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Henrique Teixeira de Sousa: 10 anos que marcaram a vida deste jornal*

Opinião
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Se estivesse vivo, Henrique Teixeira de Sousa completaria, hoje, 6 de setembro 100 anos de vida. O médico foguense nasceu no dia 6 de setembro de 1919 na frequesia de São Lourenço onde hoje, repousam os seus restos mortais. Frei António Fidalgo recorda a sua colaboração no nosso jornal durante 10 anos.

Pode não parecer verdade, mas é. por forças das circunstancias, nunca  encontrei Teixeira de Sousa em minha vida. E pensar que até parentes nós éramos.

Na altura, este jornal não amaldiçoou a condutor, mas chamou de  maldita “a viatura que, a 3 de Março de 2006 ceifou a vida nosso amado colaborador”. 

A edição de Março 2006 falou largamente de Teixeira de Sousa. Para além da escritora Ondina Ferreira com o artigo “Henrique Teixeira de Sousa nas paginas do Terra Nova” e de Adriano Lima com “Selô, Selô, Senhor Doutor Teixeira de Sousa”, o Editorial desse mês foi completamente dedicado ao renomado médico e escritor cabo-verdiano.

Gostaria de chamar a atenção do leitor para o artigo de Ondina Ferreira que inclui uma resenha biográfica do falecido médico e percorre as páginas do jornal Terra Nova procurando alistar e comentar os temas tratados e dizendo no fim: foram muitos e muitos os artigos e mais rico e diversificado ainda o seu conteúdo. Constituem, sem margem de dúvida um luxuoso legado de um privilegiado e especializado memorialista e cronista”.

Foram de facto muitas e marcantes as crônicas do Dr. Teixeira de Sousa no TN -  cerca de uma centena, sendo a primeira intitulada “Os dentes da Ilha Brava (ed. de Dez. de 1996) onde ele se interrogava acerca das causas dos dentes acastanhados das pessoas da ilha Brava. Quem é que tinha razão? João Augusto Martins, médico e escritor que atribuía isso ao regime alimentar das gentes da ilha, ou intuição do povo para quem os agentes responsáveis pelo fenómeno era a agua das nascentes de “Vinagre”.  Teixeira de Sousa sentencia no artigo que o povo é que está certo e prova no artigo porquê.

A penúltima crônica tem como título “O cirurgião que não fui” (Fev. 2006). Aqui fala-nos da sua bem gerida frustração por não ter conseguido realizar o seu grande sonho de ser medico cirurgião, terminando com um sábio recado ás novas gerações: “na minha longa vida descobri que não existe caminho único para autorrealização. Há aptidões que podemos tornar produtivas.

“Latim, língua morta?” é a derradeira crônica que remeteu para o espaço bem conquistado na pagina 3. Quando o artigo saiu, Teixeira já não era deste mundo.

Por sua vez, Adriano Lima, no já referido  artigo “Selô, Selô, Senhor Doutor Teixeira de Sousa”, onde deixa transparecer emoção, amizade e admiração pelo célebre escritor e médico, define o mesmo  como “o capitão das nossas memórias”.

Teixeira de Sousa não usava o computador nem tinha correio electrónico. Os artigos tinham que ser digitalizados em Cabo Verde, o que quer dizer que estavam mais sujeitos a falhas. Isso ele não perdoava e com razão. Escrevia imediatamente para assinalar as gralhas e pedir mais atenção na revisão das provas. “Paciência!”, disse uma vez numa das últimas cartas que nos escreveu. Escreveu isso, não para dizer que estava resignado, mas protestar, pois, não obstante as chamadas de atenção as gralhas continuavam.  Mas isso nunca o levou a pôr stop à colaboração. 

TN deve-lhe muito. Quando morreu, escrevemos: “Teixeira de Sousa morreu sem que nós pudéssemos pagar a dívida que junto dele contraímos ao longo de 10 anos, ou sem que, ao menos, pudéssemos dizer-lhe um último obrigado. Que seja Deus, então, a dar-lhe a verdadeira recompensa por tudo quanto fez por nós (cfr. TN de Março de 2006).

Que honra para nós ter beneficiado da sua colaboração ao longo de 10 anos!

 

* O autor publicou este texto em janeiro de 2016 por ocasião dos 40 anos do Jornal Terra Nova