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Sab, Set

Marketing existencial: A luta entre as aparências e a realidade nos social media

Opinião
Tipografia

Por vezes, pode acontecer de sentir-se sufocado pelos papéis e de não ter coragem de contradizê-los, ao ponto de identificar-se com estes, alienando-se do que se é verdadeiramente. 

Opinião de Hernany Dias

Ser e aparecer misturam-se continuamente na vida do homem. Ser é a característica existencial de cada indivíduo, a sua autenticidade, como se é verdadeiramente. O aparecer é a superficialidade, a formalidade vazia, é querer ser ou tornar o que não se é. Em vários lugares ouve-se dizer que é importante ser si mesmo, espontâneo, autêntico, livre. Na realidade cada um de nós, em alguns momentos da vida, fez algumas escolhas que pareciam responder às nossas inclinações naturais, mas eram, efectivamente, fruto de condicionamentos e construções, para não desiludir as expectativas dos outros ou para agradar as pessoas que nos são próximas. 

O homem de hoje é frágil e aparentemente livre de si mesmo, mas na realidade é influenciado pelos estereótipos. Ser si mesmo não é fácil quando existem uma série de circunstâncias externas que levam o homem a mudar o próprio “eu” e aparecer adaptado à sociedade. 

Vivemos em um contexto social onde as aparências têm mais importância do ser das pessoas. Somos uma civilização de imagem, onde os media insinuam modos de viver baseados na superficialidade, onde a tecnologia propõe uma outra realidade. A virtualidade, muitas vezes, toma o lugar da realidade.  Estamos numa sociedade regulada por leis sociais e morais que conduzem e obrigam a seguir esquemas definidos que, muitas vezes, contrastam com a natureza. 

Para definir a expressão social media marketing, correlacionada com a tipologia existencial, é necessário analisar cada termo. A palavra ‘social’ implica uma comunicação entre duas partes; o termo ‘media’ é simplesmente a plataforma ou o método entendido como instrumento através da qual “fazer” do social. ‘Marketing existencial’ consiste na acção de promoção da imagem pessoal ou de um determinado grupo com a finalidade de aparecer.  Marketing   existencial é, então, o processo de promoção da imagem pessoal ou de um determinado grupo usando os social network, como o Facebook, o Twitter, o Youtube, o Instagram ou o LinkedIn. 

Para além da inegável vantagem das plataformas dos social media na comunicação com o próximo, não podemos negar que nesta “ágora” virtual conta mais a quantidade que a qualidade, e conta decisivamente mais o aparecer que o ser. 

Cada volta que se utiliza os social media se comunica e partilha um objecto material ou um conteúdo emotivo. Pode ser um aspecto pessoal ou de enunciado proveniente de um outro ambiente da web (por exemplo, os jornais online) e que deseja difundir no próprio diário. As dinâmicas comunicativas transmudam da imediatez e da instantaneidade à um diálogo bilateral. Em geral os social media, nos consente de partilhar com outros utentes uma série de informações relativas a nossa existência, seja ela online ou offline. 

Os social media permitem a identificação com papéis bem definidos, que se adquire por vontade ou por constrição: o bom estudante, a eficiente empregada, mãe, mulher, máquina de lavar, o marido perfeito, o advogado íntegro, empreendedor, etc. Estes são papéis que, como máscaras, coloca-se e tira-se segundo as exigências e segundo os vários papéis que se deve interpretar em determinadas circunstâncias. Este esconder atrás das máscaras dá a sensação de estar seguro, mesmo se, tantas vezes, a verdadeira identidade é descuidada. 

Por vezes, pode acontecer de sentir-se sufocado pelos papéis e de não ter coragem de contradizê-los, ao ponto de identificar-se com estes, alienando-se do que se é verdadeiramente. 

Tende-se a mostra-se melhor do que se é, enfeitando as situações, contando-as de modo que se ressalte as próprias capacidades. Isso, muitas vezes, é tão involuntário que não se pode falar de ficção, mas existe. Por exemplo, quando esconde-se a dor atrás de um sorriso bonito para não deixar os outros tristes. 

Vivemos em um contexto social onde as aparências têm mais importância do ser das pessoas. Somos uma civilização de imagem, onde os media insinuam modos de viver baseados na superficialidade, onde a tecnologia propõe uma outra realidade

Hernany Dias

O verdadeiro problema, no decurso da existência, é escolher e decidir se quer ser o que não se é, ou se prefere o aparecer do que não se é. É preciso força de carácter para montrar o que se é. Somos aquilo que somos! Ser ou aparecer é uma escolha de vida. O homem encontra-se diante de um bívio: englobar-se na sociedade das aparências ou continuar a procurar a própria essência. 

Einstein afirmava “não procure tornar um homem de sucesso, mas um homem de valor”. O objectivo que se deve pôr é de tentar conhecer a si mesmo. Procurar elevar o próprio nível físico, psíquico, espiritual e moral, a partir da própria natureza específica. O nosso verdadeiro ser não é imutável e estável, pode-se redescobrir o verdadeiro “eu profundo” através de um contínuo e incessante processo de construção. É preciso tentar melhor psicologicamente e espiritualmente com constante trabalho da própria consciência. 

Quanto mais se aproxima da autenticidade, tanto mais ter-se-á uma visão lúcida da realidade. Aproximação ao ser implica uma relação diferente com a verdade e um progressivo abandono dos álibis, dos jogos, nos quais se esconde as próprias fraquezas. Ser como se é, com as paixões, os pontos fortes e fracos. Deixar a busca desenfreada pelo prazer, deixar as máscaras sociais, esquecer-se de agir somente para agradar os outros: eis o que devemos fazer.

Não devemos obliterar que a sociedade em que vivemos e que, muitas vezes, criticamos é esta porque assim a construímos. Escolhendo a via do ser, cada um pode incidir positivamente no meio e de consequência, «podemos passar do diagnóstico à terapia: abrir o caminho ao diálogo, ao encontro, ao sorriso, ao carinho... Esta é a rede que queremos: uma rede feita, não para capturar, mas para libertar, para preservar uma comunhão de pessoas livres» (cf. Mensagem do Papa Francisco para o LIII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2 de Junho de 2019).