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Dom, Set

Uma Valiosa Herança*

Opinião
Tipografia

Quando desembarquei em S. Vicente para frequentar o liceu, a primeira advertência recebida foi no sentido de passar a falar português a tempo inteiro. Que o meu crioulo fundo de Djar Fogo tinha ficado nas areias de Fonte da Vila. Essa advertência partiu da boca do meu encarregado de educação, o saudoso amigo Ernesto Ramos Évora, em cuja casa me instalei como se de um filho se tratasse.

Opinião de Henrique Teixeira de Sousa 

No liceu a rapaziada troçava dos falares de Sotavento, deveras muito diferentes dos falares de Barlavento. De quando em quando abeirava-se de mim um colega e mimoseava-me com um “ampô go!” gritado ao ouvido. Se eu fosse de Santiago ouviria pela certa a frase “nho bem co sancho?” ou outra chalaça do género. Nas aulas, obviamente, não era permitido falar crioulo. Até mesmo no recreio, os contínuos policiavam a nossa linguagem.

Dessa forma me vi obrigado a trocar a minha fala original pelo português da Metrópole, mesmo que ainda mal e custosamente utilizado. Diariamente, e de manhã até á noite, eu era corrigido, quer pelos professores, quer pelo casal que me recebeu em casa, quer ainda pelos colegas de São Vicente, mais familiarizados com o idioma de Camões.

Tudo isso me marcou um pouco e perturbou de certa maneira o meu relacionamento familiar e não só, no Fogo, quando regressava de férias. Não mais falei crioulo, nem mesmo a brincar, convencido de que tal representaria um retrocesso na minha senda cultural. Como consequência de semelhante imposição, vejo-me hoje esquerdo a falar a falar crioulo, conhecendo embora, perfeitamente, os falares de todas as ilhas.

Numa ocasião, nos Estados Unidos da América, mais precisamente na cidade de Bridgport, Cannecticut, tive de fazer um discurso no clube cabo-verdiano, mas tinha de ser em crioulo, pois os patrícios presentes não entendiam a fala de Portugal. Suei ás estopinhas, como se estivesse a exprimir-me em língua estrangeira.  Lá me desenvencilhei como pude, porém, bastante humilhado com tão fraco desempenho.

Por isso, eu hoje admiro todo aquele que se mostra fluente a falar tanto o crioulo como o português. Se isso é bilinguismo, então cultivemo-lo para o enriquecimento da nossa cultura. 

O crioulo não custa a aprender,  sugamo-lo no seio materno. O português já exige um aprendizado interno e demorado, devendo portanto ser devidamente ensinado desde a escola primária porque assim é necessário. É um instrumento de comunicação imprescindível, ao lado do crioulo. No domínio do conhecimento em qualquer matéria, será sempre o português o veículo de entendimento. Na literatura é o português que nos projecta além fronteiras. Aliás, todos os países que foram colónias de potências europeias, adoptam a língua dos colonizadores nas respectivas literaturas, com raríssimas excepções. A história processou-se assim porque houve razões para tal. Essas razões, não me cabe agora discuti-las no âmbito deste artiguelho. Constituem matéria para uma mesa redonda bastante animadas . 

Em Cabo Verde há ainda uma razão forte para preservar o português. É que o crioulo é uma língua neo-lusa, assim como o português é uma língua neo-latina. Só que o latim se tornou uma língua morta e o português se mantém vivo entre perto de duzentos milhões de falantes. Mesmo língua morta, o latim devia ser ensinado nos liceus de Portugal, e porque nonos PALOP? É a base da lusofonia. A nossa integração histórica no vasto espaço lusófono é facto irreversível sob o ponto de vista cultural. No plano económico poderá haver outras opções. 

As variantes e subvarientes do crioulo, dificultando a adopção de um idioma padrão, tanto na fala como na escrita, constituem mais uma razão para que o portugês assuma o papel de veículo comum, tanto na plano interno como no plano externo. Poderão dizer-me o francês ou o inglês desempenhariam idênticas funções. Só que esta solução se afastaria da nossa caminhada civilizacional, mexendo abissalmente com a nossa identidade cultural. A aquisição doutras línguas é, porém, desejável mas jamais para substituir a língua portuguesa. Esta será sempre uma das duas línguas nacionais. Repito, o bilinguismo luso-caboverdiano é uma riqueza, daí que indestrutível. 

Acontece, todavia, que o português se vem degradando nas nossas ilhas, a partir da independência nacional. Onde tal se torna notório é na prosa nos jornais que me vêm parar às mãos. Há um afastamento progressivo da correção gramatical doutrora. A culpa é do ensino, tanto no primário como no secundário. A disciplina de português devia ser ministrada com mais rigor. No Brasil, por exemplo, o ensino de português não dispensa a leitura dos clássicos da literatura lusa. Preservemos portanto esta herança como fazem noutros países em relação à língua dos antigos dominadores. Amilcar Cabral já advertia neste sentido, pressentindo a bondade de semelhante procedimento. 

O português é uma das línguas nacionais, repito. Desprezá-lo ou maltratá-lo provocará naturalmente uma descaracterização  da nossa identidade cultural. Aquilo que no plano pessoal me aconteceu em relação ao crioulo, não quero que suceda em Cabo Verde em relação ao português. Falemo-lo escrevamo-lo correctamente, que isso não reduz a nossa caboverdianidade. 

 

Este artigo foi originalmente publicado no Jornal Terra Nova edição nº 246 de Fevereiro de 2017