21
Qui, Fev

Há quase 30 anos, João Paulo II

Opinião
Tipografia

Estou certo de que nenhum historiador cabo-verdiano ou analista dos fenómenos sociopolíticos, debruçando-se sobre as causas que levaram à queda da ditadura em Cabo Verde, incluirá a visita e os discursos do Papa a Cabo Verde. Um grande erro que tem a ver, quiçá, com preconceitos que todos conhecemos ou com modos parciais de olhar para a história.

 

Opinião de Frei António Fidalgo de Barros 

Há quase 30 anos, em pleno regime de partido único, um Papa que é hoje venerado como santo em toda a Igreja, visitou o nosso país. Em nenhum momento João Paulo II se referiu directamente à situação política em vigor nestas ilhas. Pediu, sim, a Deus que cada cabo-verdiano visse sempre respeitada e respeitasse “a dignidade da pessoa humana em si e nos demais, e pudesse dispor da suficiência dos meios indispensáveis para viver bem”. 

Também pediu a “defesa de valores como a vida e a qualidade de vida, a segurança, a educação, o trabalho, a saúde, a habitação, a participação livre na vida colectiva, a expressão religiosa privada e pública”, etc. 

Na homilia da Quebra Canela, referindo-se ao passado destas ilhas, pronunciou palavras que  ecoaram naquela praia como um trovão: “a vossa terra, tornou-se outrora, conhecida por ser ponto estratégico para a guerra e lugar que encurtava distâncias para o comércio; infelizmente, também para o abominável comércio de pessoas humanas, nos tempos da escravatura. É até possível que persistam cicatrizes disso na vossa cultura. Hoje aqui convosco, duas coisas quereria sublinhar, pois são uma linha constante do Magistério eclesiástico: A primeira é: NÃO às discriminações de todo o tipo; jamais a escravização do homem pelo homem; nunca mais qualquer forma de violência, demolidora da dignidade das pessoas; jamais, nunca mais, a negação dos direitos de Deus sobre o homem: “o homem que vive é a glória de Deus”. 

Numa altura em que se verificava alguma tensão entre o regime e a Igreja Católica, tensão essa, porém, que o então Bispo de Cabo Verde, D. Paulino Livramento Évora, fez de tudo para não radicalizar, lembrou que “De tal modo a Igreja está ligada à história desta Nação, que, eliminá-la ou desconhecê-la, seria mutilar o próprio património sócio-cultural do arquipélago.”

Podemos perguntar: o que é que levou o Papa a não denunciar frontalmente a ditadura do partido único então vigente em Cabo Verde. A resposta é muito simples: não era necessário. Bastou que dissesse as coisas que disse. E o mais importante foi o que aconteceu menos de um mês após a visita, aquilo que na altura foi classificado como autêntico rombo no casco no barco do regime. Este declarou falência e a sociedade começou a movimentar-se e a organizar-se rumo à democracia. 

Recorde-se que também na sua primeira visita à terra natal, Polónia, um ano antes de visitar Cabo Verde, em nenhum momento o saudoso Papa denunciou abertamente o regime totalitário vigente no país. Disse simplesmente, dirigindo-se sobretudo ao célebre Movimento Solidarność: “Não tenham medo!” E a seguir rezou: ‘Que o teu Espírito desça e mude a imagem da terra... desta terra”.  

É verdade ou não que, muitas vezes, “o melhor está nas entrelinhas”?

Leche Walesa, o fundador e  Lider do referido Movimento “Solidariedade” e Prémio Nobel da Paz, pelo contributo que deu para a queda do regime totalitário na Polónia, é peremptório: “50% da queda do muro está relacionada a João Paulo II, 30% à Solidariedade e Lech Walesa, e apenas 20% ao resto do mundo. Essa era a verdade naquela época e é a verdade agora”.

Figuras autorizadas como o historiador britânico Timothy Garton Ash, agnóstico liberal,  indicou que, embora “ninguém possa provar de forma conclusiva que ele (São João Paulo II) foi a principal causa do fim do comunismo”, “as figuras mais importantes de todos os lados”, entre eles, o falecido ex-presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, “estão de acordo que ele foi”. E acrescenta “Sem o Papa polaco, não haveria ocorrido a revolução do Solidariedade na Polónia em 1980; sem Solidariedade, não teria acontecido nenhuma mudança dramática na política soviética em relação à Europa Oriental sob (Mikhail) Gorbachov; sem essa mudança, não teria ocorrido uma revolução em 1989”, na Checoslováquia.

Estou certo de que nenhum historiador cabo-verdiano ou analista dos fenómenos sociopolíticos, debruçando-se sobre as causas que levaram à queda da ditadura em Cabo Verde, incluirá a visita e os discursos do Papa a Cabo Verde. Um grande erro que tem a ver, quiçá, com preconceitos que todos conhecemos ou com modos parciais de olhar para a história.

Eu, porém, termino dizendo: obrigado, S. João Paulo II, por teres contribuído para acelerar o advento da democracia em Cabo Verde. Continua a rezar para que o Espírito desça e continue a mudar a imagem desta terra e do mundo e faça cair os muros que ainda hoje alguns, teimosamente, pretendem levantar entre as fronteiras das nações.