati”. Este não é sinónimo de “novas vias”, no máximo parte delas. Como disse o Papa, no seu discurso conclusivo do Sínodo, é preciso focalizar os diagnósticos, ou melhor ter um olhar abrangente e não particularista do Sínodo. 

Apresento aqui alguns aspectos de crescimento, que assinalam novos caminhos de evangelização, plasmados no documento final do Sínodo da Amazónia. 

O primeiro e mais importante é a evangelização integral. Quando o primeiro capítulo fala da conversão integral, devemos ter presente a evangelização integral, onde está concentrado de modo harmonioso e equilibrado todos os aspectos pastorais contextualizados da missão: o anúncio de Cristo, a catequese, os diversos serviços comunitários, a comunhão fraterna e a celebração comunitária da fé. Sem uma verdadeira evangelização integral, nem teremos vocações, nem existirão novos cristãos. 

O segundo aspecto é um rico catecumenato, como meio de incarnação da fé no património cultural amazónico. Senão corremos o risco de sacramentalizar e não evangelizar. Melhor dizendo, corremos o risco de termos tantos baptismos que não se traduzem numa vida cristã autêntica e frutuosa. Assim, a fé transforma-se numa parte superficial do cristão, que não converte, não enraíza, não transforma a existência. É um percurso lento, mas certamente fecundo. 

O terceiro aspecto é a criatividade ministerial. Há a necessidade de uma  igreja criativa na promoção e no protagonismo ministerial radicados no compromisso baptismal, para homens, mulheres e jovens em diversas circunstâncias e áreas pastorais. Somente quando existe um certo dinamismo pastoral e eclesial é possível implementar práticas ministeriais ulteriores, como a ordenação sacerdortal dos “viri probati”. Este não é a solução do problema da evangelização, mas um passo sucessivo a um compromisso baptismal e eclesial florescente. 

O quarto aspecto é a participação laical activa nas políticas regionais e nacionais para se proteger de modo eficaz o povo indígena e o meio que o circunda. 

O quinto aspecto é a formação de pequenas comunidades cristãs de acompanhamento e  de crescimento na fé, à volta da Palavra, para dar um novo vigor missionário às comunidades periféricas da região. 

Um último aspecto mas não menos importante, que vem descrito mais detalhadamente no documento Christus Vivit, é a pastoral juvenil. Ter propostas adaptadas aos diversos contextos que estimulam o crescimento na fé dos jovens, é um passo decisivo para se ter vocações locais. Só se poderá ter uma frutuosa pastoral vocacional somente quando existe uma forte pastoral juvenil. 

O documento final do Sínodo da Amazónia, ofereceu uma vasta gama de temáticas e questões que tocam toda a vida eclesial, ao mesmo tempo, as problemáticas ecológicas conexas, a partir do olhar do povo que habita esta região. 

Os meios de comunicação fizeram um bom serviço de desenvolvimento e aprofundamento dos conteúdos tratados no Sínodo, mas infelizmente, existe uma acentuação muito forte em temas intra-eclesiais sensíveis. Seria auspiciável abordar também o aspecto ecológico que está profundamente ligado com a realidade cultural, espiritual e religiosa do povo da região amazónica.