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Dom, Jul

Haverá alternativas à economia que mata?

Opinião
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A Igreja do Pentecostes é um processo nunca acabado de novas experiências, novas práticas e o grito dos sem vez e sem voz. O contrário do condomínio fechado de privilegiados do saber, do dinheiro, isto é, do poder de dominar.

Opinião de Frei Bento Dominguês, OP

1. Os anos não perdoam. Os adversários das posições e das práticas do Papa Francisco confiaram, durante bastante tempo, nessa lei da natureza. Quando se deram conta de que este argentino resiste e não desiste das reformas que propôs, entraram em pânico: dada a sua popularidade, é possível que da eleição de um novo Papa surja alguém da mesma linha. Isso não pode acontecer! Daí, a reunião de pessoas e recursos da finança internacional para denegrirem a imagem de Bergoglio.

Para esses grupos - pouco numerosos, mas com muita visibilidade e acesso a inúmeros recursos - é insuportável ter à frente da Igreja Católica alguém que denuncia a economia dominante como “economia que mata”. Supor que existem e podem crescer alternativas a esta economia é uma blasfémia, uma heresia económica sem perdão.

Até agora, o Papa Francisco agia de forma exemplar em relação aos que são deixados à margem e abandonados. Fazia incessantes apelos em socorro das vítimas da guerra que procuram, em condições miseráveis, acolhimento noutros países. Em todo esse esforço, é sempre o Papa a agir e a falar ou a nomear comissões de estudo para resolver problemas. Mesmo os três notáveis discursos sobre a injustiça social e económica, dirigidos aos movimentos populares, não fogem a esse estilo. Agora, porém, com a Carta convocatória para o Encontro “Economy of Francesco”, em Assis, de 26 a 28 de Março de 2020, parece ter começado uma era nova. É dirigida a jovens economistas, empreendedores e empreendedoras de todo o mundo, não como mestre em Doutrina Social da Igreja, mas como alguém que deseja participar no conhecimento das alternativas que existem à “economia que mata” e ampliar as suas potencialidades.

Antes de realçar a significação desta mudança, devo dar a palavra à própria Carta. No primeiro parágrafo resume o seu desejo: «Esta Carta é para vos convidar para uma iniciativa que muito desejei: um evento que me permita encontrar quem, hoje, está a formar-se, a começar a estudar e a praticar uma economia diferente que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, que cuida da criação e não a degrada. Um evento que nos ajude a estar juntos e a conhecermo-nos, que nos leve a fazer um “pacto” para mudar a economia actual e dar uma alma à economia de amanhã».

Recorre à sua Encíclica Laudato si’: «sublinhei como hoje, mais do que nunca, tudo está intimamente ligado, e a salvaguarda do ambiente não pode ser separada da justiça para com os pobres e das soluções dos problemas estruturais da economia mundial. É preciso, portanto, corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito pelo ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado pela família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores, os direitos das futuras gerações. Infelizmente, continua ainda por escutar o apelo a tomar consciência da gravidade dos problemas e, sobretudo, a concretizar um modelo económico novo, fruto de uma cultura da comunhão, baseado na fraternidade e na equidade».

Voltando à Carta do Papa: «desejo encontrar-vos, em Assis, para juntos promovermos, através de um “pacto” comum, um processo de mudança global que veja, em comunhão de propósitos, não só quantos têm o dom da fé, mas todos, mulheres e homens de boa vontade, para além das diferenças de credo e de nacionalidade, unidos por um ideal de fraternidade atento sobretudo aos pobres e aos excluídos. Convido cada um de vós a ser protagonista deste pacto, assumindo a tarefa de um compromisso individual e colectivo para cultivarmos juntos o sonho de um novo humanismo que responda às expectativas do ser humano e do desígnio de Deus».

2. É evidente que as grandes escolas de economia e gestão também gostam de jovens. Sem eles, não poderiam existir. A questão de fundo é a sua orientação. Estão ao serviço de que interesses? Não falta quem afirme que, muitas vezes, se destinam a uma lavagem ao cérebro, para que aprendam a engenharia de manter e aprofundar as desigualdades sociais. Não desejam um mundo de cidadãos, mas de consumidores que, de tão obcecados com os níveis do seu próprio consumo, acabem por fazer o jogo dos que ganham com esta economia “que mata”. Essa economia foi concebida, não para fortalecer a democracia, mas para a enfraquecer subordinando o poder político ao poder económico. A publicidade revela e esconde. Revela o que tu deves desejar e esconde o que te arruína. A máquina desta engenharia tem ao seu serviço uma grande rede de ilusionistas para mostrar que não há alternativa, ignorando aquelas que, já no terreno, estão a abrir novos caminhos de participação. Quem domina a economia também domina os grandes meios de comunicação. Não lhes interessa divulgar as iniciativas que coloquem em cheque a mentalidade e as práticas dominantes, criando um futuro diferente para as pessoas e as comunidades. 

3. É muita ousadia da parte do Papa tentar destruir o dogma de que não há alternativas viáveis à economia dominante. Existem, são pouco conhecidas e muito pouco divulgadas. O encontro de Assis tem como primeiro objectivo partilhar o que já está a acontecer nas diferentes partes do mundo. Maior ousadia ainda é convocar, crentes e não crentes, para que as «vossas universidades, as vossas empresas, as vossas organizações se tornem estaleiros de esperança para construir outros modos de entender a economia e o progresso, para combater a cultura do descartável, para dar voz a quem não a tem, para propor novos estilos de vida». É ousadia porque não faz uma encíclica ou cria uma comissão, mas convoca para um movimento que fermente a massa, quando normalmente à Santa Sé se pede que tenha a primeira e a última palavra. Este Papa quer entrar na escola dos jovens que investigam, quer conhecer as experiências em curso e, sobretudo, os novos projectos de economias alternativas. Não os trata como objectos do seu magistério, mas como sujeitos do percurso da Igreja.

O que diz respeito a todos deve ser tratado por todos. O próprio Jesus estremeceu de alegria ao ver chegar uma nova Era: o que durante séculos e séculos tinha sido ocultado ao povo simples, aos pequeninos, pelas interpretações rebuscadas e abusivas dos falsos sábios das Escrituras, estava, finalmente, ao alcance de todos. 

A Igreja do Pentecostes é um processo nunca acabado de novas experiências, novas práticas e o grito dos sem vez e sem voz. O contrário do condomínio fechado de privilegiados do saber, do dinheiro, isto é, do poder de dominar.

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A opinião é de Frei Bento Domingues, O.P., publicada pelo jornal português Público, 26-05-2019.