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Sex, Mar

Agronomia, uma formação que aprendi a amar e a respeitar

Opinião
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É inegável o importante papel dos agrónomos na implementação dos vários projetos de mobilização de água e de reordenamento das bacias hidrográficas que permitiram ao país atingir cerca de 3 mil hectares de área irrigada, incluindo cerca de 1820 hectares com sistema de rega gota a gota, fomentando o aumento da produtividade e da produção agrícola.

Opinião de Vladmir Silves Ferreira

 

Em 2011 fui convidado para integrar a equipa diretiva da então recém-criada Escola de Ciências Agrárias e Ambientais (ECAA) da Universidade de Cabo Verde. Aceitei o desafio com muito agrado, não só pelo facto de na altura já ter algum interesse de pesquisa pelas questões ligadas ao desenvolvimento do mundo rural mas sobretudo pela oportunidade de poder participar na montagem e implementação do primeiro Curso de Licenciatura em Agronomia a ser ministrado em Cabo Verde.

Depois de muitas leituras, pesquisas, reuniões e procura de parceiros, nacionais e internacionais (e aqui devo destacar o importante apoio técnico que recebemos da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil), abrimos a nossa primeira turma em Março de 2013 com um total de 20 jovens estudantes.

Da análise que fizemos em relação às tendências atuais, à nível internacional e das especificidades do nosso país, optamos por desenvolver um plano curricular que aposta na formação de um agrónomo cientificamente capaz de atuar em qualquer parte do mundo mas que é sobretudo muito conhecedor da realidade Social e Ambiental das nossas ilhas.

Ao mesmo tempo, fruto de um diagnóstico efetuado em parceria com o Ministério da Agricultura, abrimos um curso de Complemento em Agronomia e Zootecnia, com o objetivo de dar oportunidade aos quadros desse ministério, com formação média, para melhorarem as suas habilitações e poderem melhor servir o país. Hoje, 6 anos depois, temos um corpo de técnicos, extensionistas e inspetores sanitários melhor preparados e muitos assumiram funções de chefia ao nível das Delegações do Ministério da Agricultura, nas Câmaras Municipais, etc.

O meu percurso na Escola de Ciências Agrárias e Ambientais também deu-me a oportunidade de convívio, de partilha e aprendizagem com os técnicos e profissionais que no dia-a-dia lutam por um mundo rural melhor e pela segurança alimentar e nutricional do nosso país. Todo trabalho já desenvolvido pelo INIDA na introdução de novas espécies, mais resistentes e adaptados à nossa realidade; no combate às pragas, sobretudo através de técnicas não nocivas ao ambiente; na conservação e valorização de sementes; na preservação da nossa biodiversidade, etc.

É inegável o importante papel dos agrónomos na implementação dos vários projetos de mobilização de água e de reordenamento das bacias hidrográficas que permitiram ao país atingir cerca de 3 mil hectares de área irrigada, incluindo cerca de 1820 hectares com sistema de rega gota a gota, fomentando o aumento da produtividade e da produção agrícola.

É impossível dissociar estas e muitas outras conquistas do trabalho desenvolvido pelos agrónomos Cabo-verdianos desde os primeiros anos da nossa independência. Não é por acaso que hoje temos um leque de proprietários e empresários agrícolas bem preparados que demandam e exigem mais e melhor capacidade do Ministério da Agricultura em lhes prestar a devida assistência técnica, nos mais variados domínios da produção agroalimentar. Isto advém do facto de hoje todos reconhecermos que não é possível alcançar altos patamares de desenvolvimento apenas com algum conhecimento empírico, transmitido oralmente de geração em geração. 

As metas que o país ambiciona atingir, nomeadamente, aumentar a produção com vista a se atingir o promissor mercado turístico, só será possível com uma aposta contínua na formação de quadros capacitados em todos os domínios e especialidades das ciências agrárias.

Aprendi a amar e a respeitar o trabalho desenvolvido pelos agrónomos Cabo-verdianos que diariamente, de sol a sol, sobem as ladeiras, montanhas, vales e ribeiras deste país na luta permanente que o Homem das ilhas trava para vencer a natureza agreste que Deus lhe proporcionou. 

Com eles tenho aprendido que um agrónomo é muito mais do que um Engenheiro, é um poeta, é um criador, é um portador de sonhos, e acima de tudo é um fazedor de vidas, que da terra faz desabrochar alimentos, que infelizmente nem sempre respeitamos no prato que comemos todos os dias.