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Qui, Fev

Um presente herdado

Opinião
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O presente de que se orgulha Cabo Verde foi herdado de um percurso histórico, marcado por sistemas ingratos e de aguda fragilidade cívica e psico-socio-cultural.

Opinião de Laurindo Vieira

Depois de 515 anos de colonialismo, finalmente chegou a independência que trouxe consigo anos de controverso sistema monopartidário, com todo o negro que de escrito e oral e misterioso se pode ter acesso.

15 anos depois, acenou o multipartidarismo, com a promessa de um Estado de Direito Democrático. Dez anos de mudança do sistema político e de queda do regime que derrubou o inapropriado artigo 4, trouxe mudanças que nunca dispensaram uma tranquila digestão.

Tanto é que caiu o regime, mas a essência ideológica disseminada continuou nos novos atores do novo contexto de democracia. A nova proposta ideológica resistiu no poder uma única década, para dar lugar a alternância.

O mesmo partido e, supostamente o mesmo núcleo duro do regime anterior, regressa ao poder para mais 15 anos. Estes se passaram. As últimas eleições trouxeram de volta a alternância.

E é com esta última alternância que estamos a rabiscar o Cabo Verde desejado. Independentemente dos sistemas e ideologias o povo cabo-verdiano sempre lidou com a miséria, com a pobreza, com a ignorância, com alguma forma de censura que leva à pior delas que é a autocensura e aos bloqueios.

Não se estranha a gritante apatia cívica em assuntos do interesse comum nem o descaso generalizado para o conhecimento dos direitos consagrados na lei. É notória a hipersensibilidade quando o assunto é criticar ou opinar.

A formulação da crítica é raras vezes bem feita e a aceitação, quase nunca bem acolhida. É com habitual desconfiança que se discutem os orçamentos e planos, no nosso meio, porque estamos habituados a confundir metas e objectivos.

É aqui que entram as “segundas intenções”. A nossa história nos balizou em modelos falsos. Tendencialmente, nos pendemos estes gatilhos sabotadores da nossa felicidade na luta pelo bem comum.

Para cada segundo que continuarmos a ignorar ou negar factos do nosso percurso, estamos a nos distanciar décadas de tudo o que o nosso consciente almeja. E todas as ideologias sabem disso quando insistem na mudança de mentalidade.

É necessário, sim romper com esta herança, rejeitar este presente. Precisamos alterar o código, para termos acesso à fonte que nos proporciona a inspiração do caminho do progresso enquanto povo e nação.

Temos a tendência ingénua e lunática de acreditar que uma política é o progresso e a satisfação soberana do que aspiramos. Isto nos leva ao bloqueio de contribuições úteis que podem completar o quebra-cabeças.

A nossa história é uma mestra que nos ensinou a ser resilientes, a lutar, a acreditar, a ser belos, a ser muita coisa boa. E nos pressiona, também, com sussurros permanentes, para esperarmos que as coisas aconteçam, lamentarmos, para sermos amadores, para não acreditarmos que os sonhos não são meras realidades abstractas oníricas míticas ou utópicas.

Os sonhos são realidades que ainda estão distantes. O sonho é a realidade que vai chegar. Então, sonhar é um imperativo que urge. O diâmetro dos sonhos deverá ser apenas infinito.