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Qui, Jul

Sofrimento psíquico: A busca pela felicidade a todo o custo no mundo pós-moderno

Opinião
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A felicidade, como afirma a Carta Apostólica Salvici Doloris de João Paulo II, está na descoberta do sentido do sofrimento e de como afrontá-lo positivamente e integrá-lo no nosso tecido vivencial, continuando sempre o caminho pessoal. 

Opinião de Hernany Dias*

A maioria das pessoas preferem temas mais leves, prazerosos e soluções para os problemas que enfrentam quotidianamente, como por exemplo os problemas de saúde. O sofrimento psíquico é um destes, mas temos a tendência de evitá-lo, de escondê-lo como vivência, e muitas vezes prefere-se o “deixa estar”, minimizar e esconder o próprio mal-estar. Com certeza ao ler o título do artigo alguns pensaram: “Porque devo gastar o meu tempo lendo um artigo sobre o sofrimento psíquico? Não sou maluco!”.

É necessário falar do mal-estar, do sofrimento psíquico com o objectivo de debelar alguns tabus, algumas crenças erradas e alguns prejuízos à volta deste tema. O objectivo deste artigo não é fornecer receitas para evitar ou cancelar a experiência do sofrimento psíquico da nossa vida, mas dar sentido e significado à uma experiência que faz parte da vivência pessoal de cada indivíduo. 

A nossa sociedade pós-moderna está cada vez mais narcisista orientada exclusivamente pela procura do prazer e não ensina às novas gerações a  capacidade de tolerar a frustração; tal cultura hedonista nos leva a crer que a vida deveria ser um “oásis de felicidade”. Por isso temos a sensação que esta felicidade está a faltar, ou acreditamos que nunca a experimentamos, sentimo-nos pouco vital, “p’ra baixo”, melancólicos, preocupados, diverso dos outros. Continuamos a perguntar: “o que é que não está bem?” “o que é que não funciona?” “Porque não sou feliz e sereno como os outros?”. 

Neste contexto faz todo o sentido falarmos da “ratoeira da felicidade”: a sociedade actual nos ensina que a vida deveria ser tudo alegria e divertimento, serenidade e satisfação, que devemos todos viver uma fábula, sempre felizes e contentes. Tal ensino é um falso mito que coloca as pessoas constantemente à procura desta efémera felicidade que vem contraposta com o sofrimento, o qual deveria ser eliminado a todo o custo. 

O primeiro mito: a felicidade é condição natural de todos os seres humanos.  Somos levados a pensar que, abandonados a si mesmos, os seres humanos são naturalmente felizes e que somente uma estranha história pessoal, que somente um trauma grave o uma disfunção biológica possa conturbar esta paz interior. Na realidade o ser humano está sempre lutando, mesmo vivendo uma vida que satisfaz. A propósito: quantas pessoas conhecemos que não passaram sérios problemas psicológicos, sociais, laborais, relacionais ou emoções desagradáveis como a ansiedade, depressão, raiva ou que tiveram problemas de autocontrolo, sexuais, de dependência, etc? Creio que ninguém pode afirmar que nunca teve uma destas experiências ou de ter contactado com uma pessoa que teve tais experiências. 

Actualmente temos um nível de vida muito elevado do que antigamente. Mas, de facto, o homem que vive melhor não parece estar tanto feliz. Semanalmente, uma décima da população adulta mundial sofre de depressão clínica relevante, um em cinco pessoas sofrem de depressão em algum momento da vida. Segundo o Relatório da OMS, divulgado na semana passada, Cabo Verde é o segundo país africano com mais deprimidos, com cerca de 24 240 casos.  Mundialmente, um adulto em quatro, em alguma fase da vida é dependente do álcool ou de alguma outra substância. Destes dados parece ser evidente como o sofrimento psíquico na realidade está mais difundido de que a cultura nos leva a crer. 

O segundo mito: devo libertar-me dos sentimentos negativos. É  o imperativo da sociedade do bem-estar que diz-nos de eliminar as emoções negativas e de enchermo-nos de positividade, de “good vibe”. Mas, recordemo-nos que qualquer experiência humana significativa é caracterizada por uma gama de sentimentos, sejam agradáveis que desagradáveis. O mesmo vale para as relações sentimentais: não obstante os belos momentos de uma relação afectiva, existirão momentos de sofrimento, onde sentiremos desiludidos e feridos. O mesmo acontece como os nossos projectos de vida que muitas vezes criam em nós stress e ânsia. Então, não é possível uma vida melhor sem estar pronto para experimentar emoções desagradáveis. 

A realidade é que a dor faz parte da vida e não se pode evitá-la. Mesmo se não podemos evitar o sofrimento, podemos aprender a enfrentá-lo, dando-lhe espaço, não lutando constantemente para eliminar os seus efeitos mas reduzindo os seus efeitos e criando assim, uma vida que vale a pena ser vivida. 

Assim, a dor psicológica é normal, é importante e acompanha cada pessoa. Quanto mais corremos dos sentimentos desagradáveis, maior é o risco de sofrermos de depressão e ansiedade. Não podemos libertarmo-nos do sofrimento psíquico, não querendo senti-lo nem experimentá-lo.  Devemos procurar viver uma vida rica, plena e significativa em todos os seus momentos. É possível viver uma vida que tenha valor, mesmo sofrendo. Não é necessário identificarmo-nos com o nosso sofrimento, é somente uma fase. 

A aceitação dessa realidade, por mais dolorosa que possa ser, é o único modo para consentir a mudança desta realidade.  A mudança sempre é precedida por uma crise que permite uma desestruturação e reorganização do nosso Eu. Para mudar é necessário tomar consciência dos próprios defeitos, limites e erros, premissa para assumir as responsabilidades e arregaçar as mangas diante das circunstâncias desfavoráveis: para afrontar o sofrimento é, então, importante aceitá-lo e integrá-lo e não combatê-lo. Quando somos invadidos por pensamentos tristes, as ânsias e as obsessões, não devemos reagir contra e nem negá-los, mas devemos vivenciá-los, excluindo os exageros, e isto só será possível, se formos guiados pelos nossos princípios e valores, escolhendo de prosseguir no nosso caminho pessoal. 

A felicidade, como afirma a Carta Apostólica Salvici Doloris de João Paulo II, está na descoberta do sentido do sofrimento e de como afrontá-lo positivamente e integrá-lo no nosso tecido vivencial, continuando sempre o caminho pessoal. 

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*Hernany Dias, seminarista maior da Diocese de Mindelo, escreve todas as quartas feiras. Leia os seus outros artigos: 

- Desinformação e Fake news: A manipulação da opinião na época da pós-verdade

- A Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Magistério da Igreja