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Sex, Mar

O que mais desejo para o meu país em 2019

Opinião
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Há um desejo que gostaria de expressar neste começar do ano e num momento em que se diz que o país está  a progredir economicamente: que ao Governo Deus dê sabedoria para governar e à oposição a capacidade de saber discernir entre fazer oposição e fazer obstrução.

A opinião do Frei António Fidalgo de Barros

 

Se querem saber o que gostaria de ver reforçada neste país, eu digo: a estabilidade política. A estabilidade não é uma sombra de bananeira debaixo da qual nos sentamos satisfeitos. É sempre uma tarefa inacabada e jamais concluída. Uma família pode ser pobre mas, se os seus membros, mantendo as diferenças, souberem unir-se em prol da sobrevivência de todos, haverá felicidade no lar. É mais fácil fazer reinar a paz numa família pobre do que numa família abastada.

Em qualquer país, quanto mais houver crescimento económico, tanto mais aumentam os factores que podem pôr em risco a estabilidade. Por isso, há um desejo que gostaria de expressar neste começar do ano e num momento em que se diz que o país está  a progredir economicamente: que ao Governo Deus dê sabedoria para governar e à oposição a capacidade de saber discernir entre fazer oposição e fazer obstrução.

Aos governantes, gostaria de lembrar o exemplo do famoso rei Salomão. O Senhor apareceu-lhe em sonhos, durante a noite, e disse-lhe: «Pede! Que posso Eu dar-te?» Salomão respondeu: eu não passo de um jovem inexperiente que não sabe ainda como governar, por isso, concede ao teu servo um coração cheio de entendimento para governar o teu povo e discernir entre o bem e o mal. De outro modo, quem seria capaz de julgar o teu povo, um povo tão importante?» O livro dos Reis (2 Reis 3) conta que a oração agradou ao Senhor que disse a Salomão: «Já que me pediste isso e não uma longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sim o discernimento para governar com rectidão, vou proceder conforme as tuas palavras: dou-te um coração sábio e perspicaz, tão hábil que nunca existiu nem existirá jamais alguém como tu.»

Pode-se desejar coisa melhor ao nosso primeiro-ministro Ulisses e à sua equipa, do que a sabedoria que leva o governante a escutar, a escutar mais, a escutar sempre, a escutar a todos, a discernir e a agir?

Mas a estabilidade sociopolítica depende também e muito da oposição. Uma oposição que prime não por ser oposição ao que não é bom para o país e mais por obstruir até o que é bom, porque receia que essa acção reverta em benefício de quem está no poder, pode pôr em perigo a estabilidade.

Governar tem regras; actuar na oposição, também tem regras. Por isso, se o governo pode e deve ser criticado quando age mal, também é verdade que a oposição pode e deve ser criticada quando, em vez de fazer oposição, faz obstrução. O obstrucionismo não é bom nem para o país nem a própria oposição que, devido a essa forma de actuar, pode vir a ser penalizada nas eleições. Se o governo, tendo meios para fazer, por exemplo, uma estrada, construir uma escola ou um centro sanitário, não os faz, merece ser criticado. Mas, tendo meios e fazendo, deve ser apoiado e não obstruído.

Governar é a arte de procurar o bem comum e não o bem deste ou daquele grupo, privilegiando, porém, os mais desfavorecidos. Essa tarefa compete tanto ao governo como à oposição. O próprio parlamento terá um melhor funcionamento e a experiência já provou que há mais produção, se esse lugar não for transformado num palco teatral, onde o que se diz é apenas para o inglês (ou povo) ouvir, através da rádio.

Nós, os cristãos, rezamos pelos governantes conforme nos pede S. Paulo na sua 1ª carta a Timóteo (2,2). Por isso, o Papa Francisco diz palavras severas acerca disso: «Não rezar pelos governantes é um pecado que deve ser confessado». Francisco diz que essa oração deve ser feita sobretudo «para não deixar sozinhos» quantos têm menos «consciência» que o seu poder não é absoluto, mas vem do povo e de Deus. Contudo, diz ainda, também «os governantes devem rezar para pedir a graça» de servir da melhor maneira o povo que lhe foi confiado. E se não são crentes, pelo menos peçam conselhos para não perder de vista o bem comum e para sair do pequeno contexto auto-referencial do próprio partido. 

Porém, há que rezar também pelos políticos da oposição, para que se oponham apenas ao que é negativo e jamais contra o que é bom. Pedir, enfim, pelos cidadãos para que sejam honestos. saibam exigir, mas saibam também dar.