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Qui, Out

Nha Punotcha partiu para outro mundo

Opinião
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A tendência é cada vez mais forte para se esconder as mãos. Nha Punotcha atirou com pedras e escondeu as mãos. Foi o padre quem viu. Porque mesmo que o mundo moderno não queira, o padre olha e o padre vê.

Opinião de Laurindo Vieira

Porque o padre é essa figura que, afortunadamente, sabe encontrar tempo para o silêncio, o tabernáculo de toda a sabedoria humana e a sinagoga perfeita para o encontro com Deus. O padre vai ser, durante muito tempo, um grande sinal de esperança e um verdadeiro símbolo da luz no seio de sociedades cada vez mais heterogéneas.

Nha Punotcha, não me condene; não me apedreje, pois tenho que escrever. Eu vi os herdeiros de Nha Punotcha, gente da mesma conduta. Para essa gente nada mais importa além de esconder a mãos. Porque Nha Punotcha fez o papel de pinton. Foi pinton que chaputiu nha bedja. Esta não se zangou e foi o próprio pinton que se sentiu ofendido.

Eis! Herdeiros que se contentam com mãos escondidas. Meus amigos decisores que continuam com a saga do disse e não disse, fingindo que não são eles que sugam este país. Sabem muito bem o que prometem, sabem muito bem como tornar melhor a vida dos caboverdianos, mas continuam de mãos escondidas, porque é o que basta para dormirem tranquilos.

Todos temos visto o que se vota por unanimidade. Raramente vimos partidos a favor de coisas que beneficiam o país. É estranho que gente que praticamente estudou nas mesmas universidades, nas mesmas salas, teve os mesmos contextos sociais, muitos são até parentes, tem uma média de idade aproximada, seja quase 100% divergente.

Ironicamente muda de circunstância e muda de opinião, acabando por defender a mesma coisa que passou uma temporada a refutar. Custariam menos, queimar calorias com as visitas porta a porta que se fazem no tempo de campanhas eleitorais, do que sentar-se no Parlamento a queimar neurónios. Ao menos preenchem a cabeça com coisas concretas e passam a saber do real país que estão a governar.

Mas este é um tempo em que conta mais esconder as mãos. É um tabu falar de consciência e a ética é repugnante, porque é esta a conduta de Nha Punotcha. Ali mesmo onde estás podes notar isso sem muito esforço.

No mercado se te fizerem comprar um produto pelo quádruplo do preço real ficam satisfeitos da vida; se te prometerem um patrocínio ilusório; se extorquirem todo o dinheiro numa das igrejas que há por aí, sentem-se eles próprios salvos etc etc.

Esta mesma energia, conduta de Nha Punotcha, se reflecte de forma inimaginável nas mais diversas atividades humanas. Pois, o centro vital do ser humano está se deslocando muito freneticamente. Pior do que o degelo dos polos da terra a grande batalha do To be or not To be (ser ou não ser) ainda está no palco. A crescente ofensa ao “eu”, é causada sim pelos grandes comandos das nações que têm vindo a obrigar o ser humano a um desgaste cambaleante e à indefinição.

É cada vez mais confuso o propósito pelo qual o ser humano foi retirado de um outro não ser para o trazer à realidade. Não posso deixar de pensar que assim seja. Porque fazer deslocar o centro espiritual para o centro da matéria, desajusta todo o resto.

Quem sou eu? Quem não sou? O que sou? O que não sou? Estas são perguntas básicas que os líderes das nações não têm permitido sequer pensar que existem. Se atirou com pedras, a Nha Punotcha, por que escondeu as mãos? Foi ou não foi ela quem atirou? Então, por que escolher o mundo do não ser quando estava no mundo do ser? A tão violentada Ética é o encontro mais fiel do Homem com o seu verdadeiro “eu”. É daqui que se dá o primeiro passo.