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Qui, Out

Eles leem sim, desde que lhes interesse

Opinião
Tipografia

Esses jovens não gostam de ler! É sempre a frase que mais se ouve quando o assunto é a leitura. Mas será mesmo assim? Será que não andamos, afinal, quase todos enganados? 

Opinião de Natacha Magalhães*

 

Há uma frase que diz que “todo mundo é um leitor… Alguns apenas ainda não encontraram o seu livro preferido…”. Uma outra refere que “todos gostam de ler, mas precisam descobrir quais livros”. Tendo a concordar cada vez mais com isso.

Alexandre chega a casa e senta-se no sofá. Como sempre, tem o telemóvel por entre os dedos. Prepara-se para mais uma sessão de intermináveis conversas virtuais, quando lhe falo do livro que se encontra pousado em cima da mesinha da sala. “O Sol na cabeça” tinha me sido oferecido pelo próprio autor, o jovem escritor Geovanni Martins, num evento literário, e assim que o terminei de o ler, pensei que seria um livro que todos os jovens, e não só, gostariam de ler. A obra vem recebendo críticas positivas e já foi traduzida para nove línguas e tem já os direitos adquiridos para a sua adaptação à uma serie de televisão. 

Lê esse livro, vais gostar. Alexandre olha para o livro e depois para mim com cara de quem lhe havia dito algo inaceitável de ser dito. Insisto. São contos, lê-se bem e rápido. Prossigo. São historias interessantes, com jovens como tu e vais particularmente gostar da linguagem e do enredo. Vá la, lê só primeiro conto. Depois, se não gostares, deixa lá o livro. Continuo a minha leitura e vejo o Alexandre a pegar no livro. Finjo que não presto atenção. Se há coisa que os jovens não gostam é de serem pressionados.  Vou acompanhando pelo canto do olho. Alexandre abre o livro e começa. Uma página, vira para a segunda, mais uma. Eu que já prognosticava uma desistência, concentro-me na minha leitura. Minuto depois, informa-me que terminou. Duvido, mas ele insiste que leu o conto todo e que gostou muito. Confesso ter sentido uma pontinha de alegria. Instiguei-o a continuar. Vai lendo aos poucos. O livro permaneceu o tempo todo em cima da mesinha da sala. Ontem, a hora do lanche, Alexandre pegou nele novamente e levou-o, juntamente com a bandeja, para a mesa da refeição. Disse-me que já estava adiantado na leitura. A minha satisfação é imensa. Estás a gostar? Sim, muito. Sinto que tenho que comprar mais livros do género para que o Alexandre volte a sentir o mesmo prazer da leitura que tinha na infância.

Mais uma vez estou certa. Os jovens precisam de histórias cativantes. Há cerca de um ano, numa conversa com alunos de uma escola secundaria e pensando no meu próximo projeto literário, dessa vez com enfoque no publico juvenil, perguntei-lhes que historias gostariam de ler. As respostas foram bem elucidativas. Uma aluna quer uma história em que a personagem vence dificuldades e realiza o seu sonho. Um outro, uma historia que misture música, artistas e muita confusão, com um desfecho surpreendente. Há quem prefira um diário sobre as peripécias da turma.  

Trata-se de um exercício a que todos quantos querem levar a cabo essa tarefa de incentivar crianças e adolescentes devem se obrigar a fazer. De nada adianta força-los a leituras que não lhes interessam. Eles têm que sentir identificados. Com os personagens. Com a narrativa. Com a linguagem. Depois há que haver outros “ingredientes” sedutores. Dou quase sempre o exemplo das aventuras de Zeca e Ruca, dois adolescentes que inventam estratagemas para salvarem o porco “carnaval da vitória. A obra “Quem me dera ser Onda”, do escritor Manuel Rui mescla aventura, desafios, humor, e é escrito numa linguagem simples que integra também expressões do calão e da gíria popular angolana.          

Claro que haverá sempre resistências para começar. Uma boa história é importante. Mas há outras formas. E uma delas é aliar as novas tecnologias ao incentivo a leitura, através de atividades lúdicas. Os quizz sobre obras, escritores e géneros literários, pequenos videos (feitos com telemóveis ou tablets) em que os alunos dramatizam contos escolhidos por eles, blogs de turma, entre outras atividades são exemplos do que se pode fazer para aproximar os jovens do livro, da leitura e do conhecimento

 O que se deve evitar é impor preferências literárias aos adolescentes, baseados em gostos pessoais ou outra razão qualquer. Por outro lado, há que se romper com práticas tradicionais de ensino da literatura e de incentivo à leitura que mais não contribui do que criar aversão ao livro. Por ora, apenas bastará que eles tenham o prazer de folhear um livro e ler com prazer uma história. Porque ler é isso, prazer e fruição. O resto será sempre fruto do crescimento do amadurecimento.

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*Natacha Magalhães escreve todas as últimas sextas feiras de cada mês