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Qui, Out

Pós-democracia: A privatização da política e as elites privilegiadas

Opinião
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É improtelável recuperar a cultura política de governar para o bem comum do povo, que deve ser parte integrante e destinatário das escolhas democráticas

Opinião de Hernany Dias

A crise, o declínio e a transformação da democracia, no decurso do século XX, fez aflorar uma verdadeira reflexão política e politológica. No último quarto do século, por causa da grande queda das democracias consolidadas - os Estados Unidos, a Europa Ocidental e o Japão (fraca participação popular nas eleições e a consequente falta de interesse na politíca), as vozes que, com tons alarmantes, iniciaram a apontar uma nova crise nas instituições democráticas tornaram-se frequentes.

Apartir de perspectivas diferentes começou-se a ver nas transformações contemporâneas os sinais de um esvaziamento das instituições democráticas. Em termos fortemente polémicos, Colin Crouch falou da tendência dos sistemas políticos tranformarem-se numa atuação pós-democrática.

Crouch define “pós-democracia” como uma colectividade na qual, mesmo tendo eleições, os cidadãos têm um papel secundário e a política é feita por elites (privatização da política) que representam os interesses económicos. Seria, em modo simples, a “democracia da bolsa de valores”.

Quando fala-se de “pós-democracia” refere-se a um afastamento do modelo mais elevado da democracia, diferente da falta da democricia, esta coincide com a ideia de desilusão, interesses de uma minoria potente, mais activa do que a massa comum, e com as élites políticas que manipulam as necessidades das pessoas e os eleitores que devem estar convictos a votarem através de campanhas publicitárias.

Estas mudanças associadas a este fenómeno, causa uma certa instabilidade de uma política flexível, perde-se paulatinamente o sentido do governo do povo, é delapidado o conceito de cidadania e o mundo político com menos autoridade e respeito, utiliza as técnicas de manipulação para controlar a opinião pública e se aproxima a indústria do espetáculo e do comércio de bens.

De um lado, as técnicas de manipulação da opinião pública e os mecanismos de exposição da política a um exame público tornam-se mais sufisticados e por outro, os programas dos partidos tornam-se cada vez mais vagos (não é democrático porque não se baseia na relação governo e cidadãos, mas pós-democrático porque os cidadãos são manipulados).

A base da democracia representativa vem deteriorando e transforma-se aos poucos em lógicas exclusivas de poder, provocando um esvaziamneto da substância democrática.

A lógica económica prevalece sobre a lógica democrática porque não encontra formas de convergir as perpectivas gerais com os interresses particulares, e permite que sujeitos e interresses particulares integrem e encontrem compensação na política como representantes colectivos.

A pós-democracia é caracterizada pelo afastamento da esfera social, a qual não sentindo-se considerada pela política não se interessa pela mesma. Deste modo, desponta uma incapacidade de relacionamento e de reconhecimento mútuo das funções.

Este fenómeno é um indicador da falta de ideais ou seja, de conteúdos políticos que espelham os anseios reais e interesses da sociedade e se traduzem em substância política.

Assim, a política incapaz de dar respostas concretas, procura técnicas e meios alternativos, e muda o foco nas questões ulteriores, deixando o povo longe dos contextos democráticos.

Croch descreve essa fase democrática não como um percurso circular, mas como uma parábola no qual se toca duas vezes no mesmo ponto, um na fase ascendente e outro na fase descendente depois de ter alcançado o ápice da história democrática, ou seja da afirmação da democracia.

Enquanto as formas de democracia continuam plenamente em vigor – e hoje, substancialmente, reforçadas – a política e os governos cedem progressivamente terreno as élites previligiadas, como acontecia antes da fase democrática. Uma consequência importante deste processo é perda da atração, cada vez mais acentuada, com argumentos de egualitarismo.

A época actual não pode ser defenida por tais razões um período não democrático, porque a pós-democracia é um instrumento para fazer andar o processo democrático em acto. O “pós” assinala, efectivamente, uma fase ligada a uma contínua mudança, e que precisa ser redefinida porque as mudanças associadas lavam-nos para além da democracia, para uma forma de sensiblidade política diferente. Dessarte, estamos diante de uma ideia de um governo tout court.

Os efeitos são evidentes, em quanto esta não é mais uma simples ideia mas de facto um estado, resultado de práticas não concordantes mas aceites passivamente desde baixo até chegar ao topo, esfera mais restrita da sociedade.

O pouco interesse pela democracia traduz-se, na prática, no pouco interesse pela política. Progressivamente, esta visão parece ser a uma única forma de orientação no inteiro contexto democrático.

Podemos interpretar o “pós” como sinónimo de deficit, em quanto denuncia uma falta de direcção de uma política que deveria ser capaz integrar os diversos e contrastantes interesses, e interressar-se das aspectativas sociais que indicam a real necessidade dos cidadãos.

Em suma, a política hodierna pode ser defenida como uma “meia política”, que de um lado cria novas formas de participação e de outro não consegue definir bases sólidas para o futuro. É improtelável recuperar a cultura política de governar para o bem comum do povo, que deve ser parte integrante e destinatário das escolhas democráticas. Para isso é preciso separar a esfera política da classe social e dos interesses. Sem a qual não teremos uma verdadeira democracia representativa!

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Hernany Dias, seminarista maior da Diocese de Mindelo, escreve todas as quartas feiras.