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Ter, Jun

Muhammad Yunus e o mito de combater a pobreza por via do endividamento das famílias

Opinião
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Se o Estado não assumir a sua responsabilidade na definição e implementação de políticas para a geração do emprego; na garantia de acesso a um ensino de qualidade, na construção e manutenção de infraestruturas económicas e sociais; no acesso a água e energia de qualidade, etc., não será por via do endividamento (muitas vezes à taxas de juro escandalosamente altos) que a pobreza será vencida.

 

 

Opinião de Vladmir Silves Ferreira

 

A história do microcrédito, a ferramenta financeira baseada em empréstimos de pequena escala às populações mais desfavorecidas, começou em meados de 1970, quando Muhammad Yunus chegou a uma aldeia em Bangladesh, devastada por inundações. O economista decidiu conceder pequenos empréstimos a um grupo de mulheres da comunidade para financiar diferentes iniciativas empreendedoras. Inovando dentro de uma sociedade pobre e tradicionalista, Yunus procurou valorizar a figura da mulher enquanto agente central no rompimento do círculo vicioso nas famílias mais pobres, por via do acesso ao crédito.

Desde então, os microcréditos tornaram-se um ícone global da cooperação para o desenvolvimento, de tal forma que o próprio Yunus recebeu o Prêmio Nobel da Paz (e não da economia, curiosamente), em 2006 por sua luta, canalizada através do poderoso Banco que criou (Grameen Bank), para alcançar uma economia justa para as classes pobres.

Na década de 1980, quando o fenômeno começou a se espalhar pelo mundo, os microcréditos pareciam intocáveis: para a opinião pública representavam o caminho perfeito. Ninguém os criticava. No entanto, uma série de estudos independentes surgiram nos últimos anos, sendo o mais popular realizado pelo pesquisador norte-americano David Roodman, autor do livro DUE DILIGENCE: AN IMPERTINENT INQUIRY INTO MICROFINANCE*. Segundo Roodman, em termos genéricos os dados coletados em dezenas de programas de microfinanças em vários países não apresentam resultados convincentes no que concerne à efectiva melhoria na condição de vida das populações. 

A filosofia desse instrumento de financiamento baseia-se em um simples silogismo: se as classes pobres conseguirem aceder aos circuitos de crédito poderão realizar atividades comerciais ou produtivas que, finalmente, permitirão que eles prosperem.

Porém, a realidade é muito diferente. Apesar da boa impressão que os microcréditos receberam no Ocidente, as comunidades do terceiro mundo que acederam a esta ferramenta de financiamento estão tendo sérios problemas de endividamento, produzindo por vezes dramáticas ondas de suicídio, como ocorreu no estado indiano de Andhra Pradesh, bastião desta tendência, sobretudo por causa da pressão dos credores 

O sociólogo Espanhol Carlos Gómez Gil, especialista em cooperação para o desenvolvimento, que tem dedicado grande parte de sua carreira à análise de microcréditos em todo o mundo, afirma na sua obra EL COLAPSO DE LOS MICROCRÉDITOS EN LA COOPERACIÓN AL DESARROLLO** que Yunus tentou construir em torno dele um discurso de desenvolvimento contra a pobreza, mas o que ele buscou foi basicamente expandir um capitalismo sem regras entre os setores mais pobres por meio de sua bancarização. 

Ainda segundo Gomez Gil, Yunus fez a bandeira de ajudar os mais pobres, mas criou um império de negócios muito diversificado, que foi alimentado pelo Grameen Bank, de empresas de telefonia móvel a fabricantes de calçados.

Atualmente as nações tradicionalmente permeáveis aos microcréditos estão olhando para este tipo de iniciativa com uma lupa, submetendo os programas de microcrédito a um quadro regulatório mais apertado. Na Índia, onde alguns estados já legislaram uma taxa máxima de juros, Paquistão, Bangladesh, Nicarágua, Bolívia ou México, tanto governos quanto ONGs estão restringindo o crescimento desta modalidade de financiamento.

Na verdade os programas de acesso ao microcrédito podem ser ferramentas importantes para o alívio da pobreza nos seguimentos sociais menos “atrativos” para a banca tradicional. Contudo, os seus resultados podem efetivamente ser desastrosos quando implementados em contextos em que a presença do Estado, enquanto entidade reguladora do sistema financeiro e provedor das condições básicas de sobrevivências, for fraca ou inexistente.

Se o Estado não assumir a sua responsabilidade na definição e implementação de políticas para a geração do emprego; na garantia de acesso a um ensino de qualidade, na construção e manutenção de infraestruturas económicas e sociais; no acesso a água e energia de qualidade, etc., não será por via do endividamento (muitas vezes à taxas de juro escandalosamente altos) que a pobreza será vencida.

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* https://www.files.ethz.ch/isn/136619/1425842_file_Roodman_Due_Diligence_brief_FINAL.pdf

** https://www.businessinsider.com/hundreds-of-suicides-in-india-linked-to-microfinance-organizations-2012-2