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A arte de consolar. Reflexão de José Tolentino Mendonça

Opinião
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O regime tecnológico hoje em vigor nos confunde ainda mais porque nos transmite a ilusão de que não há lugar para o erro. A memória do último dos computadores nos deixa constrangidos, comparada com a sequência dos nossos esquecimentos, lapsos e equívocos.

O comentário é do arcebispo português José Tolentino Mendonça, arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Apostólica Vaticana, foi professor e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, publicado por Avvenire. A tradução é da nossa redação.

Eis o comentário.

Lá onde reconhecemos perdas e reduções de eficácia, constatamos na técnica atual exatamente o oposto: uma capacidade inumana de acumulação de dados, registros e traços que, muitos anos depois, permanecem intactos em uma praia que o oceano não apaga. Os computadores não precisam ser consolados, nós sim, e falar sobre isso é bom.

O que é específico da consolação é que nos aproxima uns dos outros - e de nós mesmos: isso é suficiente, sem a pretensão de nada, simplesmente dando abrigo, com a nossa presença, à passagem das horas, ajudando assim a carregar o peso que ciclicamente faz com que a vida desmorone. Acompanhe a solidão dos outros e a nossa: cumsolatiotambém significa isso. 

De fato, nós gradualmente nos damos conta, ao longo do caminho, que o programa existencial que devemos abraçar não é tanto ir contra as contingências que inevitavelmente nos assolam, mas viver junto com elas, aceitando a tarefa de construir uma humilde sabedoria integradora. Essa coisa que chamamos de vida exige de nós a força para não sucumbir, ao entardecer, só porque não vemos como poderia, na escuridão mais densa, irromper a aurora.