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Dom, Mai

Desinformação e Fake news: A manipulação da opinião na época da pós-verdade

Opinião
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Na sua Mensagem para o LII Dia Mundial das Comunicações Sociais, sob o tema «“A verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32). Fake news e jornalismo de paz», o Papa Francisco alertou para a urgência de uma ampla e articulada reflexão sobre este fenómeno de interesse colectivo, para evitar «o descrédito do outro, a sua representação como inimigo, chegando-se a uma demonização que pode fomentar conflitos».

Opinião de Hernany Dias (Seminarista)

 

O termo fake news é certamente um neologismo, mas o conceito de falsa notícia não é novo. Segundo consta, Augusto, primeiro imperador de Roma, conduziu uma verdadeira e própria campanha de desinformação contra o rival Marco António, acusado de ser um ébrio e uma marionete nas mãos de Cleópatra. À mercê desses rumores, surgiu a falsa notícia que Cleópatra suicidara. Marco António, então, suicidou e graças a essa fake news  Augusto conseguiu destruir a República e instaurou o Império. Porém, na antiga Roma para difundir uma falsa notícia eram precisos meses. Hoje, através da Web, é suficiente uma fracção de segundo. 

Falar de fake news é impreciso, é melhor referir-se a desinformação, um fenómeno muito mais complexo e amplo que uma falsa notícia. Por um lado, acontece que, muitas vezes, uma fake news não é totalmente falsa, contendo elementos factuais que realmente aconteceram. E por outro, vai para além do conceito basilar de notícias, englobando os fenómenos como meme, trolling organizado, etc. 

Quando se fala de desinformação refere-se a divulgação de conteúdos informativos falsos, infundados, manipulados ou transmitidos de maneira inverídica, criados artisticamente de modo a parecerem verossímeis no contexto mediático.

Embora a desinformação pode estar presente em todos os media e a difusão, deste tipo de conteúdo, seja ocasionada por condicionamentos da opinião pública, é com a consolidação da internet (das plataformas online em particular) que assumiu uma nova e ampla proporção.

Substancialmente, a existência da desinformação conota-se a seis elementos principais: a falsidade dos conteúdos (conteúdos fake), a contaminação dos mesmos (ou seja, transferem estados emotivos e percepções dos utentes, ou almejam condicionar o comportamento dos receptores), a intenção dolosa na sua criação, a motivação política/ideológica o económica de quem cria para depois difundi-las, a difusão do mesmo em maneira massiva e o desejo de produzir um impacto no pluralismo informativo (portanto, para gerar efeitos na formação de opinião dos cidadãos). 

A emissão de conteúdos fake no sistema informativo acontece essencialmente em três fases ou seja, a criação da mensagem que se quer transmitir, a produção do conteúdo em que a mensagem vem incorporada e transformada em produto informativo, e, subsequentemente, a distribuição.

Na fase da criação, é elaborada a mensagem para ser veiculada. Esta assume características variadas segundo o objectivo dos idealizadores e o alvo. Em geral, a mensagem é idealizada de modo a activar a audiência, envolvendo-a também em difusões ulteriores.

Na fase de produção do conteúdo, a mensagem é transformada em um produto informativo, que pode assumir a forma de um texto, de uma imagem, de um vídeo ou uma combinação destes. Por fim, na fase de distribuição, o conteúdo fake é publicado.

A distribuição é através de vários canais, tipicamente um site web ou uma plataforma online, e consente de colocar o conteúdo fake no contexto mediático pré-escolhido, que desenvolve um papel importante sobretudo de atendibilidade da mensagem.

Na realização dos conteúdos participam geralmente vários sujeitos. São idealizadores de conteúdos ou de uma inteira campanha de desinformação  (singulos indivíduos; empresas editoriais e não só) com finalidade cultural, ideológica, política, criminal, etc. Muitas vezes, os sujeitos que perseguem as estratégias de desinformação usam accounts ou perfis falsos. Efectivamente, se a informação é um bem económico e social, a desinformação é por si só um “mal”.

Perante o contexto, caracterizado pela globalização e digitalização, quem pode acreditar nas fake news?  Quem é vulnerável? Uma primeira resposta, dada pelas pesquisas psicossociais, entre os mais vulneráveis estão as pessoas que têm um baixo nível de instrução, com baixo auto-estima. Mais expostos aos riscos das Ffake news está também quem – por uma série de razões e causas de tipo objectivo ou subjectivo – só pode aceder a um número reduzido de informações e não pode comparar as fontes e os conteúdos diversos.

Mas existe uma factor importante: só acredita, maioritariamente, nas fake news quem “quer” acreditar – pois estas notícias – mesmo quando são suspeitas ou palesemente falsas – encontram confirmação nas próprias ideias, opiniões e crenças precedentes. O risco nasce do facto que normalmente somos poucos conscientes das influências que sofremos.

Somos levados a crer e preferimos crer que os outros é que são mais vulneráveis do que nós às mensagens enganadoras e manipuladoras. Porque nós somos críticos e inteligentes e os outros ignorantes, ingénuos e “acreditam em tudo”. Este tipo de mentalidade afecta sobretudo as pessoas instruídas e os intelectuais que acreditam ser imunes porque têm ideias claras e distintas.

Certo que as sensibilidades ao fascínio das influências externas são diferentes, mas ninguém está imune. Quem se sente imune pode ser uma “presa” da própria presunção de impermeabilidade, visto que os manipuladores conhecem bem esta resultância e como dribrá-la. 

O confim entre o verdadeiro e o falso tornou-se muito ténue, tanto que já se utiliza o termo “pós-verdade” (do inglês post-truth), escolhido em 2016 pelo Oxford dictionary como “palavra do ano”. Com a política da pós-verdade ou política pós-factual entendia-se uma cultura política caracterizada por debates, em grande parte plasmados sobre emoções do público e desconectados dos detalhes do assunto em discussão, em que os factos objectivos são menos influentes que as emoções e as crenças pessoais. A própria verdade é colocada em segundo plano no debate. Hoje fala-se de pós-verdade  referindo-se aos fake news

Não se supera o desafio decisivo da pós-verdade e das Fakes news somente ao interno do mundo político ou da informação, mas com uma sociedade viva capaz de «deixar-se purificar pela verdade» examinando «aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor», como salienta o Papa Francisco na sua Mensagem para o LII Dia Mundial das Comunicações Sociais.