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Dom, Set

Ética e finança: A importância da ética cristã no sistema financeiro

Opinião
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Uma característica da época da globalização, cada vez mais articulada e complexa, é certamente o novo papel e peso que é dado às finanças, nos seus mais diversos níveis. Alguns anos atrás era reservado, nos telejornais e na informação em geral, um espaço secundário e marginal às notícias financeiras, que interessava somente a um certo grupo de pessoas. 

Opinião de Hernany Dias

Hoje é frequente o caso em que, a abertura dos noticiários com informações financeiras, em particular, do andamento do mercado borsístico em todo o mundo. Termos técnicos e indicativos de desenvolvimento, até ontem desconhecidos, passaram a fazer parte da linguagem comum e não é raro assistir a um grupo de pessoas comentando o andamento das cotações da bolsa.

Não se trata de um interesse cultural, mas de uma nova concepção de investimento das próprias economias, induzida pelos novos cenários da finança globalizada e da introdução  de novas tecnologias. 

Assim sendo, é indispensável para os cristãos uma atenta compreensão e aprofundamento da realidade para fazerem uma leitura à luz da fé do problema da maturidade das atitudes e escolhas de vida coerentes, seja a nível do comportamento comum que a nível da responsabilidade ao interno das instituições públicas. 

Após demonstrar a importância de uma compreensão correcta e profunda do mundo financeiro na perspectiva de fazer amadurecer comportamentos coerentes com a fé e com a visão cristã da vida, adentremos na definição de bem comum correlacionada com a actividade financeira. 

A questão moral, no campo económico, tem uma estrita ligação com o conceito de bem comum, conceito que está inserido estruturalmente na definição tomista de lei, que é ordinatio rationis ad bonum communis (projecto racional e normativo para alcançar o bem comum). 

É importante afirmar que tal conceito tem primariamente uma dimensão qualitativa anexada às tipologias de relações interpessoais e sociais instauradas, e não somente quantitativa, isto é, anexada somente aos bens estruturais e materiais que devem estar a disposição, segundo a indicação conciliar: «Quanto ao bem comum, ele compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição» (Gaudium et spes,74).

O teorema do bem comum indica di per se a relação que se tem com os bens terrestres, em quanto usufruíveis, o homem moralmente justo mira a custódia da sua abertura ao outro e transforma esta relação num verdadeiro espaço de fraternidade: introduz-se assim o tema da propriedade privada com os critérios que moralmente a justificam (cf. Gaudium et spes, 69). 

A questão económica e financeira  actual está inserida na complexa questão histórica e civil, sem presumir uma transição imediata de exigências morais abstractas (formalmente universais elaborados em outros séculos, enunciadas sem referência histórica) ao juízo operativo concreto. Trata-se de compreender e avaliar aspectos complexos da economia e da finança: a relação entre evolução económica e evolução da mentalidade, de costumes, da qualidade de informação e de processos de formação da opinião pública em geral, da própria consciência moral individual, os possíveis aspectos da transformação tecnológica, o consumismo, a dependência dos modelos de consumo induzidos pelos persuasores colectivos, a diminuição da propensão para economizar e a tendência ao endividamento. As causas destes fenómenos sociais estão conectadas ao complexo sistema económico. 

Acanto a tradição ético-cristã, para compreender adequadamente os factos económicos e financeiros deve-se evitar a redução da ética a regras sociais, nem ingenuamente moralista nem redutoramente tecnicista. Por exemplo, não basta ter critérios de transparência e o direito à uma informação adequada. Deve-se colocar a questão da equidade ou não de uma taxa nos depósitos e financiamentos, e não colocar somente a questão dos critérios formais de transparência, segundo os quais as taxas são fixadas. Assim será possível superar a interpretação de mercado separado da sociedade e da cultura. 

As instituições financeiras são interpeladas a informarem as próprias estratégias e a própria visão política (com referência a todo o corpo social). A oportunidade de aproveitamento, em base  a conveniência financeira, não é o único parâmetro económico. As práticas financeiras são justificáveis se beneficiam também a sociedade. Outrossim, o mundo financeiro deve assumir formas que traduzem o bem comum  da sociedade presente.

A complexidade e tecnicidade das operações financeiras torna bastante abstracta tal estrutura económica isto é, a consciência moral não é normalmente e imediatamente capaz de advertir o relevo das relações inter-humanas e da configuração da complexiva convivência social. Por isso, é essencial e necessária a reflexão ética e ético-cristã.